sexta-feira, 3 de outubro de 2008
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
The Shawshank Redemption
O diretor de uma das prisões afirma que um engenheiro da CPOS, chamado "Valverde", apontou e anotou em documento próprio as "distorções que encontrava". Resultado: foi transferido para outra obra.
A CPOS fez vistas grossas e até tentou esconder as irregularidades, segundo a Administração Penitenciária, que já havia fotografado partes subterrâneas da obra para desmentir a versão da estatal.
A área de obras parece ser o gerador de "caixa 2" de muitos governos, sejam eles psdbistas, petistas, malufistas ou de qualquer outro partido. Um governante sério teria que colocar sua pessoa de maior confiança lá.
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São Paulo, quinta-feira, 2 de outubro de 2008

SP tem prisão de concreto "oco" e muro frágil
Presídios foram feitos na gestão Alckmin em desacordo com projeto; concreto é facilmente escavável, diz relatório do governo
Prisões foram feitas pela DM Construtora por R$ 25,5 mi; obras foram vistoriadas pela estatal CPOS (Companhia Paulista de Obras e Serviços)
JOSÉ ERNESTO CREDENDIO
MARIO CESAR CARVALHO
DA REPORTAGEM LOCAL
Em dezembro de 2006, 21 presos fugiram de uma das penitenciárias de segurança máxima de Lavínia, que abrigava integrantes do segundo escalão da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Não houve, porém, nada de espetacular na fuga. Os presos cavaram um túnel e escaparam. Uma vistoria na obra apontou as razões da fuga fácil.
A muralha não tinha os dois metros de profundidade previstos no projeto. As placas de aço projetadas para vedar as celas também não existiam.
De segurança máxima, a penitenciária só tinha o nome, segundo relatório da Secretaria de Administração Penitenciária ao qual a Folha teve acesso.
A supressão da muralha subterrânea e de placas de aço de 8 mm do chão das celas ocorreu em duas penitenciárias ditas de segurança máxima da cidade, a 600 km de São Paulo. As duas comportam 1.536 detentos.
Não são as únicas irregularidades nas obras. O chão das celas ainda deveria ser protegido por uma camada de 30 cm de pedras do tipo rachão, maiores do que as de brita, para evitar túneis. A medida de segurança foi suprimida na obra.
O teto das celas é de concreto "alveolar", que é oco. Facilmente escavável, a laje revelou-se um ótimo esconderijo para celulares e drogas, conforme dizem os próprios diretores da prisão. O concreto alveolar também foi usado na muralha, segundo a secretaria.
Esse tipo de laje, inadequado para prisões, foi usada em seis presídios de segurança máxima do Estado, "gerando perplexidade" na equipe do Departamento de Engenharia da secretaria, conforme o relatório. Além dos de Lavínia, essa tecnologia foi empregada em Guareí e Balbinos -cada cidade abriga duas prisões desse tipo.
O que chama atenção no relatório oficial é que não houve aditivo ao contrato que permitisse suprimir a muralha. E foi permitido não instalar as placas de aço e trocar o tipo de concreto sem que o valor fosse caísse. Ao contrário, subiu 5%.
Por causa das falhas, o governo de José Serra (PSDB) cogitou até fechar os dois presídios. Preferiu, porém, desativar parte dos dois presídios e transferiu os presos mais perigosos.
Os presídios de Lavínia foram inaugurados em janeiro de 2006, no governo de Geraldo Alckmin (PSDB). Ele cita a expansão do sistema prisional como uma das grandes realizações de seu governo. Alckmin não quis se pronunciar.
As duas prisões foram feitas pela DM Construtora, do Paraná, por R$ 25,5 milhões. As obras foram vistoriadas pela estatal CPOS (Companhia Paulista de Obras e Serviços).
O diretor de uma das prisões afirma que um engenheiro da CPOS, chamado "Valverde", apontou e anotou em documento próprio as "distorções que encontrava". Resultado: foi transferido para outra obra.
