terça-feira, 28 de outubro de 2008

Manifestação inconstitucional

O brilhante jurista Oscar Vilhena Vieira apontou com clareza a inconstitucionalidade da manifestação de ontem -- que fez bastante barulho na janela do meu escritório. O fato se torna mais grave em se tratando da polícia, responsável justamente pela garantia do cumprimento da lei.

Aliás, não foi apenas uma violação de cláusula pétrea constitucional, foram duas:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente;

Apóio a causa. Repudio a forma.

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São Paulo, terça-feira, 28 de outubro de 2008

Policiais estão perdendo a razão, diz advogado

Oscar Vilhena Vieira, advogado e doutor em ciência política pela USP, critica uso de armas por policiais civis grevistas

A atitude põe em xeque credibilidade dos policiais e a capacidade de a categoria fazer reivindicações, diz; para ele, governo também errou

MÁRCIO PINHO
DA REPORTAGEM LOCAL

Os policiais têm razão em sua reivindicação, mas começam a perdê-la quando realizam protestos em que seus integrantes levam armas. A opinião é do advogado, mestre e doutor em ciência política pela USP Oscar Vilhena Vieira, que diz que isso é inconstitucional.
Vieira, que é diretor jurídico da ONG Conectas Direitos Humanos, avalia que a atitude põe em xeque a credibilidade dos policiais e a capacidade de reivindicação. Para ele, porém, o governo errou ao não ser capaz de negociar com a categoria.
Leia alguns trechos da entrevista de Vieira à Folha:

 

FOLHA - Como vê a greve e as reivindicações dos policiais civis?
OSCAR VILHENA VIEIRA
- As polícias no Brasil e a Polícia Civil em São Paulo, em particular, têm passado por um longo período de deterioração das condições de trabalho. Isso significa, por um lado, salário, mas por outro também capacitação, condições operacionais. Em face de tudo isso, que é coisa de mais de uma década já, as reivindicações são aparentemente pertinentes. A polícia de São Paulo tem um dos menores vencimentos da federação.

FOLHA - Qual a sua opinião sobre a posição do governo?
VIEIRA
- Parece que o governo errou de forma contundente na medida em que não foi capaz de negociar e levar em consideração uma reivindicação que não é despropositada. Entrou-se num braço de ferro; perde a população.

FOLHA - Qual a sua opinião sobre policiais levarem armas para a manifestação?
VIEIRA
- Algumas ações dos policiais parecem temerárias. Essa é inconstitucional. A Constituição diz com clareza que há liberdade de manifestação sem armas. Não há exceção para policial, ainda mais em greve. [...] Além disso, o governo, que anda sem razão, neste momento, ganha alguma razão. Os policiais perdem a razão quando usam essa ferramenta. [...] Põem em risco sua credibilidade e a capacidade de fazer movimentos reivindicatórios futuros.

FOLHA - E se alegarem que eram manifestantes isolados que usavam as armas?
VIEIRA
- A maturidade da corporação e das lideranças se mostra nessa hora. Isso não é aceitável.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2810200803.htm

Obama vs. McCain

Kids know best!

http://i38.tinypic.com/21edg5.png

by myself; originals here and here

sábado, 25 de outubro de 2008

Bom jornalismo criminal

Para quem não se lembrar dessa excelente (e agora premiada) reportagem, ela foi destaque aqui neste blog:


Parabéns, Raphael Gomide! Parabéns, Folha.

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São Paulo, sábado, 25 de outubro de 2008

MÍDIA

Reportagem sobre a polícia dá à Folha prêmio da União Européia

DA SUCURSAL DO RIO

Com a reportagem "O Infiltrado - A PM por dentro", o jornalista Raphael Gomide, da Folha, foi um dos três vencedores do Prêmio Lorenzo Natali 2008, na região América Latina e Caribe.
O prêmio é concedido desde 1992 pela União Européia para trabalhos sobre direitos humanos, democracia e desenvolvimento. O nome é uma homenagem ao vice-presidente da Comissão Européia Lorenzo Natali, que morreu em 1990.
Neste ano, 1.501 jornalistas de 151 países participaram do concurso, que tem como parceiros a organização Repórteres sem Fronteiras e a Associação Mundial de Jornais e aceita trabalhos de imprensa, internet, rádio e televisão.
Publicada em 18 de maio no Mais!, a reportagem revelou o cotidiano da formação de soldados da Polícia Militar do Rio, Estado em que as forças de segurança mais matam e morrem no país. Para fazê-la, o repórter foi aprovado em concurso, com sete meses de duração, e foi recruta por 23 dias.
A cerimônia de entrega dos troféus será no dia 17 de novembro em Estrasburgo, na França, com a presença de três escolhidos em cinco regiões (Ásia e Pacífico; África; América Latina e Caribe; Europa; e Mundo Árabe e Oriente Médio). Apenas nesse dia será conhecido o ganhador do Grande Prêmio Lorenzo Natali, que pode ser de qualquer região.
É a segunda vez que a Folha recebe o prêmio Lorenzo Natali. Em 2003, o jornalista Mário Magalhães recebeu uma menção honrosa.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2510200838.htm

