segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Helping the world's poorest see better

A Zulu man wearing adaptive eyeware
A Zulu man wearing adaptive glasses. Photograph: Michael Lewis

Inventor's 2020 vision: to help 1bn of the world's poorest see better
Professor pioneers DIY adjustable glasses that do not need an optician

http://www.guardian.co.uk/society/2008/dec/22/diy-adjustable-glasses-josh-silver

* * *

Genial. Para mim, está no mesmo nível (ou acima) de outras invenções baratas, acessíveis e transformadoras como o Q Drum e o "pot-in-pot" cooler.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

The Big Picture: 2008 in photographs

Já era grande fã da seção The Big Picture do The Boston Globe online.

Mas a retrospectiva 2008 é simplesmente de babar:



Amanhã tem a terceira e última parte. Mal posso esperar!

PS: só não tive coragem de abrir as fotos com "conteúdo questionável"

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Citizen's arrest: the man who almost caught Robert Mugabe (twice)

I tried and failed. It's time someone else arrested Robert Mugabe
We flunked an opportunity to jail Mugabe in 1999 and prevent eight years of murder, mayhem, starvation and disease
http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/columnists/guest_contributors/article5327393.ece

Impressionante:

The first attempt was in late 1999, when Mugabe came to London on a private shopping spree. As the President's limousine left his hotel, by pre-arranged plan, my three OutRage! co-conspirators - Alistair Williams, Chris Morris and John Hunt - ran into the road, forcing it to halt. I ran from behind, opened the rear door, grabbed Mugabe by the arm, and read him the charge: "President Mugabe, you are under arrest on charges of torture." Mugabe's jaw dropped. His face was contorted with fear. I thought to myself: now you know how your victims feel, except we aren't going to kill you.
[...]
My second attempted citizen's arrest was in Brussels in 2001, when I ambushed Mugabe in the lobby of the Hilton Hotel. This time his bodyguards were ready for me. I was beaten unconscious. At one level, this was a good thing, because TV film of the beating helped to alert the world to Mugabe's brutality.
I was left with chipped teeth, and this week I was at the dentist again having more treatment to repair the damage. The beating has also affected my eyesight, memory, concentration, balance and co-ordination. I can still cope, but I am a bit slower than I used to be. These injuries are, however, nothing compared with the terrible tortures inflicted on Mugabe's critics inside Zimbabwe.

Declaração esperançosa

Os resultados da pesquisa encomendada pela Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência sobre a percepção de brasileiros sobre o tema me surpreendeu:
  • Só 8% avaliam que as políticas da área servem só aos criminosos
  • 47% discordam da expressão "bandido bom é bando morto"
  • Um terço da população diz que o direito dos presos deve ser totalmente respeitados -- neste último, a Folha fala em "só um terço", mas eu achei que fosse ser muito menos
  • 48% apóiam que casais do mesmo sexo possam adotar crianças
  • 42% das pessoas apóiam a união civil homossexual
Sim, ainda não índices baixos para um País que gostaria de se considerar civilizado. Mas a situação já é bem melhor do que eu pensei.

Declaração infeliz, ainda, mas esperançosa. Feliz 60 anos!

http://www.dh60anos.com.br/arquivos/image/Selo.jpghttp://www.direitoshumanos.gov.br/60anos

PS: Não encontrei a referida pesquisa para consulta. Se alguém encontrar, por favor deixe o link nos comentários!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Declaração infeliz

No dia em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 60 anos, uma pérola do jornalismo policial:

São Paulo, quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Toda Mídia

"TEM QUE DAR PORRADA!"
Band


José Luiz Datena narrou a perseguição de um carro, "Quase bateu! Bateu agora! É a primeira vez que eu vejo isso! É a primeira vez na televisão brasileira!". Mas a cena continuou e os policiais espancaram o motorista. Ao vivo, o "repórter aéreo" censurou, mas o apresentado falou, "pode mostrar!, tem que dar porrada mesmo!"

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1012200825.htm

2008, o ano que não quer acabar

Não é sem certa ironia que o ano que, para mim, passou mais rápido nos últimos 16 anos (pelo menos) será, tecnicamente, o ano mais longo nesse mesmo período.

* * *
São Paulo, quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

HORA CERTA

Astrônomos vão inserir um segundo extra no ano de 2008

DA REDAÇÃO

Na madrugada do próximo dia 1º de janeiro, quando fogos-de-artifício estiverem clareando o céu, a noite será mais longa. Um segundo mais longa, para ser preciso, segundo o consórcio internacional que administra o TUC (Tempo Universal Coordenado).
O segundo extra não será alívio para quem precisar de tempo para se recuperar de uma ressaca, mas é necessário para coordenar sistemas de informação que requerem grande precisão, como o sistema de localização GPS e o protocolo NTP (a hora unificada da internet).
A decisão de tornar 2008 um segundo mais longo foi confirmada agora pelo Observatório Naval dos EUA, uma das entidades integrantes do Iers (Serviço Internacional de Rotação da Terra e Referência de Sistemas).
A necessidade de adicionar tempo à duração oficial do dia 31 é coordenar os dois sistemas de medida cronológica que existem hoje. Um leva em conta a rotação da Terra e outro toma como base relógios atômicos, muito precisos. O problema é que a rotação da Terra está reduzindo de maneira extremamente sutil, e com o passar dos anos as horas atômica e terrestre saem de sincronia.
Desde 1972, quando foi criado o TUC, segundos extra foram adicionados ao tempo atômico várias vezes para que o descompasso entre os dois relógios nunca fosse maior que um segundo. A última vez foi em 2005.
O ano de 2008, porém, será o mais longo desde 1992, a última vez que um ano bissexto ganhou ainda um segundo extra. Sistemas que estão em sincronia com o Escritório Internacional de Pesos e Medidas, em Paris, o administrador do UTC, não precisam acertar o ponteiro "manualmente", pois relógios atômicos cadastrados na entidade transmitirão a informação automaticamente.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1012200804.htm

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Happy catches

http://graphics8.nytimes.com/images/misc/nytlogo153x23.gif

Strangers May Cheer You Up, Study Says

By PAM BELLUCK
Published: December 4, 2008

How happy you are may depend on how happy your friends' friends' friends are, even if you don't know them at all.

And a cheery next-door neighbor has more effect on your happiness than your spouse's mood.

So says a new study that followed a large group of people for 20 years — happiness is more contagious than previously thought.

[...]

[MOAR!]

* * *

Sem querer dar muito palpite sobre estudos que eu não li diretamente, pareceu-me que um fator em jogo é a proximidade física, mais do que a afetiva. Então não seria apenas uma questão de grau de contato com o "vizinho feliz", mas de influência do ambiente.

E o ambiente diz respeito apenas às pessoas à nossa volta, como também aspectos físicos da vizinhança. Em outras palavras, é possível que pessoas numa vizinhança sejam felizes por aspectos "conducentes de felicidade" daquele lugar.

Um vizinho feliz é um vizinho de bem com a vida -- e consigo mesmo. Tende a cuidar melhor da sua casa, o que torna a vizinhança mais bonita. Uma vizinhança bonita é uma vizinhança em ordem, onde os moradores tendem a cuidar mais dela -- ver meu post sobre estudo empírico que reforçou a teoria das "janelas quebradas". E isso gera externalidade positiva para os demais vizinhos.

Não poderia ser esse o fator propagador de felicidade?

Para mim, mais um motivo para esperar e exigir uma São Paulo bem melhor do que a que vejo.

Science needs adventurers

Nice NASA presentation about why they think "we" should go to the moon (again):

http://www.lpi.usra.edu/meetings/leagilewg2008/presentations/oct28am/hale.pdf

It looks huge (over 100 pages), but it goes like that! <snaps finger>

This is my new reference to presentation design.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A little (too much) paranoid

Politico.com Logo - Click to return to home page

December 3, 2008

Ros-Lehtinen hangs up on Obama. Twice.

Is Ileana Ros-Lehtinen a little paranoid?

Maybe.

On Wednesday, the Republican congresswoman got a call from President-elect Barack Obama, didn't believe it was him, and hung up on him. Twice.

According to Ros-Lehtinen's flack Alex Cruz, the congresswoman received the call on her cell phone from a Chicago-based number and an aide informed her that Obama wanted to speak to her. When Obama introduced himself, Ros-Lehtinen cut him off and said, "I'm sorry but I think this is a joke from one of the South Florida radio stations known for these pranks." Then she hung up.

Moments later, Obama tried again, this time through his soon-to-be chief of staff, Rahm Emanuel.  

"Ileana, I cannot believe you hung up on the President-Elect," Emanuel said. And then--yes, you know what's coming--she hung up on Emanuel saying she "didn't believe the call was legitimate."

