quarta-feira, 20 de julho de 2011

Geração de emprego



São Paulo, quarta-feira, 20 de julho de 2011

FERNANDO RODRIGUES

Marcha da insensatez

BRASÍLIA - Duas notícias mostram o Brasil na contramão das boas práticas gerenciais. Dilma Rousseff pretende mesmo criar a 39ª cadeira de ministro. No Congresso, em breve, chegarão mais 16 deputados federais e 6 senadores por causa da divisão do Estado do Pará.
Não há consenso entre gurus corporativos sobre o número ideal de diretores em uma grande empresa ou governo. Mas prevalece o senso comum: muitos cargos de chefia provocam o colapso gerencial de qualquer organismo.
Com a criação da pasta da Micro e Pequena Empresa, a 39ª, Dilma terá de fazer suas reuniões ministeriais durante vários dias seguidos se quiser dialogar com todos os seus principais assessores.
Na hipótese de cada um dos 39 ministros dar seu recado inicial à presidente em meros 5 minutos, a reunião ministerial gastará 3 horas e 15 minutos. Esse tempo será cumprido no caso de ninguém estourar sua fala e Dilma se contentar só em ouvir e não interromper o interlocutor nem fazer questionamentos.
No Congresso, a situação ainda é mais dramática. A Constituição estabelece um piso (8) e um teto (70) para o número de deputados federais de cada Estado. O crescimento do eleitorado e a criação de novas unidades da Federação produzirão, num futuro próximo, uma Câmara com 600 ou mais vagas.
Hoje já é quase inviável praticar política de alto nível com os atuais 513 deputados representando os 191 milhões de brasileiros. Só como comparação, nos EUA (307 milhões de habitantes) a Câmara dos Representantes tem apenas 435 deputados com direito a voto.
Em Brasília, esses argumentos são ignorados. Está em curso uma marcha da insensatez. Logo chegam o 39º ministro e mais congressistas. Embora nem tudo seja obra de Dilma Rousseff, esse será um legado de sua passagem pelo poder. A presidente tem meios para frear o inchaço da máquina pública, mas não demonstra apetite pelo tema.

fernando.rodrigues@grupofolha.com.br

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2007201104.htm

quarta-feira, 13 de julho de 2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Piauienses: a tragédia (anunciada) de Nova Friburgo

Amaral olhava do helicóptero para aquele desastre e pensava nos tantos que ainda iriam ocorrer no futuro, por puro descaso. Um estudo feito pelo seu grupo mostrava que no Brasil há um atraso de cinquenta anos na prevenção de catástrofes. Ainda que se comece agora a fazer um programa – necessário e caro – de remoção de moradores, de recuperação de encostas e de dragagem de rios, ainda se levará meio século para que chuvas como a do último verão não provoquem tantos danos.

[...]

Até agora, não se sabe o que fazer com os desabrigados. Em Nova Friburgo, nenhuma nova casa foi construída para abrigá-los. Nenhum plano de recuperação foi ainda apresentado. A economia da cidade, com as perdas da indústria, do comércio e do turismo, encolheu.

Ninguém, entre as dezenas de milhares de feridos, ou os 12 mil que perderam suas casas, ou os familiares dos 440 que morreram, recebeu qualquer indenização. Nenhuma autoridade foi responsabilizada ou perdeu o emprego. Não houve nenhum protesto.

O fim do mundo
A catástrofe de Friburgo, obra nacional
por Consuelo Dieguez
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-56/questoes-recorrentes/o-fim-do-mundo

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O provocador cordial

São Paulo, domingo, 19 de junho de 2011 

PERFIL

O provocador cordial 

Aos 80, FHC se reinventa

RESUMO
Fernando Henrique Cardoso encontra no ativismo pela descriminalização da maconha uma forma de restituir a articulação entre atuação intelectual e carreira política. Ao buscar um arremate progressista para vida e obra, o ex-presidente delineia seu perfil entre "temperamento conciliador" e "pensamento conflitivo".