Wassup 2008

Recomendo, antes, relembrar o original...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Liberdade de religião

Imaginem um mundo no qual a gente pudesse falar abertamente sobre nossas crenças/convicções religiosas sem medo de perder eleição por causa disso...

Are we there yet? Nope.

Gabeira foi o mais corajoso até agora. Condenar homofobia e apoiar abertamente a comunidade GLBT, e chegar tão perto de assumir seu ateísmo, tudo isso a poucos dias do pleito, requer realmente coragem. Diante da apelação feita pela campanha da Marta, Kassab preferiu não se arriscar aqui em São Paulo, e continuar no armário -- e está no seu direito.

Gabeira++;

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São Paulo, quinta-feira, 23 de outubro de 2008

entrevista

"Apóio liberdade de religião", afirma Gabeira

DA SUCURSAL DO RIO

Em um debate da campanha de 1985 para prefeito de São Paulo, o jornalista Boris Casoy perguntou a FHC se ele acreditava em Deus. A resposta evasiva foi considerada decisiva para sua derrota para Jânio Quadros. Anteontem, o caso foi relembrado pela Folha a Fernando Gabeira. (MÁRIO MAGALHÃES)

 

FOLHA - Acredita em Deus?
FERNANDO GABEIRA
- Defendo liberdade de religião. Tenho em relação aos verdadeiros religiosos duas afinidades. A primeira é a compaixão como sentimento mais importante. A segunda é o relativo desapego a bens materiais.

FOLHA - Tem imóveis?
GABEIRA
- Não, nem carro. Só moto. Do ponto de vista de religião, eu trabalho muito com os budistas.

FOLHA - Considera-se budista?
GABEIRA
- Eu não, mas eles me consideram, eu creio.

FOLHA - E divindade, Deus?
GABEIRA
- Essa noção é ocidental. Se você tem compaixão, desapego a bens e está junto das pessoas, acreditar em Deus não fará diferença na relação de fraternidade.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2310200813.htm

Calvin & Hobbes

Calvin: Dad, how come old photographs are always black and white? Didn't they have color film back then?

Dad: Sure they did. In fact, those old photographs are in color. It's just the world was black and white then.

Calvin: Really?

Dad: Yep. The world didn't turn color until sometime in the 1930s, and it was pretty grainy color for a while, too.

Calvin: But then why are old PAINTINGS in color?! If the world was black and white, wouldn't artists have painted it that way?

Dad: Not necessarily. A lot of great artists were insane.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Beco com saída

Aquele beco é uma metáfora para ilustrar o encontro da viabilidade numa cidade com tantos riscos de inviabilidade

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São Paulo, quarta-feira, 22 de outubro de 2008


GILBERTO DIMENSTEIN

Beco com saída

MORADOR DA FAVELA de Heliópolis, criado pelos avós (sua mãe tinha 16 anos quando ele nasceu), sem contato com o pai, Jefferson Pereira da Silva imaginou que, se trabalhasse no estacionamento de uma faculdade, talvez tivesse a chance de conhecer alguém que o ajudasse a estudar psicologia. "Logo vi que ficaria estacionando carros o resto da minha vida."
Acabou achando uma saída para seu futuro, longe da psicologia: a saída estava no palco. Jefferson decidiu ser ator.
Na próxima semana, ele sobe ao palco para contar a história de um jovem que descobriu uma saída num beco. Terminado o espetáculo, Jefferson convidará os espectadores a caminharem até o beco que inspirou a peça.