A CPOS fez vistas grossas e até tentou esconder as irregularidades, segundo a Administração Penitenciária, que já havia fotografado partes subterrâneas da obra para desmentir a versão da estatal.
As irregularidades são tantas que o secretário de Administração Penitenciária, Antonio Ferreira Pinto, levou o caso ao TCE (Tribunal de Contas do Estado) e ao Ministério Público.
Nos documentos, Ferreira Pinto diz: "Lamentavelmente, os presídios são vulneráveis, e só se evidenciou a manipulação de alguns itens essenciais à segurança após visita realizada em agosto de 2007", quando ele vistoriou as obras.
O relatório, sem citar valores, não economiza expressões como "graves conseqüências ao erário e à segurança" e "inúmeras irregularidades".
As falhas, porém, eram apontadas desde 2005. Em dezembro daquele ano, quando as obras foram finalizadas, o diretor do presídio, Eduardo Martins, diz ter constatado que havia "falhas estruturais".
Martins diz que informou as falhas ao secretário da Administração Penitenciária à época, Nagashi Furukawa.
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0210200801.htm
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Lula of Brazil

Para biógrafo inglês, Lula avançou economia, mas fracassa na educação
| Pablo Uchoa | Da BBC Brasil em Londres |
![]() | |
| Presidente conta com índice de 83% de aprovação popular |
Lula of Brazil (Zed Books, Londres e Nova York), biografia política do ex-metalúrgico eleito e reeleito presidente, compila para o leitor do inglês os avanços e dificuldades do atual governo. O lançamento da obra, nesta terça-feira em Londres, vem a tempo de jogar uma luz sobre as razões que levam a popularidade de Lula a níveis recordes de 80%.
"Lula domina completamente a cena política no país. Ricos e pobres acham que Lula é uma pessoa que cuida do país", avalia Bourne, ex-jornalista do The Guardian, hoje pesquisador sênior do Institute of Commonwealth Studies, em Londres.
Bourne não esconde a simpatia que sempre nutriu por Lula desde que o ex-metalúrgico se destacou no sindicalismo nos anos 1980 – ou, a rigor, não esconde a simpatia pelo Brasil. Diz que "deixou seu coração" no país quando desembarcou pela primeira vez no Rio, em 1965. É autor de um livro sobre Getúlio Vargas e outros sobre líderes latino-americanos.
Nesta entrevista à BBC Brasil, o pesquisador faz uma avaliação dos altos e baixos do governo. Sublinha avanços no combate à pobreza e na política externa. Mas não deixa de criticar com severidade o que chama de "fracassos" no impulso à educação e em relação à esperança de fundar no Brasil "um tipo mais ético de política".
[Leia a entrevista completa]terça-feira, 16 de setembro de 2008
esbórnia na Câmara paulistana
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São Paulo, terça-feira, 16 de setembro de 2008
Editoriais
editoriais@uol.com.br
Os balcões da Câmara
CAMPANHAS de incentivo ao voto afirmam que é importante escolher bem os vereadores porque eles propõem leis para beneficiar o cidadão e fiscalizam o Executivo. Não na maior cidade do país.
Como mostrou reportagem desta Folha, a Câmara de São Paulo é palco de um jogo de aparências que deixa de lado o interesse dos eleitores e se traduz na semiparalisia da atividade legislativa. Na atual legislatura, um em cada cinco projetos apresentados pelos vereadores foi vetado por ser considerado inconstitucional. Em 2007, quase 80 % dos projetos sancionados se referiam a iniciativas de menor relevância, como homenagens.
A prática não é nova: a prerrogativa de legislar é transferida ao prefeito. Nos últimos oito anos, 80% dos projetos apresentados pelo Executivo foram aprovados. Longe de incomodar as correntes majoritárias na Casa, o fenômeno ocorre pela comunhão de interesses entre a maioria parlamentar e o Executivo.
