sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Meio gayzinho

A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara muito bem representada...

São Paulo, sexta-feira, 26 de novembro de 2010 

CÂMARA

Palmada muda filho "gayzinho", declara deputado federal

DE SÃO PAULO - O deputado federal reeleito Jair Bolsonaro (PP-RJ) disse que pais precisam agredir um filho homossexual para mudar seu comportamento.
A "receita" foi dada no programa "Participação Popular", na TV Câmara, que discutiu a "Lei da Palmada" — projeto de lei que proíbe punição corporal às crianças.
"Se o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, [ele] leva um couro e muda o comportamento dele", afirmou.
Bolsonaro faz parte da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados.
Ouvido pela Folha, ele manteve sua posição.
"Se o garoto anda com maconheiro, ele vai acabar cheirando, e se anda com gay, vai virar boiola com toda certeza", disse Bolsonaro.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2611201025.htm

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dilma no limite



São Paulo, quarta-feira, 27 de outubro de 2010


FERNANDO DE BARROS E SILVA

Dilma no limite

SÃO PAULO - "Vocês podem ter certeza, eu estou preparada para ser a primeira mulher presidente do Brasil". Foram as últimas palavras pronunciadas por Dilma Rousseff no debate da TV Record, já no início da madrugada de ontem. Quando um evento como esse chega ao fim e, mais uma vez, ela parece ter sobrevivido, seus assessores só podem comemorar aliviados -ufa!
O fato é que Dilma não inspira certeza sobre nada. É aflitivo vê-la na TV. Não apenas pelo aspecto rombudo e robótico da sua figura. A aflição de Dilma está estampada no ritmo da sua fala, ao mesmo tempo lenta e acelerada, feita de arranques e soluços, de frases decoradas mas quase sempre truncadas.
Como o debate foi na emissora de Edir Macedo, falar em Deus pegava especialmente bem. E Dilma falou, mais de uma vez: "No que depender do meu governo se Deus quiser" -assim, sem pausas, sem vírgulas, sem ênfases, como alguém que se desincumbe de um fardo.
Dilma passa a impressão de estar no limite das suas capacidades, a um triz de um curto-circuito. Isso apesar da vantagem relativamente folgada que abriu sobre José Serra -56% a 44%, segundo o Datafolha.
Não se trata, certamente, de uma pessoa despreparada. Dilma tem substância. Mas não é, nunca foi, uma pessoa preparada para chegar à Presidência. É uma neófita. Nem de longe reúne os recursos pessoais para o exercício da função de seus antecessores -Lula ou FHC.
Sua candidatura representa a continuidade de um projeto, mas é também um capricho de Lula. Ninguém sabe como ela vai arbitrar conflitos, como irá gerir a máquina do Estado ou como se sairá enquanto líder política. A rigor, ninguém sabe qual a turma que ela pretende atrair para perto de si no poder.
A revelação de que Erenice Guerra fez da Casa Civil um centro de arte em família é um péssimo cartão de visitas para quem patrocinou a ascensão da ex-ministra. Sobretudo quando se trata de uma candidata também aclamada no escuro.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2710201003.htm

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Religião e política

Quem argumenta exatamente a mesma coisa que Hélio Schwartsman abaixo é Tony Blair, que após sair do governo britânico fundou a Tony Blair Faith Foundation, e que declarou o seguinte em seu livro de memórias:

I'm really and always have been in a way more interested in religion than politics.

(O vídeo que indico acima é excelente por muitos outros motivos além da discussão sobre religião e política. Recomendo entusiasticamente!)