 
O caminho de Jefferson até o teatro começa no violino. Ele começou a estudar violino na orquestra sinfônica criada pelo maestro Silvio Bacarelli, em Heliópolis. "Por várias vezes pensei em desistir, precisava trabalhar. Queria ganhar meu próprio dinheiro, sem depender dos meus avós." E aí foi trabalhar no estacionamento da faculdade, na aposta que, se tivesse sorte, viraria psicólogo. "Meu sonho era ser violinista e psicólogo." Mas, no íntimo, temia ter de sobreviver de bicos.
Conseguiu, então, uma remuneração mensal para tocar regularmente na orquestra sinfônica. Até que apareceu a oportunidade de participar de uma peça ("Acorda Brasil"), escrita pelo empresário Antonio Ermírio de Moraes, inspirada no trabalho do maestro Bacarelli. Só aceitou fazer o teste por insistência dos colegas. "Sou muito tímido."
Fez um papel de um marginal, era temido por todos, sempre andava com um revólver na cintura. Por causa de um professor de música, o personagem, no final, troca a arma por um violino.
As cenas de violência que integram seu cotidiano foram para o palco: "Muitas pessoas que eu conhecia morreram ou foram presas".
 
Pela sua atuação, Jefferson foi chamado para o elenco de "O Beco", escrito por Patrícia Secco, a partir da experiência da conversão de um beco na Vila Madalena em espaço de arte e convivência. Seu personagem é, agora, um pichador que se transforma em grafiteiro.
O espetáculo é gratuito e prevê que os espectadores façam uma visita de ônibus aos espaços que inspiraram a peça. Jefferson será um dos guias que os levará da ficção à realidade. "Meu prazer está no poder de encantamento da arte. Até um beco fica com saída."
Aquele beco é uma metáfora para ilustrar o encontro da viabilidade numa cidade com tantos riscos de inviabilidade -mais ou menos como a própria vida de Jefferson.
Mas a saída dele está apenas no começo: resolveu apostar na carreira de ator. Vai agora, aos 24 anos, passar por um dos seus testes mais difíceis: prestar, neste ano, o vestibular para estudar teatro na USP.

gdimen@uol.com.br

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2210200812.htm

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

É fantástico

Antes de mencionar o Cel. José Vicente, ainda não tinha informações sobre sua intervenção no programa Domingão do Faustão de ontem, no qual ele defendeu a ação da polícia. Não assisti ao programa (não quero quebrar meu "jejum" de Domingão, que já completa vários anos) mas, aparentemente, ele apontou alguns erros do GATE, porém teria defendido que tais erros não foram decisivos para a morte de Eloá. Se ele falou isso mesmo, errou.

Reportagem de 12 minutos do Fantástico contou com bons comentários de um brasileiro responsável pelo treinamento da SWAT texana. Ele lista os erros cometidos pelo GATE (além daqueles já apontados por Rodrigo Pimentel no artigo do meu post anterior, ele também compara com o modus operandi da SWAT, o que agrava ainda mais os erros cometidos na semana passada), e mostra que, sim, o GATE poderia ter evitado a tragédia, agindo dentro do "bom senso".

Cartas no Painel do Leitor da Folha de hoje mostram dois mal-entendimentos elementares:

O primeiro, de que criticar após o fato, no conforto de seu escritório com ar-condicionado, é muito fácil, o difícil é estar lá no "calor do momento". Se não houver constante treinamento do corpo policial (de elite ou não) e, antes ainda, entendimento teórico claro de quais os melhores cursos de ação para cada tipo de crise de segurança, estamos fadados a cometer erros primários. É no "conforto" de uma situação de calma e serenidade que o modus operandi da polícia deve ser desenhado. Deixar para fazer isso numa situação de crise é receita para o desastre. E, treinando até a exaustão, minimiza-se as chances de "esquecer" os procedimentos-padrão na hora do "calor do momento".

O segundo, de que caso eles tivessem optado pelo uso de um sniper para matar o seqüestrador, os "defensores de direitos humanos" estariam em cima da polícia e do governador neste momento, atacando-os por não esgotar as possibilidades de negociação. Tanto no caso do ônibus 174 quanto neste de Santo André, o que ouvi desses "defensores de direitos humanos" (alguém não é?) é de que a lei e os regulamentos disciplinares da corporação deveriam ter sido seguidos, ou seja, em caso de ameaça de morte ou perigo para o agente ou para terceiros, a polícia poderia (e deveria) usar força mortal. Alguém iria reclamar? Certamente que iria. Como estão reclamando agora! Mas, mais uma vez, a omissão dos responsáveis pela decisão do uso da força não pode ser creditada a uma eventual "gritaria" de terceiros. Dos males, o menor. Entre o risco claro e evidente da vida das duas meninas seqüestradas, que estavam sob a ameaça de revólver, e o risco potencial de ouvir gritos de ongueiros por conta da morte do seqüestrador, apenas São Paulo e Rio escolheriam correr o primeiro risco em vez do segundo. É quase inacreditável.