Rafael Campos Rocha


FERNANDO DE BARROS E SILVA

FERNANDO HENRIQUE Cardoso entra na sala de seu apartamento, no bairro paulistano de Higienópolis, cinco minutos depois do horário combinado. Gentil e suave, pede desculpas e explica que estava se despedindo do filho, que havia dormido lá. 
Desde que Ruth Cardoso morreu, em 24 de junho de 2008, há três anos, FHC mora sozinho. Não mudou nada no lugar. Os filhos do casal (Luciana e Beatriz, além de Paulo Henrique) o visitam com frequência, vez ou outra dormem lá.
Fazia sol e frio na última terça pela manhã, quando ex-presidente recebeu a Folha para duas horas de conversa. Vestia suéter marrom-claro e calça de lã cinza. Carregava dois celulares, que deixou a seu lado, numa mesinha. Quando ambos tocaram, ao longo da entrevista, ele desligou sem atender.
Logo de saída, disse que nunca deu bola para o próprio aniversário, mas que achou muito simpático o jantar na sexta-feira anterior, na Sala São Paulo, quando 400 convidados -entre políticos, empresários, banqueiros, ex-ministros, intelectuais, jornalistas e amigos- comemoraram os seus 80 anos. Comemoração antecipada -FHC é de 18 de junho de 1931, desde ontem um jovem octogenário.
O ex-presidente comentou que só não aproveitou inteiramente a homenagem porque está com diverticulite -uma inflamação no intestino. Não pode beber álcool e tem restrições alimentares. Foi medicado, tudo sob controle, diz, lembrando que foi essa a doença que desencadeou a morte de Tancredo Neves, em 1985. (Tancredo, na verdade, tinha um tumor benigno e morreu de septicemia -infecção generalizada- depois de ser operado, conforme a Folha revelou na época.)

FENÔMENO Na Sala São Paulo -uma espécie de Versalhes do tucanato, como alguém definiu -, no meio de tanta gente da elite paulista e seus agregados, quem causou frisson foi Ronaldo Fenômeno. Acompanhado pela mulher, Bia Anthony, passou não mais do que meia hora no salão -o suficiente para ser assediado por vários convidados. Vicky Safra, a mulher do banqueiro Joseph Safra, foi lá pedir um autógrafo ao ex-jogador. E a mulher do crítico literário Roberto Schwarz, Grecia, saiu correndo até a porta para tirar uma foto ao lado do ídolo quando ele já estava indo embora. 
Ali, Ronaldo destoava e brilhava à sua revelia. "Ele é um cara muito agradável, muito afetivo. Mas não é populista. Não gosta desse oba-oba", diz FHC sobre o Fenômeno. E completou: "A mulher dele ajuda muito também -é interessante, simpática, inteligente."
O tucano ficou amigo do craque aposentado há pouco tempo, quando este ainda atuava pelo Corinthians. Visitam-se e até jogaram pôquer juntos, mas FHC diz que a mesa do Fenômeno não é para o seu bico. "Eu disse a ele: 'Está maluco?! Eu aposto R$ 10, vocês são milionários!'" 
O ex-presidente diz "jogar um poquerzinho com os amigos de vez em quando". O historiador Boris Fausto e o cientista político Leôncio Martins Rodrigues, seus amigos de juventude, sempre participam da mesa, entre outros convidados. Brincalhão e gozador, FHC costuma desafiar os demais dizendo saber o jogo que cada um tem nas mãos. Não deixa de ser uma espécie de blefe ao contrário. 
Intelectualmente, FHC também foi sempre um provocador. Intuiu cedo que o jogo da esquerda, da qual fazia parte (e da qual ainda se julga parte), era uma espécie de blefe. O tempo mostra que ele mais acertou do que errou conforme foi publicando as obras que o projetaram a partir dos anos 60.