A short time later, Ros-Lehtinen received an urgent call from Rep. Howard Berman (D-Calif.), the chairman of the Foreign Affairs Committee, who informed her that she indeed hung up on Obama. 

So, Obama tried again and this time he was successful. (Phew!)

"It is very funny that you have twice hung up on me," Obama said. Ros Lehtinen responded by telling Obama that radio stations in South Florida always make these sorts of jokes. Obama said similar pranksters reside in Chi-town.

"You are either very gracious to reach out in such a bipartisan manner or had run out of folks to call if you are truly calling me and Saturday Night Live could use a good Obama impersonator like you," Ros-Lehtinen joked with the president-elect.

Ros-Lehtinen then congratulated Obama on his victory and pledged to work together on behalf of all Americans. She also asked Obama to call Sen. Bob Menendez (D-NJ) and Rep. Albio Sire (D-NJ) to discuss Cuba policy.

Here's hoping they don't hang up on him.  

URL: http://www.politico.com/blogs/thecrypt/1208/RosLehtinen_hangs_up_on_Obama_Twice.html

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Japan's new retirement home

Pills and porridge: prisons in crisis as struggling pensioners turn to crime
http://www.guardian.co.uk/world/2008/jun/19/japan

Soundbites:

The over 60s are the fastest-growing group of criminals in Japan, which incarcerates its pensioners at a rate far higher than any other country in the industrialised world.

[...]

While the number of Japanese aged 60 and over grew by 17% between 2000 and 2006, the number of prisoners in the same age bracket soared by 87%

[...]

In 2006 Japan's prison population stood at about 80,000, of whom 12% were at least 60.

[...]

Japan is far ahead of other countries in locking up elderly people. According to the latest figures available, 2.8% of prisoners in the UK are in the same age bracket, while in the US 1.8% of prisoners are over 60.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Fim da violência

Site da campanha "HOMENS unidos pelo fim da violência contra as MULHERES":

http://www.homenspelofimdaviolencia.com.br/

Também apóio o combate à violência contra o homem. E contra as crianças. E contra os idosos. Enfim, contra todo tipo de violência...

A última vez que bati em alguém foi há uns 20 anos, quando eu estava na 4ª série e era, como muitas outras crianças, um idiota. Dei um soco, tomei vários, depois parei, porque vi que dói -- só percebi o quanto dói nos outros quando doeu em mim, até aí nenhuma novidade da psicologia infantil.

Será que tem gente que encara um tipo de violência como normal, aceitável, e outro como intolerável? Como será que funciona esse raciocínio?! Talvez, se a gente conseguir entender os mecanismos psicológicos da violência, conseguiremos acabar com todas de uma só vez, sem precisar de campanhas dispersas, não-articuladas.

Enfim, só me incomoda um pouco esse "na mulher não pode" porque parece que a conclusão natural é "homem bater em homem, sim". E segue a violência nos estádios...

Sei que não é esse o intuito da campanha, e que esse é um problema com facetas específicas (há ligação emocional e relação assimétrica de força e de poder econômico, na maioria das vezes), e que tem que ser dirigido a um público específico, com uma linguagem específica.

Mas é só que, sem estabelecermos uma "cultura de paz" ampla e incondicional, teremos que continuar fazendo essas campanhas picadas de tempos em tempos -- até semana passada, o tema em pauta era "violência contra crianças", por conta dos múltiplos infanticídios e casos de violência nas escolas que então dominavam o noticiário.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ajuda aos desabrigados pelas chuvas

SOLIDARIEDADE EXPRESSA CORREIOS

Você faz a sua doação de onde está.
Os Correios buscam e entregam para os desabrigados da chuva.


A chuva deixou milhares de desabrigados por todo o Brasil. Você pode ajudar sem fazer muito esforço e até sem sair de casa. Preencha o formulário de doação, aqui mesmo pela internet. A gente busca seus donativos (roupas, alimentos não-perecíveis e remédios) em sua casa e faz a entrega no estado indicado por você, sem cobrança de taxa. Assim você estará ajudando a quem precisa. Participe. Os Correios estão unindo forças com todos os brasileiros para ajudar o Brasil.

Caso seu objetivo imediato seja obter informações específicas sobre nossos produtos e serviços ou mesmo registrar suas críticas, elogios, sugestões e reclamações, você pode utilizar os seguintes canais de atendimento: o serviço Fale com os Correios, em nosso site ou a Central de Atendimento ao Cliente - CAC, pelo telefone 0800 570 0100. O serviço Fale Conosco também está disponível nos Terminais de Acesso à Internet, localizados em nossas agências.

URL: http://www.correios.com.br/faleConosco/default.cfm

domingo, 23 de novembro de 2008

Broken windows: it works, bitches!

O que já era observado em vários estudos de caso agora foi comprovado por meio de um experimento científico controlado. A idéia de que "desordem" facilita outras condutas indesejáveis, alicerce da teoria das "janelas quebradas" ou da filosofia de tolerância zero em Nova Iorque, ganhou evidências ainda mais sólidas.

Quem não quiser ler o artigo abaixo pode conferir a versão em áudio:

http://downloads.economist.feedroom.com/podcast/t_assets/20081121/20081122_ae5_3233.mp3

Os números são impressionantes. O mais impressionante é o experimento no qual a desordem estava associada a uma freqüência duas vezes maior de furto. A relação entre crime e desordem é bastante complexa, mas já havia sido competentemente explorada em outro estudo empírico, Disorder in Urban Neighborhoods—. Does It Lead to Crime?, de Robert J. Sampson e Stephen W. Raudenbush, já mencionado por este blog.

Agora um prefeito não pode mais deixar uma cidade como São Paulo pronta para filmar Blindness e ao mesmo tempo bradar que está preocupado em combater a criminalidade. "Cidade Limpa" não pode ser apenas uma "canetada" disciplinando a colocação de placas, cartazes e outdoors. Deve ser um esforço constante das autoridades e da burocracia pública para manter em ordem todos os elementos públicos e privados da cidade: ruas, calçadas, muros, fachadas, praças, prédios públicos, tudo. Incrível como um slogan bonito foi a principal referência lembrada pelos eleitores sobre o candidato vencedor das últimas eleições paulistanas.

São Paulo precisa de muito mais do que isso!

* * *

Economist.com

Criminology

Can the can
Nov 20th 2008
From The Economist print edition

The idea that graffiti-spraying and other forms of low-level delinquency promote further bad behaviour has now been tested experimentally

Getty Images
Getty Images


A PLACE that is covered in graffiti and festooned with rubbish makes people feel uneasy. And with good reason, according to a group of researchers in the Netherlands. Kees Keizer and his colleagues at the University of Groningen deliberately created such settings as a part of a series of experiments designed to discover if signs of vandalism, litter and low-level lawbreaking could change the way people behave. They found that they could, by a lot: doubling the number who are prepared to litter and steal.

The idea that observing disorder can have a psychological effect on people has been around for a while. In the late 1980s George Kelling, a former probation officer who now works at Rutgers University, initiated what became a vigorous campaign to remove graffiti from New York City's subway system, which was followed by a reduction in petty crime. This idea also underpinned the "zero tolerance" which Rudy Giuliani subsequently brought to the city's streets when he became mayor.

Many cities and communities around the world now try to get on top of anti-social behaviour as a way of deterring crime. But the idea remains a controversial one, not least because it is often difficult to account for other factors that could influence crime reduction, such as changes in poverty levels, housing conditions and sentencing policy—even, some people have argued, the removal of lead from petrol. An experimental test of the "broken windows theory", as Dr Kelling and his colleague James Wilson later called the idea, is therefore long overdue. And that is what Dr Keizer and his colleagues have provided.


Dr Kelling's theory takes its name from the observation that a few broken windows in an empty building quickly lead to more smashed panes, more vandalism and eventually to break-ins. The tendency for people to behave in a particular way can be strengthened or weakened depending on what they observe others to be doing. This does not necessarily mean that people will copy bad behaviour exactly, reaching for a spray can when they see graffiti. Rather, says Dr Keizer, it can foster the "violation" of other norms of behaviour. It was this effect that his experiments, which have just been published in Science, set out to test.

His group's first study was conducted in an alley that is frequently used to park bicycles. As in all of their experiments, the researchers created two conditions: one of order and the other of disorder. In the former, the walls of the alley were freshly painted; in the latter, they were tagged with graffiti (but not elaborately, to avoid the perception that it might be art). In both states a large sign prohibiting graffiti was put up, so that it would not be missed by anyone who came to collect a bicycle. All the bikes then had a flyer promoting a non-existent sports shop attached to their handlebars. This needed to be removed before a bicycle could be ridden.

When owners returned, their behaviour was secretly observed. There were no rubbish bins in the alley, so a cyclist had three choices. He could take the flyer with him, hang it on another bicycle (which the researchers counted as littering) or throw it to the floor. When the alley contained graffiti, 69% of the riders littered compared with 33% when the walls were clean.

