segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma imagem para ficar

Da época em que o pessoal torcia para, não contra, e que o mais importante era o “joga bonito”:

Uma imagem para ficar

Nada de malícia, tristeza ou comemoração na foto de John Varley

A foto que acompanha este artigo é um dos melhores retratos tirados num campo de futebol. A partida acabou, há um vencedor e um perdedor. Aliás, a imagem é um símbolo da Copa do Mundo, o prêmio máximo do futebol, passando de um homem a outro.

Mas você vê alegria e tristeza? Ou vê nesse abraço, no sorriso e nos olhos desses homens algo que vai além de um vencedor e um perdedor? A foto é de quarenta anos atrás, e há grandes chances de ela continuar viva pelos próximos quarenta. 

Foi tirada durante a Copa de 70, no México, quando a Inglaterra, a campeã de 1966, perdeu o troféu. O Brasil venceu por 1 a 0 em Guadalajara e foi em frente até vencer o torneio, jogando com o que talvez fosse o melhor time de futebol da história.

Acima de tudo, a foto captou o respeito mútuo entre os atletas. Enquanto eles trocavam camisas, abraços e olhares, o espírito esportivo inundava a imagem. 

Nada de malícia ou de comemoração velada da parte de Pelé. 

Nada de tristeza ou derrotismo da parte de Bobby Moore.

Bobby Moore, para muitos o melhor zagueiro da história da Inglaterra, morreu de câncer em 1993. Essa foto era a favorita de sua carreira, ao longo da qual foi capitão da seleção por noventa vezes, incluindo o dia em que a Inglaterra ganhou a Copa. 

Pelé, tricampeão do mundo e o jogador mais completo da história, ainda considera essa foto como um momento determinante de sua vida.

“Bobby Moore era meu amigo e o melhor zagueiro que enfrentei”, declarou ele quando o inglês morreu. “O mundo perdeu um de seus melhores jogadores e um cavalheiro muito honrado.”

E agora o mundo perdeu o terceiro homem para quem essa imagem tinha grande significado. 

John Varley, o fotógrafo, morreu em sua cidade natal, Yorkshire, no norte da Inglaterra. Varley, que tinha 76 anos, era um fotojornalista com um olhar sensível para o que estava além do noticiário.

Seu jornal, o Daily Mirror de Londres, enviou-o a guerras e a desastres naturais. E ele exerceu bem sua função. Numa época em que não havia câmeras digitais ou foco automático, ele tinha o que outros fotógrafos descreveram como um instinto para estar onde as coisas podiam acontecer, e paciência para esperar o momento crucial. 

O abraço entre Moore e Pelé foi um desses momentos. Olhe de novo para a foto. Volte em pensamento para 1970, quando os jogadores estrangeiros na liga inglesa – ou em qualquer outra – eram raros. 

Na época, havia desconfiança em relação aos jogadores negros, algo ridículo quando se considera que Pelé era uma estrela mundial desde 1958. Isso se baseava na crença de que os não brancos careciam de vigor e de força física. 

Essa foto ajudou a quebrar o preconceito. O encontro entre o inglês loiro de olhos azuis e o maior jogador da época, Pelé, ambos sem camisa, transcendia aquele absurdo. 

Para tirar o retrato, Varley aproveitara uma folga de seu trabalho normal. 

O contrato permitia férias a cada quatro anos, e Varley usou-as para assistir às Copas de 1966 até 1982. 

Conheci-o nos últimos anos dessas empreitadas. Ele era um companheiro de viagem calado, tinha um senso de humor esquisito e, como muitos fotógrafos da época, era discreto. 

Há quarenta anos, não era possível fazer fortuna como fotógrafo esportivo. O trabalho de Varley ganhou reconhecimento através da foto de um policial, com água até a cintura, salvando um bebê de uma enchente num vale inglês. 

Ele tirou fotos memoráveis de crianças sofrendo durante a Guerra de Biafra – 
a guerra civil da Nigéria – e também o retrato simbólico de uma igreja cercada de arame farpado no violento bairro de Ardoyne, em Belfast, durante o conflito na Irlanda do Norte. 

E, voltando aos esportes, foi retratar os bastidores de uma luta de boxe e tirou um instantâneo angustiante do derrotado Richard Dunn, a cabeça no chão do chuveiro. 

Ao saber da morte de Varley, telefonei para um fotógrafo americano, na Califórnia. “Eu tenho essa foto de Moore e Pelé”, ele disse. “Sempre gostei dela, mas nunca soube quem era o fotógrafo.”

Típico. O homem por trás da câmera é geralmente anônimo, mesmo entre seus próprios colegas. Mas o que seria dos cadernos de esportes dos jornais sem homens como John Varley?

(via Piauí)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

WikiLeaks

Why even try to top Glenn Greenwald’s comments on the matter?
Excerpts:

"As usual, for authoritarian minds, those who expose secrets are far more hated than those in power who commit heinous acts using secrecy as their principal weapon."

"First we have the group demanding that Julian Assange be murdered without any charges, trial or due process. [...] These are usually the same people, of course, who brand themselves 'pro-life' and Crusaders for the Sanctity of Human Life and/or who deride Islamic extremists for their disregard for human life."

"Then, with some exceptions, we have the group which — so very revealingly — is the angriest and most offended about the WikiLeaks disclosures: the American media, Our Watchdogs over the Powerful and Crusaders for Transparency. [...] It's one thing for the Government to shield its conduct from public disclosure, but it's another thing entirely for the U.S. media to be active participants in that concealment effort."

"Then we have the Good Citizens who are furious that WikiLeaks has shown them what their Government is doing and, conversely, prevented the Government from keeping things from them. [...] [From Digby's Hullabaloo:] 'My personal feeling is that any allegedly democratic government that is so hubristic that it will lie blatantly to the entire world in order to invade a country it has long wanted to invade probably needs a self-correcting mechanism. There are times when it's necessary that the powerful be shown that there are checks on its behavior, particularly when the systems normally designed to do that are breaking down.'"

"The central goal of WikiLeaks is to prevent the world's most powerful factions — including the sprawling, imperial U.S. Government — from continuing to operate in the dark and without restraints.  Most of the institutions which are supposed to perform that function — beginning with the U.S. Congress and the American media — not only fail to do so, but are active participants in maintaining the veil of secrecy.  WikiLeaks, whatever its flaws, is one of the very few entities shining a vitally needed light on all of this.  It's hardly surprising, then, that those factions — and their hordes of spokespeople, followers and enablers — see WikiLeaks as a force for evil.  That's evidence of how much good they are doing."

(via Salon.com)