CONFLITIVO Quase no fim da entrevista, FHC se definiu como uma pessoa "de temperamento conciliador e pensamento conflitivo". A imagem é precisa para sintetizar sua atuação como político e sua força como sociólogo. 
Entre um e outro, a relação é mais complementar do que se imagina. De certa forma, o político FHC "realizou" o que o intelectual escreveu -muito mais, por exemplo, do que Lula cumpriu o que falava até chegar à Presidência. 
É irônico, também por isso, que FHC carregue como um estigma o "esqueçam o que escrevi". Teria dito isso num almoço com empresários, em 1993, quando era ministro da Fazenda, de acordo com o relato de terceiros. Grudou nele como símbolo do político que traiu o intelectual, apesar de FHC repetir que a frase não existiu ("nunca ninguém afirmou que tenha ouvido essa frase; é maldade pura"). 
Pelo contrário, FHC não esconde o orgulho que tem da sua obra de juventude. Em termos teóricos, ele na verdade mudou muito pouco, justamente porque sempre foi muito pouco dogmático.

OPOSIÇÃO Sua mais recente intervenção como ideólogo do PSDB saiu pela culatra. Num texto chamado "O Papel da Oposição", publicado em abril na revista "Interesse Nacional", FHC escreveu que "enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais ou o povão, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos". 
O uso infeliz da expressão "povão" fez o mundo desabar sobre sua cabeça e interditou o debate. Para além do ato falho, no entanto, o texto identifica uma brecha de atuação para o PSDB na emergência de uma grande classe média que não se identifica com o PT de forma automática e tem demandas de consumo e cultura novas.
O jornalista pergunta: para cumprir esse papel o PSDB não teria que caminhar para a direita? Mais ainda, o PSDB não estaria condenado a ser o contraponto conservador do PT, uma espécie de Partido Republicano brasileiro?
FHC dá um jeito de dizer educadamente que as questões são equivocadas. E explica, começando por Marx: "O pressuposto de que, por definição, os mais pobres são os mais progressistas não é marxista. Marx dizia que eram os trabalhadores e os intelectuais que fariam a revolução, não os miseráveis. Ninguém está mais pensando em revolução hoje". 
E prossegue: "O pressuposto de que olhar para as classes emergentes te empurra para a direita não tem sustentação. A direita pode estar em outro lugar. Inclusive entre os mais pobres. Eu não escrevi aquele texto pensando em ideologia. Escrevi pensando na desconexão atual entre a sociedade e as instituições políticas. Como essa é uma sociedade com muita mobilidade, tem gente, ou muita gente, sem conexão." 
E conclui: "O Estado pode prender os mais pobres, pelo clientelismo. Como nós, do PSDB, não temos o Estado nas mãos, é mais difícil mexer nessas camadas. Mas tem muita gente que não está amarrada". Os tucanos, então, não devem ser os republicanos ao sul do Equador? 
FHC rebate: "Não concordo com aqueles que fazem analogia entre o PT e o Partido Democrata e o PSDB e os republicanos. Somos muito diferentes dos americanos. Os republicanos são conservadores e se assumem como tal. Há uma massa da população que quer ser conservadora. No Brasil, não tem isso. Quem for por aí está perdido. Não tem nem o pensamento, nem pessoas com essa predisposição. Você vai ter, isso sim, alianças entre setores que são dinâmicos e modernizadores. O agronegócio no Centro-Oeste e as camadas médias, por exemplo. Mas por que chamar isso de conservador, se é dinâmico e modernizador?"
"Não estou dizendo que não existam conflitos de classe aí. Mas é diferente do Partido Republicano. Ele é reacionário, é ideológico. No limite, é a favor da pena de morte. Aqui não tem essa coerência. Talvez essa sociedade que está se abrindo não possa mais ser descrita pelas categorias com as quais nós a pensamos no passado. O PFL [atual Democratas] poderia ser um partido liberal. Mas não é. Veja o prefeito de São Paulo, criou outro partido. É liberal? Não é nada. Os liberais brasileiros sempre foram estatizantes. São do Estado, clientelistas."