* * *


São Paulo, quinta-feira, 14 de outubro de 2010

HÉLIO SCHWARTSMAN

Liturgia de campanha

SÃO PAULO - Não deixa de ser um pequeno milagre: mesmo sem ter desempenhado papel determinante na votação presidencial, a religião ganhou momento e passou a definir a liturgia da campanha.
É conveniente para todos. Padres e pastores posam de grandes eleitores, Dilma abafa um pouco o caso Erenice e Serra pode continuar sonhando com o advento sobrenatural que subtrairá votos à petista.
Institucionalmente, porém, a transubstanciação da campanha em concurso de coroinhas é algo a lamentar. Não que religiosos não devam opinar. Na democracia, clérigos são livres para pregar o que bem desejarem e eleitores só devem satisfações do voto a suas consciências. Na verdade, seria impossível pedir às pessoas que não levem em conta seus valores (às vezes amparados em ensinamentos teológicos) na hora de fazer suas escolhas.
As dificuldades surgem quando a religião se torna a justificativa para posições inegociáveis. Ao pautar a política por uma lógica espiritual, que opera com conceitos como o de pecado, o discurso religioso introduz absolutos morais em questões que não podem ser tratadas de forma dogmática ou maniqueísta sem negar a própria política.
Enquanto uma lei positiva se justifica por sua racionalidade, comporta gradações e pode ser objeto de negociação, o pecado, por ter sido definido por uma autoridade incontestável, vem na forma de pacotes inegociáveis. A própria lei de aborto, de 1940, é um exemplo. Ela veda o procedimento, mas prevê exceções (risco de vida para a mãe e estupro) que não são admissíveis na lógica puramente religiosa.
Utilizar absolutos na política — religiosos ou ideológicos — é ruim porque eles a descaracterizam como instância de mediação de conflitos. O remédio contra isso, como já intuíram no século 18 os "philosophes" do Iluminismo francês e os "founding fathers" dos EUA, é a separação Estado-igreja. É essa linha que fica meio borrada com a introdução da fé na corrida eleitoral.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1410201003.htm

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pouco republicano



São Paulo, quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A culpa é da oposição

Em vez de tomar medidas contra o descalabro da Receita, presidente vai ao programa de sua candidata para atacar as vítimas 

Ganhou fama na internet o vídeo em que o presidente Lula responde com maus modos a um rapaz pobre do Rio de Janeiro, que dizia gostar de jogar tênis. Tratava-se de "esporte da burguesia", declarou o presidente, entre alguns impropérios.
Talvez a seus olhos também pareçam simplesmente coisa "da burguesia" as reações ao episódio gravíssimo da quebra do sigilo fiscal de contribuintes, entre os quais pessoas ligadas ao candidato José Serra.
Não pertencia "à burguesia", entretanto, o caseiro Francenildo dos Santos Costa, que depois de dar declarações contrárias aos interesses do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, teve sua conta bancária devassada pelos chefões do poder petista.
Do garoto da favela a personagens do PSDB não há nada em comum exceto o fato de representarem algum potencial de atrito aos poderosos do momento. E estes põem em prática seu longo aprendizado de arrogância e de abuso, tão logo se julgam ao abrigo dos olhos do público.
Fazendo-se entretanto de vítima, como é seu costume, aliás, o presidente da República ocupou parte do horário eleitoral de sua candidata para atribuir ao "preconceito" as críticas que o escândalo da Receita merecidamente recebeu da oposição.
Embalada por uma música sentimental, a aparição de Lula no programa de terça-feira foi uma demonstração deprimente do modo com que o mandatário encara a democracia, o debate político e seu próprio papel institucional.
Conclamou os adversários a manifestarem "mais amor pelo Brasil", como se fosse dos petistas e de seus aliados o monopólio desse sentimento. Criticou "os que só querem destruir", como se tivesse esquecido os tempos em que exerceu oposição sistemática. Condenou a "baixaria", como se fosse elevado o propósito de investigar a declaração de renda da filha de um candidato à Presidência.
Lula nem sequer citou o caso, escapando de explicações acerca do descalabro das violações, sejam as de evidente caráter político, sejam aquelas cujas motivações ainda são menos claras.
Fosse para agir como presidente da República, Lula deveria desde já afastar os responsáveis pela desmoralização da Receita Federal. Preferiu agir segundo os padrões da "república de companheiros" que se estabelece no país, pedindo novamente votos para sua candidata.
Não havendo provas do envolvimento direto de Dilma Rousseff na armação engendrada na Receita Federal, foi por certo temerária e excessiva a atitude tucana de pedir a impugnação da candidatura petista na Justiça Eleitoral. Eleições não se ganham por meio desse expediente.
Mas uma democracia se vê ainda mais atingida quando o Estado se torna aparelho nas mãos de uma camarilha arrogante e impenitente, que o põe a serviço de seus interesses eleitorais, de seu desrespeito com os direitos dos cidadãos, de sua permanente vocação para a chantagem moral e para a intimidação política.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0909201001.htm

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Capitalismo à brasileira

Não apenas são os políticos dependentes dos empresários: o inverso também é bastante verdadeiro.

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São Paulo, quarta-feira, 1 de setembro de 2010


FERNANDO RODRIGUES

Capitalismo à brasileira

BRASÍLIA - 

Empresário sem ideologia há no planeta inteiro. Em períodos eleitorais, fica bem com todos no establishment. Nos EUA, em 2008, essa gente doou para o democrata Barack Obama e para o republicano John McCain.