To remove one possible bias—that litter encourages more litter—the researchers inconspicuously picked up each castaway flyer. Nor, they say, could the effect be explained by litterers assuming that because the spraying of graffiti had not been prevented, it was also unlikely that they would be caught. Littering, Dr Keizer observes, is generally tolerated by the police in Groningen.

The other experiments were carried out in a similar way. In one, a temporary fence was used to close off a short cut to a car park, except for a narrow gap. Two signs were erected, one telling people there was no throughway and the other saying that bicycles must not be left locked to the fence. In the "order" condition (with four bicycles parked nearby, but not locked to the fence) 27% of people were prepared to trespass by stepping through the gap, whereas in the disorder condition (with the four bikes locked to the fence, in violation of the sign) 82% took the short cut.

Nor were the effects limited to visual observation of petty criminal behaviour. It is against the law to let off fireworks in the Netherlands for several weeks before New Year's Eve. So two weeks before the festival the researchers randomly let off firecrackers near a bicycle shed at a main railway station and watched what happened using their flyer technique. With no fireworks, 48% of people took the flyers with them when they collected their bikes. With fireworks, this fell to 20%.

The most dramatic result, though, was the one that showed a doubling in the number of people who were prepared to steal in a condition of disorder. In this case an envelope with a €5 ($6) note inside (and the note clearly visible through the address window) was left sticking out of a post box. In a condition of order, 13% of those passing took the envelope (instead of leaving it or pushing it into the box). But if the post box was covered in graffiti, 27% did. Even if the post box had no graffiti on it, but the area around it was littered with paper, orange peel, cigarette butts and empty cans, 25% still took the envelope.

The researchers' conclusion is that one example of disorder, like graffiti or littering, can indeed encourage another, like stealing. Dr Kelling was right. The message for policymakers and police officers is that clearing up graffiti or littering promptly could help fight the spread of crime.

URL: http://www.economist.com/science/displaystory.cfm?story_id=12630201

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

europeana: pensez culture

europeana
pensez culture

Parece ser a versão européia do Google Books.

Por que eles se recusaram a usar a infra-estrutura física (scanners de alta performance para digitalização dos livros, servidores parrudos etc.) e, sobretudo, a tecnológica (principalmente seu poderoso mecanismo de busca), eu não entendo. Se a questão é dar independência e uma "cara européia" ao empreendimento, acho que o Google não se recusaria a fazer uma parceria: a europeana faria uma máscara personalisada, e teria um índice exclusivo para seus livros — quem os visitasse, não perceberia o Google engine por trás. Mas os mesmos livros também estariam disponíveis para quem visitasse o Google Books.

Numa visão aparentemente anti-americana e anti-big corporations, resolveram partir para uma solução própria. E não agüentaram o tranco: com 10 milhões de hits por hora, o servidor deles caiu. Pensez extensibilité!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

The Political Compass™

I'm a "libertarian leftist", very close to the Dalai Lama:

http://www.politicalcompass.org/facebook/pcgraphpng.php?ec=-4.25&soc=-6.92

Where do you stand?

Math joke of the day

An infinite number of mathematicians walk into a bar. The first one orders a beer. The second orders half a beer. The third, a quarter of a beer. The bartender says "You're all idiots", and pours two beers.
— Randgruppenhumor cont'd

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Direitos demais

Carta de leitor na Folha de hoje:

Briga na escola
"Sobre a violência nas escolas, muitas vezes já me perguntei: será que esse Estatuto da Criança e do Adolescente não deu direitos demais para essa garotada e se esqueceu de estabelecer os deveres? Ou deu deveres de menos. O professor não pode fazer nada. Eles mandam na sala, na escola. Qualquer um deles sabe invocar o ECA em sua defesa. E o que é mais lamentável é ver pais de alunos que barbarizam as escolas saírem em defesa de seus filhos. No meu tempo, se o aluno era repreendido na escola por algo errado que fez, também levava castigo em casa. Havia um profundo respeito pelos professores."
JOSÉ HENRIQUE TEIXEIRA (Jaú, SP)

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1711200810.htm

* * *

Contexto:

Alunos brigam, depredam escola e apanham da PM

* * *

Curioso é que isso esteja vindo junto com notícias sobre o aumento da violência contra as crianças.

Para alguns, elas têm direitos demais -- mesmo que estes direitos sejam sistematicamente violados.

Também acham que elas têm deveres de menos -- não percebem que o problema não é a falta de leis e regras que limitem condutas socialmente danosas, mas nossa completa incapacidade de fazer valer o império da lei, requisito elementar de uma democracia.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Subprime Pacheco

Folha de hoje:

Governo Lula teme o "subprime Pacheco"

"Subprime" é o nome dado nos EUA ao crédito de segunda linha e de alto risco cuja inadimplência está no epicentro da crise financeira global.
"Pacheco" une as primeiras sílabas de Passat, Chevette e Corcel -veículos antigos, bastante populares em sua época e que servem para simbolizar o consumo de automóveis da nova classe média, pessoas com renda mais baixa e que ajudam muito nos índices de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Genial.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Pensamento do dia

We only appear confident in our superior knowledge and in the ignorance in others because our knowledge is superior and others are ignorant.

The audacity of greed

And the folks at Morgan Stanley? They're planning to pay themselves $10.7 billion this year, much of it in bonuses — almost exactly the amount they are receiving in the first phase of the bailout. "You can imagine the devilish grins on the faces of Morgan Stanley employees," writes Bloomberg columnist Jonathan Weil. "Not only did we, the taxpayers, save their company...we funded their 2008 bonus pool."

É de matar, né?!

Leia mais:

The New Trough
The Wall Street bailout looks a lot like Iraq — a "free-fraud zone" where private contractors cash in on the mess they helped create
http://www.rollingstone.com/politics/story/24012700/the_new_trough

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Uma interpretação do Brasil

Eles vêem o Brasil que eu vejo. Eles querem o Brasil que eu quero.

* * *



Presente nebuloso

Por João Marcos Coelho, para o Valor, de São Paulo | 31/10/2008

Jefferson Dias / Valor
Os historiadores Adriana López e Carlos Guilherme Mota: desideologização também é fruto da ausência de grande partido socialista democrático polarizador, como o PS de Mitterrand

Uma frase dita por Robespierre pode funcionar como senha para a leitura de "História do Brasil - Uma Interpretação", obra monumental escrita pelos historiadores Adriana López e Carlos Guilherme Mota, recém-lançada pela editora Senac-SP. "Sou talhado para combater o crime, não para governá-lo", afirmou o revolucionário francês em 1794. Em derradeira nota de pé de página do livro, os autores completam seu pensamento: "Ainda não chegou o tempo em que os homens de bem podem servir impunemente à pátria. Os defensores da liberdade não passarão de proscritos enquanto dominar a horda de velhacos." E, em seguida, os dois fazem uma significativa advertência: "Para o leitor sem medo, vale para meditar acerca da história do Brasil contemporâneo".

Sim, trazer Robespierre para o Brasil de hoje faz muito sentido. Sobretudo após o escândalo do mensalão - ou esquema de compra de votos de parlamentares -, que estourou entre 2005 e 2006 e atingiu em cheio o Partido dos Trabalhadores e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Na opinião de Mota, professor da Universidade de São Paulo e da Universidade Mackenzie, esse episódio da história recente indica que os anos de chumbo se foram e que estamos numa nova era: "Nenhuma das vozes 'golpistas', outrora de tanta ressonância, fez-se ouvir. Definitivamente, vive-se em um outro país, sem dúvida melhor."

Apesar de identificarem muitas práticas políticas típicas de um Brasil ainda atrasado, como diria Caio Prado Júnior, Mota e Adriana vêem atualmente sinais de projetos e ações de uma nova sociedade civil, com certo poder de transformação. O frescor estaria por conta de partidos como o P-SOL, sobretudo no Rio, e de neófitos como Soninha Francine, em São Paulo. Adriana cita também o fenômeno Fernando Gabeira e algumas organizações não-governamentais. "Há uma nova sociedade civil, com gente como Oded Grajew, do Instituto Ethos, para ficarmos num só exemplo. Os eleitos começarão a ser mais cobrados, enfim."

A novidade desses movimentos é que eles não se encaixam nos moldes tradicionais dos partidos atuais, como o DEM, o PSDB e o PT. "Ao PSDB falta conteúdo ideológico, um projeto nacional denso. Talvez agora José Serra acorde e mobilize teóricos e ideólogos para tal construção, pois [Geraldo] Alckmin nem percebeu isso", comenta Mota. O PT, por outro lado, teria "envelhecido antes de atingir a idade madura".