SOCIÓLOGO Essas respostas explicitam um modo de pensar que remete ao sociólogo dos anos 60. 
Primeiro, observar a realidade -o que parece óbvio, mas não é. Segundo, não usar categorias -sejam conceitos ou situações históricas- sem submetê-las ao crivo da realidade que se quer explicar.
O primeiro grande livro de FHC é "Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional", sua tese de doutorado, de 1962. Tratava-se de entender, a partir do estudo da economia do charque, no Rio Grande do Sul, a complicada e aberrante convivência entre estes dois termos -capitalismo e escravidão. Quais são os nexos entre eles? 
"A escravidão não poderia ser explicada sem referência à expansão do grande capitalismo", disse FHC à Folha, numa entrevista de 1996. "Mas a história do Brasil não é uma cópia do que está acontecendo na Europa. Há uma singularidade. Ao mesmo tempo, ela não tem leis próprias: é derivada, subordinada, dependente. Do ponto de vista teórico, era o mesmo mecanismo que usei depois para discutir a dependência."

DEPENDÊNCIA No mesmo ano, FHC começou a estudar o empresariado brasileiro. Em 1962, o mundo vivia o auge da Guerra Fria, polarizado em dois blocos, e os intelectuais da América Latina estavam sob forte impacto do êxito da Revolução Cubana. 
O socialismo mais do que nunca fazia parte do horizonte histórico. A posição dominante na esquerda, encampada pelo Partido Comunista, rezava que, para atingir o reino sonhado, as nações periféricas precisavam antes fazer a sua revolução democrático-burguesa, a fim de derrotar as forças do atraso.
Entendia-se por isso a associação entre imperialismo e elites latifundiárias, que bloqueava a chegada do progresso -ou, como se dizia, o "desenvolvimento das forças produtivas". A burguesia nacional era, portanto, aliada estratégica dos trabalhadores.
Quando publicou "Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil" (1964), Fernando Henrique mostrou que, no mundo real, as coisas vinham funcionando de maneira bem diferente. A burguesia nacional já estava ligada ao imperialismo, "satisfeita com a condição de sócia menor do capitalismo ocidental". Os pressupostos teóricos da esquerda eram fantasiosos.

CATASTROFISMO FHC passava a ser o grande adversário das teses catastrofistas em voga na época, segundo as quais países como o Brasil estavam condenados à estagnação e só teriam chances de se desenvolver fora dos marcos do capitalismo. Sociólogos como o americano André Gunder Frank e os brasileiros Theotonio dos Santos e Rui Mauro Marini, conhecidos como "dependentistas de esquerda" -hoje caídos no esquecimento-, partilhavam dessas ideias com razoável sucesso.
Em contraponto a eles, o livro que consagrou a teoria da dependência na versão fernandina seria um desdobramento das análises do "Empresário Industrial".
Lançado em 1967, no Chile, em parceria com o argentino Enzo Faletto, "Dependência e Desenvolvimento na América Latina" reconhecia que a economia brasileira se industrializava e que não havia estagnação, apesar da inserção dependente do país na ordem global. Dizia ainda que essa dependência só poderia ser bem compreendida com a especificação histórica dos conflitos políticos internos de cada país e da sua relação com a política e a economia internacionais.