Mas há limites em sociedades mais sofisticadas. Muitos escolhem ter um lado. Steve Jobs, da Apple, doou US$ 229 mil desde 1982 a políticos e a partidos. Desse total, destinou só US$ 1.000 a um candidato republicano ao Senado. Suas doações são quase exclusivamente para democratas. A Apple, como se sabe, atravessou muito bem os anos da dinastia Bush. Já Bill Gates, da Microsoft, pulveriza recursos meio a meio entre democratas e republicanos — compreensível.

No Brasil, é raro um grande empresário revelar em público sua intenção de doar só a Dilma Rousseff (PT) ou a José Serra (PSDB). Nesta semana, o maior homem de negócios do país, Eike Batista, declarou ter dado dinheiro à petista e ao tucano, de maneira indistinta. Por quê? "Em prol da democracia", respondeu. Em seguida, no programa "Roda Viva", da TV Cultura, deu mais clareza ao seu ato: "Não vão atrasar os meus projetos nos vários Estados por causa de política".

Democracia e negócios não devem ser nem são excludentes. Mas Eike Batista, banqueiros e empreiteiros fazem pouco "em prol da democracia". O dinheiro sai de seus bolsos por uma razão utilitária. O recurso não é oferecido a um candidato porque sua proposta na área da educação é considerada ótima.

Grandes empresários — com as exceções de praxe — costumam reclamar da má qualidade dos políticos. Poucos têm coragem de fazer críticas em público. Pusilânimes, doam a quase todos os candidatos com alguma chance de vitória. Perpetuam um ambiente no qual prosperam sempre. Um capitalismo à brasileira, sem risco. Mais um oximoro produzido pela forma invertebrada de se fazer política no Brasil.

URL:
 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0109201004.htm

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Old is the new New

The fact is that people prefer living in mixed-up, unplanned cities. No more liveable and beautiful cities have ever been built than those of old Europe and the Middle East, where bakers and bankers, priests and actors, students and businessmen all rub shoulders. Rational design precluded the necessary randomness of the café, the pub and the street market: the whole walkable closeness of the old city.

No Financial Times, como "utopias urbanísticas" como Brasília ficaram muito aquém do que seus criadores tinham em mente. No Studio 360, diante de várias alternativas urbanísticas para a pensar uma "New Orleans pós-Katrina", como a população vem optando por... reconstruir o que havia antes (melhorado, porém).

Plans that just won't play ball
By Harry Eyres
August 28, 2010

New Orleans Five Years Later
August 27, 2010

A idéia central dos dois, porém, não é um conservadorismo ou saudosismo (fui um pouco infeliz no título, confesso).

Falam de como as cidades são construções sociais complexas e vivas. Por mais bem intencionados que sejam os arquitetos e urbanistas envolvidos no planejamento urbano, haverá sempre aspectos que ficarão de fora de seus projetos, mas que são parte integral da vida dos cidadãos que habitam naquela urbe.

O artigo do FT fala, ainda, de outras construções artificiais humanas que, ao isolar alguns dos elementos, anulam (todo ou parte de) seu efeito, que se dá por interações complexas pouco compreendidas. É exatamente esse fenômeno que Michael Polan identifica na chamada "Era do Nutricionismo", argumentando que o avanço da idéia de "micronutrientes" na verdade piorou nossa relação com os alimentos (ver "complexos vitamínicos").

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

For the greater cause

Coroando provocativo artigo, no qual examina os motivos pelos quais Obama mantém sua posição em favor de uniões civis para os homossexuais (no lugar de casamento), esta carta de Abraham Lincoln:

My paramount object in this struggle is to save the Union, and is not either to save or to destroy slavery. If I could save the Union without freeing any slave I would do it, and if I could save it by freeing all the slaves I would do it; and if I could save it by freeing some and leaving others alone I would also do that. What I do about slavery, and the colored race, I do because I believe it helps to save the Union; and what I forbear, I forbear because I do not believe it would help to save the Union. I shall do less whenever I shall believe what I am doing hurts the cause, and I shall do more whenever I shall believe doing more will help the cause. I shall try to correct errors when shown to be errors; and I shall adopt new views so fast as they shall appear to be true views.

I have here stated my purpose according to my view of official duty; and I intend no modification of my oft-expressed personal wish that all men every where could be free.