Crime de omissão

Mensagem
O artigo abaixo teve muito mais o dedo do Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE e uma das melhores cabeças que o corpo policial já produziu, que do José Padilha, a despeito de suas ótimas qualidades artísticas e sensibilidade para o problema, demonstradas nos excelentes "Ônibus 174" e "Tropa de Elite".

Tive o prazer de ouvir o Rogrigo Pimentel ao vivo há alguns anos, num congresso internacional sobre direitos humanos, comentando o caso do ônibus 174. Infelizmente, ele se desligou da corporação, não agüentando viver essas contradições da polícia e sua impotência de, quase sozinho, mudar essa realidade. Se eu me tornasse responsável por reformar as polícias em qualquer lugar do Brasil, Rodrigo e o Cel. José Vicente seriam provavelmente as duas primeiras pessoas que chamaria para me aconselharem.

Fica claro que ainda há muito para ser feito, e a recente queda de homicídios nesta década não pode, nem de longe, passar a idéia de uma "missão quase cumprida". Estamos apenas engatinhando no que se refere à reforma da segurança pública, e ainda há muito o que fazer.
 
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São Paulo, segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O fracasso da polícia é dos políticos

JOSÉ PADILHA e RODRIGO PIMENTEL

NÃO SÃO apenas as ocorrências mal administradas, cheias de erros primários e ilegalidades que demonstram a necessidade de uma reforma da segurança pública no Brasil. Os dados indicam essa necessidade faz tempo. E os nossos políticos, apesar de conhecerem os dados, têm se mostrado incapazes de realizar tal reforma. São eles, no final das contas, os principais responsáveis pela repetição cotidiana de tragédias como a ocorrida no evento do ônibus 174 e do seqüestro em Santo André.
Em conversa informal com agentes do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais), descobrimos que eles estão desolados com o desfecho da ocorrência, que custou a vida de uma pessoa e feriu outra, e revoltados com os políticos, devido ao descaso que têm com a unidade, exposta ao ridículo com o fracasso da operação.
Afinal, se o Gate dispusesse do equipamento necessário para administrar uma ocorrência desse tipo, como uma microcâmera de fibra ótica, saberia que o seqüestrador tinha encostado um armário de TV e uma estante na porta de entrada do apartamento. Saberia que seqüestrador e reféns não estavam na sala, mas no quarto. Saberia que uma invasão pela porta da frente daria tempo para o seqüestrador atirar nas reféns. Mas o Gate não sabia de nada disso e perdeu preciosos segundos abrindo a porta.
Se o Gate dispusesse de escada com alcance para que um policial pudesse entrar no apartamento pela janela, poderia ter evitado a tragédia. Mas a escada do Gate, como atestam as filmagens, era curta demais.
Se os policiais do Gate fossem bem treinados, não teriam deixado que uma menina de 15 anos, libertada pelo seqüestrador, voltasse a ser prisioneira. Não teriam demonstrado tamanha incompetência e desconhecimento legal. Mas os policiais do Gate, como os do Bope e do resto do país, não recebem treinamento adequado.
Quando trabalhamos no documentário "Ônibus 174", sentimos a mesma revolta por parte dos policiais do Bope, que, em sua maioria, odeiam os políticos a quem servem.
André Batista, colaborador em "Tropa de Elite" e negociador do Bope na malfadada ocorrência, deu o seguinte depoimento para o documentário: "Naquele momento, a gente viu que faltava muita coisa. As coisas que a gente vivia pedindo, os equipamentos, os cursos, parece que, naquele momento, tudo desabou." Ouvimos, virtualmente, a mesma coisa do Gate.
Chegamos, assim, a uma conclusão absurda. Concluímos, parafraseando Nietzsche, que é preciso defender os nossos policiais dos nossos políticos! Afinal, quem são os nossos policiais? E o que o Estado, administrado pelos políticos eleitos, fornece a eles?
Tomemos como exemplo um policial carioca. É um sujeito mal remunerado, mal treinado, que trabalha em uma corporação corrompida por dentro. Isso é o que o Estado lhe dá. E o que pede em troca? Que mantenha a lei. Em outras palavras, que entre em conflito com os membros corrompidos da sua corporação e com os bandidos fortemente armados da cidade.
Ora, não é à toa que o capitão Nascimento, refletindo um sentimento comum entre os policiais do Bope, tenha dito que "quem quer ser policial no Rio de Janeiro têm que escolher. Ou se corrompe, ou se omite, ou vai pra guerra." Em São Paulo, não parece ser muito diferente.
Não esqueçamos, pois, o ano de 2003, quando o então secretário nacional de Segurança Pública, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, estava prestes a conseguir a reforma que nossos policiais sérios tanto pedem.
Ele tinha participado da elaboração de um plano de segurança pública que previa um piso nacional decente para o salário dos policiais, a integração da formação e das plataformas de informação das polícias estaduais, o repasse de recursos federais para os Estados condicionado à reforma de gestão e ao controle externo e a desconstitucionalização da segurança pública, dando autonomia para que os Estados reformassem as polícias de acordo com as realidades locais.
Apresentou o plano ao governo federal com a assinatura de todos os governadores. E o que fez o governo? Desistiu. Nem sequer apresentou o plano ao Congresso. Não o reformulou, optou pela passividade. Segundo nos disse o sociólogo, por considerar que a reforma demoraria a dar resultado e que a opinião pública poderia responsabilizar o governo federal, e não os Estados, se eventuais tragédias ocorressem durante a implantação.
Evidentemente, não estamos culpando os atuais governos federal e estadual pelo desfecho do seqüestro em Santo André. Afinal, governos anteriores poderiam ter tentado reformar a segurança. O governo FHC, por exemplo, prometeu um plano nacional depois do ônibus 174.
Estamos culpando os verdadeiros responsáveis: os nossos políticos como um todo, que há muito tempo sabem que precisam reformar a segurança pública para salvar a vida de milhares de brasileiros e que há muito tempo fracassam ao não levar essa tarefa a cabo. Um fracasso ainda mais vergonhoso do que o dos policiais do Bope e do Gate.