PRESIDENTE Faz sentido que a chegada à Presidência, em 1994, tenha sido vista como uma janela de oportunidade para o país adequar seu desenvolvimento -na verdade, retomá-lo depois da falência do nacional-desenvolvimentismo- à nova ordem mundial. 
Na ocasião, o cientista político José Luís Fiori chegou a publicar, durante a campanha eleitoral, um ensaio no caderno Mais! que ficou célebre. Chamava-se "Os Moedeiros Falsos", em referência ao romance de André Gide, do qual tirou a epígrafe: "Afinal, é preciso admitir, meu caro, que há pessoas que sentem necessidade de agir contra seus próprios interesses".
Fiori dizia que FHC "resolveu acompanhar a posição de seu velho objeto de estudo, o empresariado brasileiro, e assumiu como fato irrecusável as atuais relações de poder e dependência internacionais. Deixou seu idealismo reformista e ficou com seu realismo analítico para propor-se como 'condottiere' da sua burguesia industrial, capaz de reconduzi-la a seu destino manifesto de sócia-menor e dependente do mesmo capitalismo associado, renovado pela terceira revolução tecnológica e pela globalização financeira". Esqueçam o que escrevi? Nunca! Exatamente o contrário. 
Para FHC, em geral, os intelectuais têm dificuldades de compreender a política pois sofrem de deficit de realidade. Alguém de boa-fé negaria que o país que o tucano entregou a Lula era bem melhor do que o recebido por ele? "A maior injustiça que fazem comigo é me chamar de neoliberal. O que fiz foi reestruturar o Estado", diz.
O ex-presidente vê seu governo como parte de um processo de avanços que começa na década de 1980. No resumo de FHC, os passos fundamentais da história recente do Brasil foram os seguintes: primeiro, o movimento que vai das Diretas-Já à Constituinte. A Constituição desenhou o arcabouço social do Brasil contemporâneo. 
O segundo passo foi dado com Fernando Collor: "Abriu a economia, atabalhoadamente, mas abriu". O terceiro passo foi a estabilização da moeda. O quarto, a reforma patrimonial do Estado. O quinto são as políticas sociais. "Isso é a história do Brasil recente. Esses são os pontos importantes. E há continuidade nisso, da Constituição para cá", sustenta.

CEBRAP Entre a teoria da dependência e o Real, muita coisa aconteceu. Em 1969, cassado na USP, FHC fundou com outros professores o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), que iria se tornar, nos anos 70 e 80, o principal centro de estudos de corte progressista do país, além de celeiro de quadros intelectuais absorvidos por governos democráticos, a começar pelo de Franco Montoro em São Paulo, em 1982.
Participou da formulação da anticandidatura presidencial de Ulysses Guimarães, em 1973, e projetou-se como liderança da sociedade civil nascente que pressionava pelo fim do regime militar. 
Em 1975, publicou "Autoritarismo e Democratização", aproximando-se como intelectual do assunto que pautaria a década. Suplente de senador em 1978, assumiu o mandato em 1983, quando Montoro se elegeu governador. Derrotado por Jânio Quadros na disputa pela Prefeitura de São Paulo em 1985 -seu pior revés político-, foi senador até 1992. Fundou o PSDB em 1988 e foi chanceler de Itamar Franco por poucos meses, até assumir a Fazenda em 1993 e entrar para a história.
Apesar da trajetória incomum e brilhante, FHC diz ter sido "um presidente acidental". O cargo -ele tenta convencer o interlocutor- nunca o obcecou. 
Talvez com isso queira marcar um contraponto entre o seu jeito maleável de lidar com a política e os acasos da existência e a ideia fixa de uma vida inteira, encarnada por seu amigo José Serra. "Eu não sou um político tradicional, não vivo da política. E talvez nem para a política, na acepção weberiana, da vocação. O lado intelectual é forte em mim. O lado provocador, de arriscar, de flertar com posições de vanguarda."