O voto paulistano em Gilberto Kassab, por exemplo, não teria como pano de fundo apenas sua "competência administrativa", mas seria também uma rejeição ao que Mota qualifica de neopopulismo de esquerda, que emergiu num partido que "não poderia ser populista": o PT. "Os 'aloprados', os 'mensaleiros' e o preconceito homofóbico dos marqueteiros de Marta Suplicy fizeram o resto, um desastre", comenta o historiador.

Céticos, mas não pessimistas, ambos observam que há um processo de desideologização generalizada na sociedade: nos partidos, nos sindicatos, na imprensa e na universidade. "Isso é resultado da ausência de um grande partido socialista democrático polarizador, como o antigo PS de François Mitterrand [presidente da França de 1981 a 1995]. Nem o PSDB nem o PT lograram isso", diz Mota.

Nas mais de mil páginas de "História do Brasil - Uma Interpretação", entretanto, os autores fazem uma viagem de volta. Oferecem uma análise de mais de cinco séculos de Brasil, com elementos para entender as questões que permeiam a formação da sociedade brasileira e impactam nos fenômenos atuais. Trata-se de uma instigante e inovadora releitura, começando com a chegada dos primeiros habitantes à Terra Brasilis, 20 mil anos atrás, e terminando literalmente nos dias de hoje. "Privilegiamos a chamada história de longa duração", observa Mota.

Gustavo Lourenção / Valor
A vitória de Kassab (na foto com Serra), baseada "na competência administrativa", também teria dado um recado aos neopopulismos de esquerda, de um partido que não poderia ser populista, o PT

No livro, salpicam, aqui e ali, perfis de intelectuais e políticos oblíquos, que fizeram a diferença - ou melhor, teriam feito, se suas idéias não tivessem sido devidamente recalcadas pelo estamento burocrático e pela eterna conciliação das elites, que reina soberana nesse arco de vários séculos. Nomes como José Bonifácio, por exemplo, banido por recomendar a abolição da escravatura nos anos 20 do século XIX; ou o intelectual paulista Sérgio Milliet, "fundador da Universidade de São Paulo injustamente marginalizado". Ou Lúcio Costa, Afonso Arinos e Paulo Duarte. Mas também chamam Pedro II de "chapado medíocre", que fingiu governar um país livre, indo na contramão do recente resgate do imperador de longas barbas brancas, de repente qualificado como estadista e intelectual.

Negociando conceitos e dialogando constantemente com intelectuais do porte de Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Raymundo Faoro e Eric Hobsbawm, além de historiadores pouco lembrados, como José Maria Bello e mesmo José Murillo Carvalho, Mota e Adriana não recuam diante da atualidade, que qualificam de "presente nebuloso". Em geral, historiadores hesitam quando solicitados a se pronunciar a respeito da atualidade. "Falta distanciamento."

Valor: Ao observar as eleições como historiadores, que etapa consideram que vivemos? Houve uma desideologização das campanhas? O eleitorado votou em nomes ou escolheu seus candidatos por causa do marketing?

Carlos Guilherme Mota: O eleitorado sempre votou em nomes. Em algumas capitais, como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, ele parece voltar-se mais para a questão da administração competente, naquilo que interfere no seu dia-a-dia, como transporte, saúde, habitação e educação. Mas a verdadeira resposta é: sim e não. O marketing teve menor papel que a própria atuação dos candidatos no horário eleitoral. Gilberto Kassab cresceu rápido, enquanto Geraldo Alckmin se revelou menor do que realmente é. Mas há uma desideologização geral, nos partidos, nos sindicatos, na imprensa, na universidade. Isso é resultado da ausência de um grande partido socialista democrático polarizador, como o antigo PS de François Mitterrand. Nem o PSDB nem o PT lograram isso. Na universidade e nos sindicatos, as coisas não vão melhor: sindicalistas corruptos e universitários acomodados, silentes, passivos. E a imprensa está bem perdida no meio do tiroteio.

Valor: Os resultados das eleições municipais demonstram que ainda vivemos naquilo que os senhores chamam de "democracia senzaleira"?

Mota: Os currais eleitorais se modernizaram em alguns Estados, como o do Rio, em que Eduardo Paes pôde contar com o apoio do governador Sérgio Cabral. Só faltaram os "capoeiras" de antanho para dar surras nos opositores. No entanto, Fernando Gabeira conseguiu mobilizar a aspiração de modernidade de uma parcela da população cansada de violência, corrupção, impunidade. Já em São Paulo, a vitória de Kassab, baseada na competência administrativa, também deu um recado aos neopopulismos de esquerda, de um partido que não poderia ser populista, o PT. Os "aloprados", os "mensaleiros" e o preconceito homofóbico dos marqueteiros de Marta fizeram o resto, um desastre. E tem Belo Horizonte, Salvador, São Luís, feudo dos Sarney, tudo sugere que o Brasil continua muito atrasado. Tem o Beto Richa em Curitiba, moderno, mas veja o Geddel Vieira em Salvador.

Valor: Dá para falar em democracia efetiva no Brasil? Alguns fatos parecem contradizer essa frase: o envio de tropas do Exército às favelas cariocas para garantir a presença dos candidatos e a limitação de saques nos bancos em Mato Grosso do Sul, determinado pelo Tribunal Regional Eleitoral. O objetivo do TRE era diminuir o volume da "compra de votos" nos dias que antecederam às eleições. O que acham?

Adriana López: Lembro o Caio Prado Júnior: o Brasil é um país muito atrasado. Esses exemplos sugerem que houve desmobilização fatal, letal mesmo, da sociedade civil nos últimos 50 anos. O resultado está aí, e outra vez com o Exército, agora tentando segurar as pontas. As lideranças militares mais conscientes, que tinham um projeto nacional e social, foram também cassadas. Fala-se pouco dos militares nas três armas que não foram torturadores ou complacentes e tinham um projeto nacional na mente. Eles foram desmobilizados. Agora são chamados a segurar essa barbárie que seus superiores deixaram prosperar.

Leo Pinheiro / Valor
Fernando Gabeira,durante campanha para a Prefeitura do Rio: ao lado de Soninha, do P-SOL, de Chico Alencar e de uma nova sociedade civil, ele retoma as utopias de 1968-71, diz Mota

Valor: Durante as eleições houve também a proibição de entrada na cabina de votação com celular na mão, pois os traficantes estariam exigindo que os eleitores tirassem fotos de seus votos para comprovar que obedeceram ao "chefe" e, portanto, continuassem com o direito à vida...

Adriana: Os celulares fazem parte da revolução tecnológica que vivemos pelo avesso neste país. Mas mais grave ainda é o coronelismo eletrônico, a concessão desbragada de canais de TV e rádio para grupos religiosos de mente rude, primitiva, por assim dizer "cristãos", por parte do poder central. A quem interessa esse estado de coisas?

Valor: Em que difere o que se tem caracterizado como "neopopulismo lulista" de outras versões anteriores, espalhadas pela história do Brasil?

Mota: No Brasil ainda existe uma parcela enorme de gente abaixo do nível da pobreza. Dar de comida a essa parcela de patrícios é uma obrigação do Estado. Dar dentaduras para comer também. O problema, como dizia d. Paulo Evaristo Arns, não é apenas dar aos pobres o peixe para comer, mas ensinar a pescar. Não cremos que isso esteja ocorrendo. O drama de nossa história é que, cada vez que temos um governo popular, ele regressa ao caldo cultural do populismo. O que é o lulismo, senão isso, atualizado? Inserir quem e onde, se a sociedade civil é tão débil, tão frágil, muito consumista e malformada? Sociedade civil no Brasil ainda é uma utopia. Veja o Rio. Veja os presídios, o assassínio da irmã Dorothy, entre tantos.

Valor: No momento em que o Tribunal Superior Eleitoral, os políticos e o presidente Lula elogiam a democracia brasileira e o sagrado direito do voto exercido pela população, já podemos falar em democracia representativa para valer aqui?

Mota: Não. Vivemos ainda dentro do modelo autocrático-burguês, como analisou o professor Florestan Fernandes. Ou seja, um modelo não democrático-burguês. É verdade que nossa tecnologia funciona melhor que a americana, sobretudo a de Miami. A fidelidade partidária inexiste, não há voto distrital, os partidos estão desidratados do ponto de vista social e ideológico, a representatividade é fraudada por meio das sobras eleitorais que servem para eleger quem não teve voto. E essa confusão dos poderes, com o Supremocracia, com as medidas provisórias, com o centrão sob controle do PMDB. Claro que há mentes lúcidas, como o ministro Carlos Ayres Brito, ou o ministro do STF Joaquim Barbosa. Mas a mentalidade média de nossas lideranças é medíocre, como vimos quando da votação da liberdade de pesquisa de células-tronco, por exemplo.

Valor: O que se pode esperar para o futuro?