Na Câmara paulistana são formadas bancadas sem lógica programática ou partidária, que têm por finalidade apenas aumentar o poder de barganha no Executivo. Entre os vereadores, predominam relações pessoais. Grupos políticos são constituídos mediante ligações familiares, e na metrópole mais rica do país ainda é disseminada a velha prática do favor paroquial, do coronelismo e dos currais eleitorais.
Com tantas brechas para abusos e desvios, não espanta que a fiscalização seja deficiente. Criada em 2003, depois do escândalo da "máfia dos fiscais", a Corregedoria nunca puniu vereadores.
Se falta disposição de investigar e de legislar na Câmara paulistana, sobra cobiça por um dos 55 postos na vereança. A um mês do pleito, a arrecadação declarada dos vereadores que tentam a reeleição já é 22% maior do que o montante obtido em 2004. Nisso não há paralisia.
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1609200802.htm
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Muitas dúvidas, poucas respostas
Elas conscientemente escolhem ignorar as demais, ou o déficit de atenção da sociedade moderna já é tão grande que elas esquecem das perguntas anteriores?
Peça de teatro do dia: 7 minutos, com Antonio Fagundes.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Où est mon fichier? Voilà!

Thanks for the memory
Sep 10th 2008
From Economist.com
A mathematical trick may allow people to scatter their computer files across the world's hard disks
IF YOU have lots of unused storage space on your hard disk, then why not share it with others on the internet? The benefit could be distributed storage for your own files, making them available any time via the web, even if you are nowhere near your computer—indeed, even if your computer is switched off. That desideratum is what a Zurich-based firm called Caleido is aiming to provide, with a free online storage service known as Wuala that was recently introduced to the public.Though the idea underlying it is simple, Wuala requires some nifty technology to make its distributed system work reliably. In particular, its developers, Dominik Grolimund and Luzius Meisser, have used a clever mathematical trick to compensate for the fact that the participating computers will come and go from the internet in an unpredictable way.
The challenge is how to minimise the number of copies of the same file that have to be distributed. Copying costs participants both storage space and bandwidth. Yet there have to be enough copies to ensure that there is at least one available most of the time. If, for example, each computer is online 25% of the time, then a quick calculation shows that you would have to copy each file to 100 different computers to ensure that 999,999 times out of a million there is at least one copy available when a user looks.
[Read more...]segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Lula&

São Paulo, segunda-feira, 8 de setembro de 2008
FERNANDO DE BARROS E SILVA
Só dá Lula
SÃO PAULO - A menos de um mês das eleições, o que até agora as campanhas municipais mais evidenciam é a popularidade de Lula, que alcança patamar espantoso mesmo em São Paulo, cidade que sempre lhe foi hostil e na qual em 2006, para ficar só no passado recente, foi derrotado por Alckmin (54,4% a 45,6%), apesar da vitória acachapante em âmbito nacional (de 22 pontos). Pois Lula tem agora 52% de aprovação na capital, contra 42% de José Serra, diz o Datafolha.
Tome-se o país afora. Os candidatos a prefeito da base governista lideram em 20 das 26 capitais. A se confirmar a tendência nas urnas, muito do êxito terá de ser creditado às faíscas reluzentes do lulismo.
Pipocam aos montes na TV candidatos de nome "Lula" que não nasceram Luiz; outros tantos imitam a voz do presidente no rádio, encenando o apoio que gostariam de receber. Mesmo a oposição entrou na onda: no Nordeste, postulantes do PSDB e do DEM proíbem que seus aliados critiquem Lula porque atrapalha; vários deles chegam a disputar sua proximidade.
A eleição ilumina um fenômeno que a ultrapassa. A vida de muita gente melhorou, é fato. A mitigação da miséria obtida com os programas de transferência de renda e a elevação do consumo na faixa social que a propaganda oficial se apressa em chamar de "nova classe média" são o pau que sustenta a lona do circo onde se anuncia o céu estrelado. Os ricos também nunca ganharam tanto. A fera barbada de 89 se transformou no domador do espetáculo.