MACONHA Fernando Henrique vem desempenhando de um ano para cá um papel que não é nem o do intelectual, nem o do político, embora ambos nele convivam. Aos 80, adotou a causa da descriminalização da maconha e se tornou uma espécie de ativista global, pesquisando e discorrendo sobre o assunto mundo afora. O protagonismo no documentário recém-lançado "Quebrando o Tabu", do diretor Fernando Grostein Andrade, deu a FHC uma nova notoriedade. Na prática, ele passou a se dirigir a uma geração que hoje tem 18 anos e estava nascendo ou engatinhava quando ele se elegeu presidente.
O engajamento de FHC nessa questão parece funcionar como um arremate progressista em sua biografia, em sintonia com o lugar que ele sempre quis ocupar. 
"É um tema mais fácil para um político fora do jogo eleitoral, como eu, que nem político no sentido convencional sou", diz. Para ele, seu partido, o PSDB, por ora deve ficar fora da discussão, para não atrapalhar: "As pessoas reclamam, dizem 'ah, o PSDB não está dando apoio', mas é melhor que não se meta. Se for se meter, vai se meter com o preconceito. Quando na sociedade houver uma coisa mais clara, opções reais, aí os políticos entram". Ele acredita que a sociedade brasileira, conservadora nessa matéria, ainda não está madura para influenciar os políticos, e os políticos não vão na vanguarda. Esses, ele diz, entusiasmado, são "temas de vanguarda", que "têm conexão" com a vida real. 
"Anda comigo na rua para você ver se não tem", provoca, quase brincando, depois de dizer que outro dia o porteiro de um prédio vizinho o abordou para elogiar sua posição.

SOCIALISTA Já é meio-dia e o jornalista pergunta se FHC algum dia foi, de fato, socialista. A resposta vem assim:
"Nunca fui militante no sentido estrito. Eu era estudioso. Na altura do seminário do Marx [entre os anos 50 e 60], ninguém era ligado a partido. E nunca me entusiasmei com a luta armada. Mas até hoje eu acho o sistema capitalista extremamente difícil de tragar. Pessoalmente, não aceito desigualdades. Tenho horror a prerrogativas."
E exemplifica: "A mim me constrange, por exemplo, não entrar numa fila. Eu primeiro vou para a fila. Depois alguém pode me tirar, mas eu vou. No instituto, eu fico na fila para entrar no elevador. Não suporto 'entourage'. Ao contrário do que muita gente pensa, meu ser não é afim com esse sistema. Sou mais igualitário, como sentimento. Agora, sou realista."

quarta-feira, 18 de maio de 2011

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Why I'll Remember May 2, 2011

The New York Times

I'm an American who works abroad. Today I woke up earlier than usual and while soberly checking the international news, I saw immediately (and everywhere) that Osama bin Laden had been killed. Good news, I suppose. The almost mythical leader of Al-Qaeda, who nearly everyone had forgotten about, was dead and dumped in the sea. He had been irrelevant for long, I thought, but perhaps his death would lead to some much-needed reflection about the catastrophe that was the last decade. Right.

I will not remember today for Osama's death. I will remember it for the way I felt watching the videos of my countrymen celebrating in the streets of New York and Washington. I don't recognize them, these people waving flags, singing, and pouring their jubilation into the night because we killed someone. And what about all the others that have been killed? During 10 years we spent unbelievable amounts of blood and treasure, enacted unthinkable civil liberties legislation, and turned ourselves into brutes for this.

And there we were out on the streets. Brutes. We have become brutes.

Yes, the world is a better place without Osama bin Laden. But I fear what this has brought out in us. The structural factors that create Osama bin Ladens still exist, and unless we work to change those, we will continue to undermine ourselves by giving our attention to tomorrow's straw man.

(HeathenFace via reddit)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Odeio neoliberal

Não as pessoas que se definem como neoliberal (existem?), não a ideologia neoliberal, mas a palavra “neoliberal”. O que quer dizer esse termo, mesmo? Em geral é usado para desmerecer uma pessoa ou política. Não precisa nem explicar mais o ponto da discordância. “É neoliberal”. Discussão encerrada.