Adriana: Há sinais, aqui e ali, de projetos e ações de uma nova sociedade civil, que não se encaixam nos moldes tradicionais dos partidos atuais, como o DEM, o PSDB e o PT. Ao PSDB falta conteúdo ideológico, um projeto nacional denso. Talvez agora José Serra acorde e mobilize teóricos e ideólogos para tal construção, pois Alckmin nem percebeu isso. Já o PT envelheceu antes de atingir a idade madura: um lumpemproletariado [na sociologia marxista, camada social carente de consciência política, constituída pelos operários que vivem na miséria extrema e por indivíduos direta ou indiretamente desvinculados da produção social] e uma lumpemburguesia sequiosos de cargos e empregos tornaram esse "avião" muito pesado para voar bem. Partidos novos como o P-SOL, sobretudo no Rio, e caras novas como a Soninha, em São Paulo, o fenômeno Gabeira e algumas poucas ONGs que não se conspurcaram, indicam novos horizontes, que poderão se delinear melhor com a crise que vem aí. Em suma, há uma nova sociedade civil, com gente como Oded Grajew, para ficarmos num só exemplo. Os eleitos começarão a ser mais cobrados, enfim.

Valor: A história do Brasil é, segundo o livro, a história da conciliação das classes e estamentos dominantes para manter o controle do poder. Acham que mesmo numa quadra afortunada, que elegeu um intelectual como FHC e um metalúrgico sindicalista como Lula, estes "novatos" que chegaram ao poder foram imediatamente cooptados, amaciados, neutralizados? Existe algo além da força do estamento burocrático?

Mota: Note que desde 1970 até os dias atuais a população brasileira praticamente dobrou. Como dar educação, saúde, habitação e sobretudo senso de civilidade para uma sociedade que se formou sob o capitalismo senzaleiro, à sombra da caserna, regulada por um Estado em que o coronelismo, o nepotismo, o pistolão e os "aspones" sempre dominaram? Uma revolução para valer, burguesa que seja, como a inglesa do século XVII ou a francesa do século XVIII, varreria do mapa essas figuras e clichês da ciência política e da história. A conciliação das elites data de 1850, quando o marquês de Paraná aprimorou o pacto das elites nacionais, para pôr fim às insurreições regionais que pipocavam pelo país. Somos filhos do marquês. É FHC com ACM, é Lula com Delfim e Severino. José Dirceu representa o enterro das utopias de 1968-71, que Gabeira, Soninha, o P-SOL, o Chico Alencar e uma nova sociedade civil retomam. Uma fruta que apodreceu antes de amadurecer. Um intelectual como Chico de Oliveira saiu antes disso tudo. E Florestan, vivo fosse, ainda estaria no PT?

Valor: Neste mundo globalizado, a política virou apenas uma questão de gerenciamento?

Adriana: Não podemos tomar como regra geral alguns episódios, como aqueles que envolveram Duda Mendonça e o governo Lula. Claro que o marketing político existe: FHC foi seu próprio grande marqueteiro. Veja o buraco em que está entrando a Itália do primeiro-ministro Silvio Berlusconi em contraste com a Espanha do presidente José Luiz Zapatero, mais bem administrada. Os EUA de hoje demonstram que não se trata apenas de "gerenciamento", como querem alguns executivos. A boa formação intelectual e política de Barack Obama, como a de Franklyn Roosevelt, de John Kennedy e de Bill Clinton, em contraste com a dos dois Bush, vai pesar muito na construção de um mundo menos bárbaro, mais civilizado, viável.

Valor: Ainda é possível pensar em termos de América Latina, como a geração de Fernando Henrique e Celso Furtado fez?

Mota: Claro que sim. Suas teses ainda estão no ar, com roupa nova. Mas devemos lembrar que aquela geração, muito bem formada no caldo cultural de cabeças como Anísio Teixeira, Hermes Lima, San Tiago Dantas e inúmeros outros, tinha uma proposta nítida de desenvolvimento com forte acento no campo social e educacional. E na política externa independente. Ou seja, a formação de quadros muito bem qualificados para aceleração do desenvolvimento econômico, mas também social e político-cultural. Hoje, o enfoque está quase só voltado para o mercado de capitais, a bolsa, regulação e desregulação, para os interesses financeiros, para a formação superficial de quadros. Precisamos voltar a formar quadros de alto nível intelectual em nossas universidades: em direito, economia, história, ciências sociais, educação para valer, e assim por diante. As humanidades andam raquíticas, tristes, desanimadas, doentes, com professores mal pagos, desatualizados. "Atualizar" era um verbo muito utilizado pelo educador Anísio Teixeira. Quem se lembra dele?

Valor: Os senhores dizem que a universidade está aplastada, anestesiada. Mas a cultura brasileira como um todo não parece viver também um período particularmente pálido e apático?

Adriana: Ocorre a banalização de tudo nestes últimos tempos, inclusive do papel propriamente intelectual da universidade. O aplastamento das inteligências, o nivelamento por baixo, como no resto do país. Que cultura brasileira? A ideologia da cultura brasileira? Ora, essa discussão já foi mais intensa e inteligente, com os Centros Populares de Cultura (CPC), os intelectuais como Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Ferreira Gullar, dramaturgos como Jorge Andrade, Vianinha, Gianfrancesco Guarnieri, Plínio Marcos, com o "Pasquim", "Opinião", os grupos Arena e Oficina, e assim por diante. Estamos numa nova Idade Média cultural pós-moderna de periferia.

Valor: O livro quer responder a duas perguntas básicas: quem fomos nós? Que somos nós?

Adriana: O Brasil constituiu-se como um desdobramento da expansão européia e da exploração dos habitantes nativos e de africanos cativos nos trópicos por parte de europeus. Ou seja, um povo que se formou ao longo de uma colonização de exploração. Não uma colonização de povoamento, com fins religiosos e valores comunitários, como na América do Norte. Um "negócio", em síntese, como definiu o historiador Caio Prado Júnior. Não quer dizer que não tivemos momentos político-culturais e figuras notáveis, como padre Antônio Vieira, Aleijadinho, José Bonifácio, Castro Alves, Lima Barreto, Mário de Andrade. É bom lembrar que a África também nos civilizou, como escreveu o historiador Alberto da Costa e Silva no prefácio ao nosso livro. Mas, desde as inconfidências, e antes mesmo, a contra-revolução preventiva sempre bloqueou as grandes tentativas de reforma e de inovação, como as de Mauá, Delmiro Gouveia, Celso Furtado e muitos outras, como as reformas de base de 1960 a 64, depois 1968, depois 1987. O Congresso Constituinte não foi uma Assembléia Constituinte, como analisamos.

Valor: Tentar compreender seu país deve ser o sonho de todo historiador. Que Brasil é este, o Brasil de Carlos Guilherme Mota e Adriana López?

Mota: É um país em que estamentos pretéritos dos "coronéis" oligárquicos ainda coexistem com novas classes futuras, segmentos emergentes de uma nova burguesia e de trabalhadores, que ainda não constituíram uma sociedade civil democrática, educada, bem formada, estabilizada, infensa aos neopopulismos de direita e de esquerda. Mas que vem se aprimorando nessa direção. Pois há traços de novas gerações de advogados, professores, funcionários, trabalhadores em vários setores, inclusive no campo, muito mais informados do que há meio século. Somos céticos, mas não pessimistas.

"História do Brasil - Uma Interpretação". - De Adriana López e Carlos Guilherme Mota

Editora Senac-SP, 1056 págs., R$ 150

URL: http://www.valoronline.com.br/ValorImpresso/MateriaImpresso.aspx?tit=Presente%20nebuloso&codmateria=5238820&dtmateria=31%2010%202008&codcategoria=92&p=-1&t=12px

Capitalismo às avessas

Não é o máximo quando o governo dá bilhões de reais às montadoras venderem suas SUVs bebedoras de gasolina para a classe alta poder continuar comprando seus veículos?

Cada vez que vejo a propaganda da Hyundai na tevê anunciando a ajuda do governo para comprar os modelos Tucson, Veracruz, Santa Fe etc., me convenço mais de que vivemos numa fase aguda de crony capitalism ("capitalismo de compadres"?).

O imposto que o seu João da Silva paga no feijão que compra com dificuldade está ajudando a Patrícia de Albuquerque Sampaio a comprar seu tão sonhado Santa Fe.

Mais um exemplo para reforçar meu argumento de que importa menos quem paga quanto de imposto (sou um defensor do "flat tax"), e muito mais como o governo redistribui essa receita em serviços para a população. Se ele gastar com os mais ricos, de pouco adianta os esforços de "justiça tributária" no lado da receita. Além de gerar imensas distorções e custos desnecessários de administração tributária, o papel redistributivo do governo não é cumprido -- fica-se na mesma.