Para além da economia, que explica muita coisa, Lula é hoje um fator de pacificação social. Alguém diria que é capaz de tirar as meias sem tirar os sapatos. Descomprimiu um imenso passivo de iniqüidades sem mexer com os poderosos. Pelo contrário, faz um governo concessivo, que se serve sem pudor das forças do atraso e conduz seu barco nas águas do conservadorismo.
Lula é nosso esperanto social, a encarnação do "&" que conecta e separa Casa Grande e Senzala. Ele é a expressão máxima da democracia brasileira. E talvez de seus limites.
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0809200803.htm
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
"Ô tranqueira do 'caráio'!"
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São Paulo, quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Repórter-ciclista encara trânsito, buraco e palavrões
Às vésperas de início de projeto que oferece bicicletas, Folha percorre 15 km nas ruas de SP
Trajeto saiu da Praça da Árvore e foi até o Anhangabaú; passeio incluiu risco do tráfego intenso e hostilidade de motoboys nas ruas da cidade
Joel Silva/Folha Imagem![]() Ônibus ultrapassa bicicleta de repórter Paulo Sampaio, alugada na região de Moema (SP) |
PAULO SAMPAIO
DA REPORTAGEM LOCAL
O motoboy enfurecido cola na bicicleta do repórter e grita: "Ô tranqueira do "caráio'!". Com a moto inclinada, ele se esgueira numa inacreditável manobra e ultrapassa a bicicleta para entrar em uma rua de mão dupla, próximo à avenida Jabaquara (zona sul de SP).
Isso foi logo nos primeiros 500 m do percurso de cerca de 15 km, pedalados ontem pela reportagem para testar a viabilidade de um projeto de empréstimo e aluguel de bicicletas em oito estações do Metrô paulista. O projeto é do Metrô, em parceria com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente.
Para acompanhar o repórter no teste, convocou-se o experiente ciclista Otoni Gali Rosa, 69, que há seis anos pedala com grupos em percursos que chegam a 100 km.
Como o repórter alugou a bicicleta em Moema (zona oeste), precisa percorrer um bom trecho para chegar ao escritório de Gali, na Praça da Árvore, zona sul, local do encontro. De saída, tem de enfrentar avenidas como Indianópolis, Vergueiro e ruas largas como a Domingos de Morais.
Com a bicicleta embalada, em um momento de vento a favor, o ciclista vê seu caminho subitamente afunilado por um ônibus estilo centopéia que para no ponto.
Dele desce morosamente uma senhora de cabelos brancos, carregando duas sacolas cheias; ela pousa no asfalto ondulado o pé direito. A bicicleta quica na buraqueira.
Vindos do ponto de ônibus, o ciclista percebe olhares generalizados de desprezo. O capacete o faz se sentir meio ridículo, como se estivesse de peruca, prestes a atropelar uma velhinha.
Não dá pra repetir
A partir da Praça da Árvore, o risco aumenta até a estação Anhangabaú (centro). Quatro das oito estações desse percurso estão no projeto de aluguel de bicicletas: Vila Mariana, Paraíso, Sé, Anhangabaú. No trajeto, nenhum metro de ciclovia.
Pedalar sem a menor segurança entre ônibus, carros, carroças, carrinhos de supermercado, motos, pedestres, fumaça e buracos até pode, para quem gosta de esportes radicais, ser emocionante. Mas não dá pra repetir todos os dias.
"A CET não considera bicicleta como meio de transporte", admira-se o arquiteto Paulo de Tarso Martins, fundador de um grupo chamado Sampa Bikers, que tem 15 anos e reúne em seu cadastro 15 mil ciclistas. "Mas é sempre assim. Em véspera de eleição, o povo nos procura com projetos especiais para ciclistas. Não vou ajudar a eleger ninguém que vai nos esquecer depois."
Assessores informam que a CET não quer se manifestar sobre a declaração de Martins. Um deles diz que o Detran pode informar sobre a frota de bicicletas. No Detran, a assessora leva um susto. "Nós não temos nada a ver com isso".