Yours,

A. Lincoln

[letter to Horace Greeley, August 22, 1862]

Não sei se eu teria o mesmo senso de pragmatismo. Embora seguidamente provada falsa, ainda nutro aquela ingenuidade romântica segundo a qual, se um bom argumento é auto-evidente para mim, também o será para os demais.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Corrida ao fundo do poço

Comentários ao final.

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São Paulo, terça-feira, 24 de agosto de 2010


FERNANDO DE BARROS E SILVA

Expresso Tiririca

SÃO PAULO - Se a política é uma palhaçada, vote no palhaço. Resumida a seu cerne, é essa a mensagem em torno da qual Tiririca faz sua campanha para deputado federal pelo PR de São Paulo. O Congresso seria um circo, e o "abestado" pede seu espaço no picadeiro.
"O que é que faz um deputado federal?", pergunta o humorista. E responde: "Na realidade eu não sei, mas vota em mim que eu te conto". Seu bordão mais famoso diz: "Vote no Tiririca, pior do que tá não fica". Tornou-se um sucesso instantâneo.
Ao fazer da desmoralização da política uma bandeira, razão e causa da sua candidatura (disposta a "avacalhar o avacalhado"), Tiririca se põe, à primeira vista, como mais um herdeiro do "voto Cacareco".
Era, como se sabe, o nome do rinoceronte do zoológico paulistano que recebeu, em fins dos anos 1950, mais votos do que qualquer outro candidato a vereador, tornando-se um caso célebre de voto nulo e por isso sinônimo do voto de protesto.
Mas Tiririca não está no zoológico. Ele é um "puxador de votos", a estrela do programa do PR. Sua galhofaria se destina a eleger -aí sim- uma boa bancada de rinocerontes do PR, o antigo PL, partido do mensaleiro (e também candidato) Valdemar Costa Neto. Tiririca não é um palhaço, é um biombo. Atrás dele, vão os verdadeiros artistas do circo fisiológico que o lulismo (e agora Dilma) alimenta.
Se você reparar na campanha do idiota útil na TV, verá que a propaganda exibe o nome de Mercadante, candidato a governador de SP. Tiririca não é, pois, um "outsider", uma aberração avulsa do processo eleitoral, mas alguém estrategicamente patrocinado pelo bloco que detém hoje o poder hegemônico.
Escarnecendo da política para dela se beneficiar, Tiririca é menos uma ameaça individual do que a face caricata de um sistema político que se tornou imune aos escândalos em série que fabrica. Ele de certa forma realiza a profecia de Delúbio Soares, para quem o mensalão um dia iria virar "piada de salão".

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2408201003.htm

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Lembrando que, se Tiririca é o Expresso 2222, o menestrel Juca Chaves é 2200.

Impossível tornar mais clara a estratégia do Partido da República de eleger outros deputados da sigla — de outra forma talvez inelegíveis — por meio das sobras eleitorais.

O cenário que por ora se anuncia para 2011 é tenebroso. O PMDB aparentemente chegará ao poder forte como nunca, unido não por uma agenda programática, mas pela expectativa de receber ministérios (e estatais) de "porteira fechada".

A oposição (por quem tampouco morro de amores) encolherá ainda mais, enfraquecendo o sistema de freios e contrapesos tão caro à democracia. Gente do calibre do Tiririca (como, antes, do Clodovil) certamente estará presente na próxima legislatura do Congresso Nacional (e das Assembléias Legislativas).

Outro importante mecanismo de freios e contrapesos aos excessos da política, a imprensa, sofre para se adaptar à era digital e encolhe redações, aumentando a dependência de agências de notícia e prejudicando a cobertura independente e o jornalismo investigativo. Ao mesmo tempo, não goza lá de muita popularidade no imaginário popular (é forte a idéia de elitismo e de terem um projeto político próprio) e, se não bastasse, também tem sofrido seguidas tentativas de intimidação tanto pelo Estado brasileiro (o Estadão segue sob censura há 389 dias) quanto pelo governo, sob pretexto da "democratização da comunicação".

Pior do que está não fica? Clamo para que não tentemos descobrir.

Unselfish and unwanted

Do-Gooders Get Voted Off Island First
People Don't Really Like Unselfish Colleagues, Psychologists Find
http://www.sciencedaily.com/releases/2010/08/100823101110.htm

A questão, como o artigo coloca no final, é saber se os bons samaritanos tendem posteriormente a se conformar à média da sociedade, ou se permanecem fiéis (teimosos?) a seus valores.