Já que o governo está sendo um parceiro dos capitalistas, vamos fazer direito, então. Querem meu dinheiro? Estas são minhas condições:

1) Ele será dado na forma de cash-back na compra de veículos voltados para as classes mais baixas. Nada de "Robin Hood às avessas", nem de dinheiro na conta bancária das montadoras! Elas devem ter um incentivo para realizar a venda, e não apenas aliviar sua posição financeira por meio de subsídios públicos

2) A ênfase é no aumento da frota das cidades já saturadas de veículos, ou na renovação da frota, para diminuir a poluição e os transtornos causados por uma frota velha? Se é a última, então nós daremos o cash-back apenas na troca, não na venda nova. Essa estratégia pode ser diferente nas metrópoles e nas cidades menores, pelas razões recém mencionadas

3) Que tal uma cláusula ambiental? Cash-back apenas para a compra de veículos com motor híbrido (incluindo álcool e/ou gás natural). E que tal incentivar a compra de veículos do tipo plug-in, que funcionam com eletricidade? Faz ainda mais sentido no Brasil do que nos EUA, já que nossa matriz elétrica é uma das mais limpas. Nos EUA, o Toyota Prius já vende mais unidades do que o beberrão Ford Explorer

Mas nada disso é pensar ouside the box. Isso seria, em primeiro lugar, o que queremos resolver com a ajuda governamental. Queremos que as empresas continuem funcionando tradicionalmente? Se não tivesse havido a retração do mercado e o mesmo dinheiro público (R$ 4 bilhões do bolso dos paulistas) tivesse sido usado para financiar a ampliação do metrô ou --se os governantes tivessem um melhor senso de custo-benefício-- a melhora dos ônibus, as pessoas não iriam trocar o transporte individual pelo público? Assim, o setor automotivo não se retraria de qualquer maneira?

Sendo assim, ou o governo cria uma lei estabelecendo que cada real investido em transporte público deve ser compensando por igual montante distribuído às montadoras, ou entendamos que o futuro das metrópoles brasileiras não pode ser via meios individuais de transporte.

Poderíamos usar esse momento como "janela de oportunidade" para repensar a mobilidade urbana.

Mas não! Serra, enterrando de vez a esperança de que ainda houvesse na política brasileira algum grande estadista, à altura de Mario Covas e de Fernando Henrique Cardoso --o primeiro foi vencido pelo câncer, e o segundo já está fora das disputas eleitorais--, preferiu agradar as montadoras!

Enquanto no Brasil a política me deixa frustrado, nos EUA minhas esperanças se renovam: num caso clássico de "vida imita a arte", The West Wing vai sucessivamente se tornando realidade.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

This sums up what happened in the USA last night

Credit: Nina Vidutis
http://farm4.static.flickr.com/3279/3006416363_95ef8de914_o.jpg

A new generation, in every sense, might be on the rise in the USA. ObamaKids.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

He did it!

Congratulations, Barack! Congratulations, America!

http://markgorman.files.wordpress.com/2008/08/barack-obama-capitol.jpg

Now let the healing begin ...

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Stop all the clocks

E já que estamos no assunto, este seria para se um dia eu perdesse o grande amor da minha vida.

Toda vez que assisto a "Quatro casamentos e um funeral", é a parte em que me desmonto em choro.

* * *
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

                  ~ W.H Auden, Stop all the Clocks.

I am not there

Vi o verso abaixo num comentário sobre a morte da avó de Barack Obama, a apenas um dia das eleições americanas.

É o tipo de verso que gostaria de poder recitar no dia da minha morte, aos que ficam.

* * *
Do not stand at my grave and weep,
I am not there, I do not sleep.
I am in a thousand winds that blow,
I am the softly falling snow.
I am the gentle showers of rain,
I am the fields of ripening grain.
I am in the morning hush,
I am in the graceful rush
Of beautiful birds in circling flight,
I am the starshine of the night.
I am in the flowers that bloom,
I am in a quiet room.
I am in the birds that sing,
I am in each lovely thing.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there. I do not die.
                        ~ Mary Frye

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Manifestação inconstitucional

O brilhante jurista Oscar Vilhena Vieira apontou com clareza a inconstitucionalidade da manifestação de ontem -- que fez bastante barulho na janela do meu escritório. O fato se torna mais grave em se tratando da polícia, responsável justamente pela garantia do cumprimento da lei.

Aliás, não foi apenas uma violação de cláusula pétrea constitucional, foram duas:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente;

Apóio a causa. Repudio a forma.

* * *
São Paulo, terça-feira, 28 de outubro de 2008

Policiais estão perdendo a razão, diz advogado

Oscar Vilhena Vieira, advogado e doutor em ciência política pela USP, critica uso de armas por policiais civis grevistas

A atitude põe em xeque credibilidade dos policiais e a capacidade de a categoria fazer reivindicações, diz; para ele, governo também errou

MÁRCIO PINHO
DA REPORTAGEM LOCAL

Os policiais têm razão em sua reivindicação, mas começam a perdê-la quando realizam protestos em que seus integrantes levam armas. A opinião é do advogado, mestre e doutor em ciência política pela USP Oscar Vilhena Vieira, que diz que isso é inconstitucional.
Vieira, que é diretor jurídico da ONG Conectas Direitos Humanos, avalia que a atitude põe em xeque a credibilidade dos policiais e a capacidade de reivindicação. Para ele, porém, o governo errou ao não ser capaz de negociar com a categoria.
Leia alguns trechos da entrevista de Vieira à Folha:

 

FOLHA - Como vê a greve e as reivindicações dos policiais civis?
OSCAR VILHENA VIEIRA
- As polícias no Brasil e a Polícia Civil em São Paulo, em particular, têm passado por um longo período de deterioração das condições de trabalho. Isso significa, por um lado, salário, mas por outro também capacitação, condições operacionais. Em face de tudo isso, que é coisa de mais de uma década já, as reivindicações são aparentemente pertinentes. A polícia de São Paulo tem um dos menores vencimentos da federação.

FOLHA - Qual a sua opinião sobre a posição do governo?
VIEIRA
- Parece que o governo errou de forma contundente na medida em que não foi capaz de negociar e levar em consideração uma reivindicação que não é despropositada. Entrou-se num braço de ferro; perde a população.

FOLHA - Qual a sua opinião sobre policiais levarem armas para a manifestação?
VIEIRA
- Algumas ações dos policiais parecem temerárias. Essa é inconstitucional. A Constituição diz com clareza que há liberdade de manifestação sem armas. Não há exceção para policial, ainda mais em greve. [...] Além disso, o governo, que anda sem razão, neste momento, ganha alguma razão. Os policiais perdem a razão quando usam essa ferramenta. [...] Põem em risco sua credibilidade e a capacidade de fazer movimentos reivindicatórios futuros.

FOLHA - E se alegarem que eram manifestantes isolados que usavam as armas?
VIEIRA
- A maturidade da corporação e das lideranças se mostra nessa hora. Isso não é aceitável.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2810200803.htm

Obama vs. McCain

Kids know best!

http://i38.tinypic.com/21edg5.png

by myself; originals here and here

sábado, 25 de outubro de 2008

Bom jornalismo criminal

Para quem não se lembrar dessa excelente (e agora premiada) reportagem, ela foi destaque aqui neste blog:


Parabéns, Raphael Gomide! Parabéns, Folha.

* * *
São Paulo, sábado, 25 de outubro de 2008

MÍDIA

Reportagem sobre a polícia dá à Folha prêmio da União Européia

DA SUCURSAL DO RIO

Com a reportagem "O Infiltrado - A PM por dentro", o jornalista Raphael Gomide, da Folha, foi um dos três vencedores do Prêmio Lorenzo Natali 2008, na região América Latina e Caribe.
O prêmio é concedido desde 1992 pela União Européia para trabalhos sobre direitos humanos, democracia e desenvolvimento. O nome é uma homenagem ao vice-presidente da Comissão Européia Lorenzo Natali, que morreu em 1990.
Neste ano, 1.501 jornalistas de 151 países participaram do concurso, que tem como parceiros a organização Repórteres sem Fronteiras e a Associação Mundial de Jornais e aceita trabalhos de imprensa, internet, rádio e televisão.
Publicada em 18 de maio no Mais!, a reportagem revelou o cotidiano da formação de soldados da Polícia Militar do Rio, Estado em que as forças de segurança mais matam e morrem no país. Para fazê-la, o repórter foi aprovado em concurso, com sete meses de duração, e foi recruta por 23 dias.
A cerimônia de entrega dos troféus será no dia 17 de novembro em Estrasburgo, na França, com a presença de três escolhidos em cinco regiões (Ásia e Pacífico; África; América Latina e Caribe; Europa; e Mundo Árabe e Oriente Médio). Apenas nesse dia será conhecido o ganhador do Grande Prêmio Lorenzo Natali, que pode ser de qualquer região.
É a segunda vez que a Folha recebe o prêmio Lorenzo Natali. Em 2003, o jornalista Mário Magalhães recebeu uma menção honrosa.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2510200838.htm

Wassup 2008

Recomendo, antes, relembrar o original...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Liberdade de religião

Imaginem um mundo no qual a gente pudesse falar abertamente sobre nossas crenças/convicções religiosas sem medo de perder eleição por causa disso...