JOSÉ PADILHA, cineasta, é diretor de "Ônibus 174", "Tropa de Elite" e "Garapa", entre outros filmes. RODRIGO PIMENTEL, sociólogo, é ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar) do Rio de Janeiro, um dos roteiristas de "Tropa de Elite" e co-produtor de "Ônibus 174".
 

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

It's time to make Management a true profession

O assunto certamente é polêmico. Mas eu acho que os autores desse artigo da HBR têm bons argumentos em mãos:

It's Time to Make Management a True Profession

Longe de argumentos corporativista tipo CFA/CRA, no sentido de tornar a prática (ou o ensino) da Administração um monopólio para titulados na área (estou exagerando o argumento, claro, mas vai nesse sentido), o artigo reconhece que muitas empresas são bem geridas por pessoas que nunca tiveram treinamento formal na área (só para citar um exemplo, Bill Gates, que não tem treinamento formal em nada, aliás...). O artigo chega a perguntar: "Does Management Education Add Value?"

Parte de minha crise com o curso de Administração era exatamente essa: com exceção de algumas boas idéias inovadoras (e que exigiram profunda reflexão e pesquisa) aqui e acolá, não vejo na Administração muito mais do que "bom senso sistematizado". Eu não operaria o tumor de ninguém, nem construiria um prédio ou defenderia uma ação legal, mas não consigo ver impedimento de juristas, engenheiros e médicos administrando (bem) empresas (ex.: o médico Claudio Luiz Lottenberg, presidente do hospital Albert Einstein, ou o "jurista" Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do Grupo Gerdau).

Os autores, cujas idéias estão resumidas na reportagem da The Economist abaixo, propõe não apenas que a Administração adote padrões mais rigorosos de conhecimento e competência para os formados na área (no limite, fornecendo o título mediante testes do tipo "exame da OAB"), como que os administradores adiram a um "código de ética" comum, um juramento como o que os médicos fazem (Juramento Hipocrático). Gostei das sugestões de conteúdo que um Juramento Whartoniano (inventei agora, estou aberto a sugestões) traria.

First, do no harm
Do bosses need their own Hippocratic Oath?
Oct 7th 2008 | From Economist.com
http://www.economist.com/daily/columns/businessview/displaystory.cfm?story_id=12371968