Para Martins, Otoni e o presidente da Federação Paulista de Ciclismo, Fernando Mazzaron, não adianta começar um projeto sem infra-estrutura (ciclovias) e educação no trânsito.
A prefeitura promete inaugurar 12 km de ciclovia na Radial Leste, de um total de 25 km em construção.
Só de carro
Para quem se locomove apenas de carro há mais de 20 anos, e que portanto está acostumado ao ponto de vista do motorista, a atitude de Otoni no trânsito parece arrogante.
Ao atravessar as ruas que saem da avenida Vergueiro, por exemplo, e que podem ser acessadas por (muitos) automóveis, ele se limita a esticar o braço e a movimentar os dedos para que quem estiver vindo páre.
"Sabia que a distância mínima que os carros devem manter de uma bicicleta, segundo o Código Nacional de Trânsito, é de um metro e meio? E que um ciclista não deve pedalar a menos de um metro da calçada?", pergunta Otoni.
Mas ele mesmo reconhece que, com os exíguos 4,5 km de ciclovias, em relação aos 17 mil km de ruas e avenidas de São Paulo, nem mesmo os ciclistas estão preparados para viver uma experiência parisiense, como a que inspirou o projeto. Lá, desde 2007, alugam-se 10 mil bicicletas. Aqui, serão 80, 10 em cada estação, a R$ 2 a hora, R$ 50 a diária. Nos primeiros 30 min, o uso é gratuito.
"Poucos são os que andam de capacete, com lanterna e levam na mochila apetrechos para resolver qualquer problema que aconteça com a bicicleta. Na verdade, não dá pra chamar todo mundo que anda de bicicleta de ciclista", diz, apontando para um jovem que vem pela contramão, na calçada.
O repórter confessa que, já na metade do trajeto, mesmo como ciclista rechaçado pela massa motorizada, ainda tinha mais facilidade para entender a irritação dos motoristas.
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0309200810.htm
Crime e castigo
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São Paulo, quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Maníaco confessa crime pelo qual 3 estão presos há 2 anos
Jovens afirmam que à época só confessaram o assassinato de garota após terem sido torturados
ANDRÉ CARAMANTE
DA REPORTAGEM LOCAL
Renato Correia de Brito, 24, William César de Brito Silva, 28, e Wagner Conceição da Silva, 25, estão presos desde agosto de 2006 sob a acusação de terem violentado sexualmente e assassinado Vanessa Batista de Freitas, 22. Os três sempre disseram à Justiça que só confessaram o crime porque foram torturados por policiais.
Os três rapazes afirmam terem sido torturados com sacos plásticos, gás de pimenta, choques elétricos, socos, tapas e pontapés em uma região despovoada de Guarulhos e no 1º Distrito Policial da cidade.
Tanto que, na próxima semana, estava previsto que eles deveriam ir para o banco dos réus do Tribunal do Júri para serem julgados pela morte de Vanessa, ex-companheira de Renato.
A situação jurídica de Renato, William e Wagner começou a mudar na noite de sexta-feira passada, quando Leandro Basílio Rodrigues, 19, chamado pela polícia de "maníaco de Guarulhos", confessou com detalhes ao delegado Jackson Cesar Batista que havia matado Vanessa em um matagal do Jardim Alice, periferia de Guarulhos.
A partir da confissão de Rodrigues, o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira, o mesmo que havia denunciado os três à Justiça pelo crime, pediu ao juiz Leandro Jorge Bittencourt Cano, do Tribunal do Júri de Guarulhos, para revogar a prisão preventiva dos três acusados. O juiz acolheu o pedido de Oliveira e os três deverão ser soltos ainda na manhã de hoje.
Com mais esse crime contra Vanessa, subiu para seis o número de mulheres que Rodrigues, preso desde 27 de agosto, confessa ter matado. As mortes de Vanessa Kimura e de uma grávida também são investigadas como tendo sido cometidas pelo "maníaco de Guarulhos".