Are we there yet? Nope.

Gabeira foi o mais corajoso até agora. Condenar homofobia e apoiar abertamente a comunidade GLBT, e chegar tão perto de assumir seu ateísmo, tudo isso a poucos dias do pleito, requer realmente coragem. Diante da apelação feita pela campanha da Marta, Kassab preferiu não se arriscar aqui em São Paulo, e continuar no armário -- e está no seu direito.

Gabeira++;

* * *
São Paulo, quinta-feira, 23 de outubro de 2008

entrevista

"Apóio liberdade de religião", afirma Gabeira

DA SUCURSAL DO RIO

Em um debate da campanha de 1985 para prefeito de São Paulo, o jornalista Boris Casoy perguntou a FHC se ele acreditava em Deus. A resposta evasiva foi considerada decisiva para sua derrota para Jânio Quadros. Anteontem, o caso foi relembrado pela Folha a Fernando Gabeira. (MÁRIO MAGALHÃES)

 

FOLHA - Acredita em Deus?
FERNANDO GABEIRA
- Defendo liberdade de religião. Tenho em relação aos verdadeiros religiosos duas afinidades. A primeira é a compaixão como sentimento mais importante. A segunda é o relativo desapego a bens materiais.

FOLHA - Tem imóveis?
GABEIRA
- Não, nem carro. Só moto. Do ponto de vista de religião, eu trabalho muito com os budistas.

FOLHA - Considera-se budista?
GABEIRA
- Eu não, mas eles me consideram, eu creio.

FOLHA - E divindade, Deus?
GABEIRA
- Essa noção é ocidental. Se você tem compaixão, desapego a bens e está junto das pessoas, acreditar em Deus não fará diferença na relação de fraternidade.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2310200813.htm

Calvin & Hobbes

Calvin: Dad, how come old photographs are always black and white? Didn't they have color film back then?

Dad: Sure they did. In fact, those old photographs are in color. It's just the world was black and white then.

Calvin: Really?

Dad: Yep. The world didn't turn color until sometime in the 1930s, and it was pretty grainy color for a while, too.

Calvin: But then why are old PAINTINGS in color?! If the world was black and white, wouldn't artists have painted it that way?

Dad: Not necessarily. A lot of great artists were insane.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Beco com saída

Aquele beco é uma metáfora para ilustrar o encontro da viabilidade numa cidade com tantos riscos de inviabilidade

* * *
São Paulo, quarta-feira, 22 de outubro de 2008


GILBERTO DIMENSTEIN

Beco com saída

MORADOR DA FAVELA de Heliópolis, criado pelos avós (sua mãe tinha 16 anos quando ele nasceu), sem contato com o pai, Jefferson Pereira da Silva imaginou que, se trabalhasse no estacionamento de uma faculdade, talvez tivesse a chance de conhecer alguém que o ajudasse a estudar psicologia. "Logo vi que ficaria estacionando carros o resto da minha vida."
Acabou achando uma saída para seu futuro, longe da psicologia: a saída estava no palco. Jefferson decidiu ser ator.
Na próxima semana, ele sobe ao palco para contar a história de um jovem que descobriu uma saída num beco. Terminado o espetáculo, Jefferson convidará os espectadores a caminharem até o beco que inspirou a peça.

 
O caminho de Jefferson até o teatro começa no violino. Ele começou a estudar violino na orquestra sinfônica criada pelo maestro Silvio Bacarelli, em Heliópolis. "Por várias vezes pensei em desistir, precisava trabalhar. Queria ganhar meu próprio dinheiro, sem depender dos meus avós." E aí foi trabalhar no estacionamento da faculdade, na aposta que, se tivesse sorte, viraria psicólogo. "Meu sonho era ser violinista e psicólogo." Mas, no íntimo, temia ter de sobreviver de bicos.
Conseguiu, então, uma remuneração mensal para tocar regularmente na orquestra sinfônica. Até que apareceu a oportunidade de participar de uma peça ("Acorda Brasil"), escrita pelo empresário Antonio Ermírio de Moraes, inspirada no trabalho do maestro Bacarelli. Só aceitou fazer o teste por insistência dos colegas. "Sou muito tímido."
Fez um papel de um marginal, era temido por todos, sempre andava com um revólver na cintura. Por causa de um professor de música, o personagem, no final, troca a arma por um violino.
As cenas de violência que integram seu cotidiano foram para o palco: "Muitas pessoas que eu conhecia morreram ou foram presas".
 
Pela sua atuação, Jefferson foi chamado para o elenco de "O Beco", escrito por Patrícia Secco, a partir da experiência da conversão de um beco na Vila Madalena em espaço de arte e convivência. Seu personagem é, agora, um pichador que se transforma em grafiteiro.
O espetáculo é gratuito e prevê que os espectadores façam uma visita de ônibus aos espaços que inspiraram a peça. Jefferson será um dos guias que os levará da ficção à realidade. "Meu prazer está no poder de encantamento da arte. Até um beco fica com saída."
Aquele beco é uma metáfora para ilustrar o encontro da viabilidade numa cidade com tantos riscos de inviabilidade -mais ou menos como a própria vida de Jefferson.
Mas a saída dele está apenas no começo: resolveu apostar na carreira de ator. Vai agora, aos 24 anos, passar por um dos seus testes mais difíceis: prestar, neste ano, o vestibular para estudar teatro na USP.

gdimen@uol.com.br

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2210200812.htm

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

É fantástico

Antes de mencionar o Cel. José Vicente, ainda não tinha informações sobre sua intervenção no programa Domingão do Faustão de ontem, no qual ele defendeu a ação da polícia. Não assisti ao programa (não quero quebrar meu "jejum" de Domingão, que já completa vários anos) mas, aparentemente, ele apontou alguns erros do GATE, porém teria defendido que tais erros não foram decisivos para a morte de Eloá. Se ele falou isso mesmo, errou.

Reportagem de 12 minutos do Fantástico contou com bons comentários de um brasileiro responsável pelo treinamento da SWAT texana. Ele lista os erros cometidos pelo GATE (além daqueles já apontados por Rodrigo Pimentel no artigo do meu post anterior, ele também compara com o modus operandi da SWAT, o que agrava ainda mais os erros cometidos na semana passada), e mostra que, sim, o GATE poderia ter evitado a tragédia, agindo dentro do "bom senso".

Cartas no Painel do Leitor da Folha de hoje mostram dois mal-entendimentos elementares:

O primeiro, de que criticar após o fato, no conforto de seu escritório com ar-condicionado, é muito fácil, o difícil é estar lá no "calor do momento". Se não houver constante treinamento do corpo policial (de elite ou não) e, antes ainda, entendimento teórico claro de quais os melhores cursos de ação para cada tipo de crise de segurança, estamos fadados a cometer erros primários. É no "conforto" de uma situação de calma e serenidade que o modus operandi da polícia deve ser desenhado. Deixar para fazer isso numa situação de crise é receita para o desastre. E, treinando até a exaustão, minimiza-se as chances de "esquecer" os procedimentos-padrão na hora do "calor do momento".

O segundo, de que caso eles tivessem optado pelo uso de um sniper para matar o seqüestrador, os "defensores de direitos humanos" estariam em cima da polícia e do governador neste momento, atacando-os por não esgotar as possibilidades de negociação. Tanto no caso do ônibus 174 quanto neste de Santo André, o que ouvi desses "defensores de direitos humanos" (alguém não é?) é de que a lei e os regulamentos disciplinares da corporação deveriam ter sido seguidos, ou seja, em caso de ameaça de morte ou perigo para o agente ou para terceiros, a polícia poderia (e deveria) usar força mortal. Alguém iria reclamar? Certamente que iria. Como estão reclamando agora! Mas, mais uma vez, a omissão dos responsáveis pela decisão do uso da força não pode ser creditada a uma eventual "gritaria" de terceiros. Dos males, o menor. Entre o risco claro e evidente da vida das duas meninas seqüestradas, que estavam sob a ameaça de revólver, e o risco potencial de ouvir gritos de ongueiros por conta da morte do seqüestrador, apenas São Paulo e Rio escolheriam correr o primeiro risco em vez do segundo. É quase inacreditável.

Crime de omissão

Mensagem
O artigo abaixo teve muito mais o dedo do Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE e uma das melhores cabeças que o corpo policial já produziu, que do José Padilha, a despeito de suas ótimas qualidades artísticas e sensibilidade para o problema, demonstradas nos excelentes "Ônibus 174" e "Tropa de Elite".