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0309200801.htm
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Dada minha minúscula tolerância à dor e à idéia de ser torturado, é possível que eu confessasse a autoria dos mesmos crimes por muito menos, talvez pela simples menção ou ameaça de tortura -- o que não deixaria em mim nenhuma marca para provar a alegação de confissão sob tortura.
O problema não é apenas o da violência policial (aliás, quem torturou não merece receber o honroso título de policial, visto que são criminosos). Isso é sintoma. É sintoma de uma polícia não-preparada para o papel investigativo. Não estou generalizando isso para todos os policiais. Temos focos de excelência na Polícia Civil de São Paulo, e avançamos muito com relação a duas décadas atrás -- período habilidosamente retratado por Tiras, gansos e trutas: cotidiano e reforma na polícia civil, de Guaracy Mingardi (não à toa, mereceu um capítulo inteiro da minha tese de doutorado para analisar todos os elementos que ele trouxe para o debate sobre segurança pública no Brasil).
Mingardi mostrou os mecanismos e a estrutura perversa de incentivos que fazem com que a corrupção policial não apenas coloque inocentes atrás das grades e deixe perigosos criminosos fora dela, mas que realimentam o problema, gerando mais, e não menos, criminalidade. É difícil mostrar toda a cadeia (sem trocadilhos) do raciocínio sem tornar esse post imenso e pesado de ler (aliás, já está). Para quem tem dúvidas, indico o livro acima, ou ofereço minha tese, para quem quiser se informar mais (e, acredito, melhor) sobre o assunto.
Isso sem falar que os três rapazes que foram presos injustamente não sentirão apenas alívio. Depois do alívio, vem a indignação e o ódio. E são vítimas perfeitas para serem capturadas pelo crime organizado, que lhes oferecerá a chance de se "vingar contra o sistema". Os policiais que deixaram de fazer seu trabalho investigativo em troca do aparentemente menos trabalhoso trabalho de tortura podem ter, inadvertidamente ou não, criado mais três criminosos...
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Nos bastidores do impeachment evitado
Conversas secretas, intermediadas por Palocci e Bastos, ajudaram a esfriar caso do mensalão
Carlos Marchi | O Estado de S. Paulo, 31/8/2008
Durante todo o primeiro mandato e parte do segundo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve uma linha direta de consultas com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mantida por meio de conversas secretas dos então ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e Márcio Thomaz Bastos, da Justiça. A linha direta funcionou com mais vigor no auge do escândalo do mensalão, quando os ministros pediram a Fernando Henrique para agir e evitar que a oposição descambasse para pedir o impeachment de Lula. Ele atendeu e se posicionou publicamente contra o impeachment.
Os encontros foram confirmados ao Estado pelo ex-presidente, Palocci e Bastos. Palocci confirmou que esteve pessoalmente com Fernando Henrique "pelo menos cinco vezes"; Bastos disse ter conversado com ele pessoalmente apenas uma vez, em junho de 2005, momento em que crescia a onda do impeachment. Mas os contatos por telefone foram bem mais freqüentes, confirmam os três. Palocci e Bastos asseguram que Lula sempre soube das conversas antes de elas ocorrerem e foi informado do seu resultado depois.
Mais de uma vez, no entanto, em momentos de difícil enfrentamento com a oposição, Lula sugeriu a Palocci: "Vai conversar com Fernando Henrique." E pelo menos uma vez, em dezembro de 2007, o presidente determinou expressamente que Palocci - então já fora do governo - procurasse o tucano para negociar o projeto de reforma política que pretendia enviar ao Congresso no começo de 2008. Palocci marcou a conversa, mas antes que ela acontecesse Lula desistiu de promover a reforma política.
Ao Estado, Fernando Henrique elogiou Palocci e Bastos, confirmou as conversas e disse que elas foram possíveis porque os dois ex-ministros de Lula têm "noção institucional". Estendeu o elogio ao chefe de gabinete Gilberto Carvalho: "Esse também tem noção institucional." Lamentou que a linha de consulta tenha sido interrompida em 2008. No começo, não foi difícil a Palocci procurar o ex-presidente: além de manter excelentes relações com a oposição desde quando era ministro, ele tem a simpatia de Fernando Henrique desde que, prefeito de Ribeirão Preto, inaugurou uma estátua dele na cidade. "Não foi fácil para ele", reconhece o ex-presidente. Do gesto, brotou afeto.