Tive o prazer de ouvir o Rogrigo Pimentel ao vivo há alguns anos, num congresso internacional sobre direitos humanos, comentando o caso do ônibus 174. Infelizmente, ele se desligou da corporação, não agüentando viver essas contradições da polícia e sua impotência de, quase sozinho, mudar essa realidade. Se eu me tornasse responsável por reformar as polícias em qualquer lugar do Brasil, Rodrigo e o Cel. José Vicente seriam provavelmente as duas primeiras pessoas que chamaria para me aconselharem.

Fica claro que ainda há muito para ser feito, e a recente queda de homicídios nesta década não pode, nem de longe, passar a idéia de uma "missão quase cumprida". Estamos apenas engatinhando no que se refere à reforma da segurança pública, e ainda há muito o que fazer.
 
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São Paulo, segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O fracasso da polícia é dos políticos

JOSÉ PADILHA e RODRIGO PIMENTEL

NÃO SÃO apenas as ocorrências mal administradas, cheias de erros primários e ilegalidades que demonstram a necessidade de uma reforma da segurança pública no Brasil. Os dados indicam essa necessidade faz tempo. E os nossos políticos, apesar de conhecerem os dados, têm se mostrado incapazes de realizar tal reforma. São eles, no final das contas, os principais responsáveis pela repetição cotidiana de tragédias como a ocorrida no evento do ônibus 174 e do seqüestro em Santo André.
Em conversa informal com agentes do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais), descobrimos que eles estão desolados com o desfecho da ocorrência, que custou a vida de uma pessoa e feriu outra, e revoltados com os políticos, devido ao descaso que têm com a unidade, exposta ao ridículo com o fracasso da operação.
Afinal, se o Gate dispusesse do equipamento necessário para administrar uma ocorrência desse tipo, como uma microcâmera de fibra ótica, saberia que o seqüestrador tinha encostado um armário de TV e uma estante na porta de entrada do apartamento. Saberia que seqüestrador e reféns não estavam na sala, mas no quarto. Saberia que uma invasão pela porta da frente daria tempo para o seqüestrador atirar nas reféns. Mas o Gate não sabia de nada disso e perdeu preciosos segundos abrindo a porta.
Se o Gate dispusesse de escada com alcance para que um policial pudesse entrar no apartamento pela janela, poderia ter evitado a tragédia. Mas a escada do Gate, como atestam as filmagens, era curta demais.
Se os policiais do Gate fossem bem treinados, não teriam deixado que uma menina de 15 anos, libertada pelo seqüestrador, voltasse a ser prisioneira. Não teriam demonstrado tamanha incompetência e desconhecimento legal. Mas os policiais do Gate, como os do Bope e do resto do país, não recebem treinamento adequado.
Quando trabalhamos no documentário "Ônibus 174", sentimos a mesma revolta por parte dos policiais do Bope, que, em sua maioria, odeiam os políticos a quem servem.
André Batista, colaborador em "Tropa de Elite" e negociador do Bope na malfadada ocorrência, deu o seguinte depoimento para o documentário: "Naquele momento, a gente viu que faltava muita coisa. As coisas que a gente vivia pedindo, os equipamentos, os cursos, parece que, naquele momento, tudo desabou." Ouvimos, virtualmente, a mesma coisa do Gate.
Chegamos, assim, a uma conclusão absurda. Concluímos, parafraseando Nietzsche, que é preciso defender os nossos policiais dos nossos políticos! Afinal, quem são os nossos policiais? E o que o Estado, administrado pelos políticos eleitos, fornece a eles?
Tomemos como exemplo um policial carioca. É um sujeito mal remunerado, mal treinado, que trabalha em uma corporação corrompida por dentro. Isso é o que o Estado lhe dá. E o que pede em troca? Que mantenha a lei. Em outras palavras, que entre em conflito com os membros corrompidos da sua corporação e com os bandidos fortemente armados da cidade.
Ora, não é à toa que o capitão Nascimento, refletindo um sentimento comum entre os policiais do Bope, tenha dito que "quem quer ser policial no Rio de Janeiro têm que escolher. Ou se corrompe, ou se omite, ou vai pra guerra." Em São Paulo, não parece ser muito diferente.
Não esqueçamos, pois, o ano de 2003, quando o então secretário nacional de Segurança Pública, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, estava prestes a conseguir a reforma que nossos policiais sérios tanto pedem.
Ele tinha participado da elaboração de um plano de segurança pública que previa um piso nacional decente para o salário dos policiais, a integração da formação e das plataformas de informação das polícias estaduais, o repasse de recursos federais para os Estados condicionado à reforma de gestão e ao controle externo e a desconstitucionalização da segurança pública, dando autonomia para que os Estados reformassem as polícias de acordo com as realidades locais.
Apresentou o plano ao governo federal com a assinatura de todos os governadores. E o que fez o governo? Desistiu. Nem sequer apresentou o plano ao Congresso. Não o reformulou, optou pela passividade. Segundo nos disse o sociólogo, por considerar que a reforma demoraria a dar resultado e que a opinião pública poderia responsabilizar o governo federal, e não os Estados, se eventuais tragédias ocorressem durante a implantação.
Evidentemente, não estamos culpando os atuais governos federal e estadual pelo desfecho do seqüestro em Santo André. Afinal, governos anteriores poderiam ter tentado reformar a segurança. O governo FHC, por exemplo, prometeu um plano nacional depois do ônibus 174.
Estamos culpando os verdadeiros responsáveis: os nossos políticos como um todo, que há muito tempo sabem que precisam reformar a segurança pública para salvar a vida de milhares de brasileiros e que há muito tempo fracassam ao não levar essa tarefa a cabo. Um fracasso ainda mais vergonhoso do que o dos policiais do Bope e do Gate.


JOSÉ PADILHA, cineasta, é diretor de "Ônibus 174", "Tropa de Elite" e "Garapa", entre outros filmes. RODRIGO PIMENTEL, sociólogo, é ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar) do Rio de Janeiro, um dos roteiristas de "Tropa de Elite" e co-produtor de "Ônibus 174".
 

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

It's time to make Management a true profession

O assunto certamente é polêmico. Mas eu acho que os autores desse artigo da HBR têm bons argumentos em mãos:

It's Time to Make Management a True Profession

Longe de argumentos corporativista tipo CFA/CRA, no sentido de tornar a prática (ou o ensino) da Administração um monopólio para titulados na área (estou exagerando o argumento, claro, mas vai nesse sentido), o artigo reconhece que muitas empresas são bem geridas por pessoas que nunca tiveram treinamento formal na área (só para citar um exemplo, Bill Gates, que não tem treinamento formal em nada, aliás...). O artigo chega a perguntar: "Does Management Education Add Value?"

Parte de minha crise com o curso de Administração era exatamente essa: com exceção de algumas boas idéias inovadoras (e que exigiram profunda reflexão e pesquisa) aqui e acolá, não vejo na Administração muito mais do que "bom senso sistematizado". Eu não operaria o tumor de ninguém, nem construiria um prédio ou defenderia uma ação legal, mas não consigo ver impedimento de juristas, engenheiros e médicos administrando (bem) empresas (ex.: o médico Claudio Luiz Lottenberg, presidente do hospital Albert Einstein, ou o "jurista" Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do Grupo Gerdau).

Os autores, cujas idéias estão resumidas na reportagem da The Economist abaixo, propõe não apenas que a Administração adote padrões mais rigorosos de conhecimento e competência para os formados na área (no limite, fornecendo o título mediante testes do tipo "exame da OAB"), como que os administradores adiram a um "código de ética" comum, um juramento como o que os médicos fazem (Juramento Hipocrático). Gostei das sugestões de conteúdo que um Juramento Whartoniano (inventei agora, estou aberto a sugestões) traria.

First, do no harm
Do bosses need their own Hippocratic Oath?
Oct 7th 2008 | From Economist.com
http://www.economist.com/daily/columns/businessview/displaystory.cfm?story_id=12371968

Everybody loves Obama

The Washington Post endossa hoje a candidatura de McCain.

Barack Obama for President
Friday, October 17, 2008; Page A24
http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/10/16/AR2008101603436.html?nav=hcmodule

Teriam ganho mais credibilidade se o tivessem endossado antes. Fazendo-o agora, parecem apenas surfar na atual onda de popularidade de Obama, tratando-se de apoio de "conveniência".

Em nota correlata, o filho de um dos conservadores mais importantes intelectuais conservadores dos EUA (eu sei: contradição em termos), fez o mesmo na sexta-feira passada:

Sorry, Dad, I'm Voting for Obama
by Christopher Buckley, October 10, 2008
http://www.thedailybeast.com/blogs-and-stories/2008-10-10/the-conservative-case-for-obama/

Resumo da história: foi "saído" da National Review, uma das publicações mais influentes entre os conservadores americanos -- e fundada por seu pai, William F. Buckley.