A conversa com Bastos ocorreu no dia 26 de junho de 2005, no apartamento do ex-presidente, em Higienópolis, e durou das 21 horas à 1 hora da madrugada. Não faltava intimidade pregressa aos dois: antes de serem amigos, eles conviveram em função da amizade dos seus pais. Bastos contou a Fernando Henrique os receios que Lula alimentava e perguntou sobre o espírito então reinante na oposição. A expressão exata que usou foi: "Precisamos baixar essa bola."
Argumentou que ninguém podia apostar no pior, porque o País ficaria ingovernável. O ex-presidente concordou, deu um conselho e fez uma promessa. O conselho foi que Lula cuidasse de segurar os números da economia e impedisse que se evidenciassem sinais externos de desgoverno; a promessa foi que não jogaria lenha na fogueira e tentaria acalmar seus pares. Nas semanas seguintes, a sua influência foi sentida e acabou sendo vital para que a oposição refreasse o ímpeto e não chegasse ao limite do pedido de impeachment.
Três anos depois, olhando para trás e avaliando a situação, o ex-presidente minimizou o fato de ter atendido aos apelos. "Eu não fiquei contra o impeachment porque eles me pediram, mas porque sou muito cauteloso nessas questões. Na época, não havia condições políticas para sustentar um pedido de impeachment de Lula. Criaria uma cisão no Brasil", alinhou. Explicou por que aceitou as conversas secretas: "Adversários políticos não devem ser tratados como inimigos."
MERGULHO NO ESCURO
Tudo azedou repentinamente quando, em 8 de julho de 2005, em meio a um evento no Palácio do Planalto, Bastos foi informado de que um assessor do deputado José Nobre Guimarães (irmão do então presidente do PT, José Genoino) fora preso em São Paulo com dólares na cueca. Transmitiu o informe a Lula na mesma hora. Depois, relataria a um amigo que, em quatro anos de convivência, nunca vira Lula tão desolado. "Meu Deus, onde é que isso vai parar?", balbuciou o presidente, como se tivesse perdido o rumo.
Mas o pior ainda estava por vir. Em 11 de agosto, o publicitário Duda Mendonça confessou, na CPI dos Correios, que recebera no exterior parte do pagamento pela campanha de Lula. Naquela noite, Bastos e Palocci foram conversar com o presidente na Granja do Torto. Sem rodeios, opinaram que a confissão de Duda o atingia pessoalmente e que a situação, a partir disso, fugia ao controle do governo. As análises impactaram Lula, que aceitou a sugestão de procurar Fernando Henrique mais uma vez para negociar.
O enviado desta vez foi Palocci, que fez ao ex-presidente um relato assustador. Contou que o governo se sentia desorientado e que os conselheiros próximos a Lula temiam por ele após as últimas revelações, que iam do grotesco (os dólares na cueca de um assessor petista) ao dramático (a comprovação de que Duda recebera dinheiro ilegal pela campanha, o que jogava o escândalo no colo de Lula). Disse que havia novos escândalos não revelados, como um rombo que passaria dos R$ 500 milhões no Banco do Brasil.
Palocci chegou a admitir que tudo aquilo era "um desastre, um desastre". Noutro momento, teria dito: "Está tudo perdido." Ao final, fez um apelo "em nome da democracia e do futuro do País" - que a oposição desse uma trégua para dar tempo ao governo de "consertar tudo", exorcizando o seu visível lado podre. Ao final, indagou se Fernando Henrique aceitaria um encontro com Lula. O ex-presidente topou; exigiu apenas que houvesse um convite e um encontro públicos.
URL: http://www.estado.com.br/editorias/2008/08/31/pol-1.93.11.20080831.18.1.xml