Aproveitando o feriado para limpar meus armários, encontrei o texto abaixo, escrito há mais de uma década, quando o termo estava mais em alta, para se referir ao presidente da época. Muda-se de presidente, mantêm-se as bases da política macroeconômica, despenca o uso do termo. O que só reforça minha impressão de que se trata de um grande continente para abarcar os mais diversos conteúdos (nem sempre consistentes):

Políticas neoliberais? Mas o que é o neoliberalismo?
Fabio Giambiagi e Maurício Mesquita Moreira
Revista do BNDES, Rio de Janeiro, v. 7, n. 13, junho de 2000

Lembrei do dia em que pedi a uma amiga de esquerda que avaliasse seu grau de concordância com uma lista de dez proposições de políticas. Concordava fortemente com 50% delas, parcialmente (ou sem opinião formada) com outras 30%, e rejeitava apenas 20%. Foi apenas no final da nossa conversa que disse que tais proposições, nenhuma delas hoje digna de causar muita polêmica, compunham o chamado “Consenso de Washington”.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ateísmo positivo

Rational Atheism

An open letter to Messrs. Dawkins, Dennett, Harris and Hitchens

By Michael Shermer  |  Scientific American  |  August 19, 2007

Since the turn of the millennium, a new militancy has arisen among religious skeptics in response to three threats to science and freedom: (1) attacks against evolution education and stem cell research; (2) breaks in the barrier separating church and state leading to political preferences for some faiths over others; and (3) fundamentalist terrorism here and abroad. Among many metrics available to track this skeptical movement is the ascension of four books to the august heights of the New York Times best-seller list—Sam Harris’s Letter to a Christian Nation (Knopf, 2006), Daniel Dennett’s Breaking the Spell (Viking, 2006), Christopher Hitchens’s God Is Not Great (Hachette Book Group, 2007) and Richard Dawkins’s The God Delusion (Houghton Mifflin, 2006)—that together, in Dawkins’s always poignant prose, “raise consciousness to the fact that to be an atheist is a realistic aspiration, and a brave and splendid one. You can be an atheist who is happy, balanced, moral and intellectually fulfilled.” Amen, brother.

Whenever religious beliefs conflict with scientific facts or violate principles of political liberty, we must respond with appropriate aplomb. Nevertheless, we should be cautious about irrational exuberance. I suggest that we raise our consciousness one tier higher for the following reasons.

1. Anti-something movements by themselves will fail. Atheists cannot simply define themselves by what they do not believe. As Austrian economist Ludwig von Mises warned his anti-Communist colleagues in the 1950s: “An anti-something movement displays a purely negative attitude. It has no chance whatever to succeed. Its passionate diatribes virtually advertise the program they attack. People must fight for something that they want to achieve, not simply reject an evil, however bad it may be.”

2. Positive assertions are necessary. Champion science and reason, as Charles Darwin suggested: “It appears to me (whether rightly or wrongly) that direct arguments against Christianity & theism produce hardly any effect on the public; & freedom of thought is best promoted by the gradual illumination of men’s minds which follow[s] from the advance of science. It has, therefore, been always my object to avoid writing on religion, & I have confined myself to science.”

3. Rational is as rational does. If it is our goal to raise people’s consciousness to the wonders of science and the power of reason, then we must apply science and reason to our own actions. It is irrational to take a hostile or condescending attitude toward religion because by doing so we virtually guarantee that religious people will respond in kind. As Carl Sagan cautioned in “The Burden of Skepticism,” a 1987 lecture, “You can get into a habit of thought in which you enjoy making fun of all those other people who don’t see things as clearly as you do. We have to guard carefully against it.”

4. The golden rule is symmetrical. In the words of the greatest conscious­ness raiser of the 20th century, Mart­in Luther King, Jr., in his epic “I Have a Dream” speech: “In the process of gaining our rightful place, we must not be guilty of wrong­ful deeds. Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred. We must forever conduct our struggle on the high plane of dignity and discipline.” If atheists do not want theists to prejudge them in a negative light, then they must not do unto theists the same.

5. Promote freedom of belief and disbelief. A higher moral principle that encompasses both science and religion is the freedom to think, believe and act as we choose, so long as our thoughts, beliefs and actions do not infringe on the equal freedom of others. As long as religion does not threaten science and freedom, we should be respectful and tolerant because our freedom to disbelieve is inextricably bound to the freedom of others to believe.

As King, in addition, noted: “The marvelous new militancy which has engulfed the Negro community must not lead us to a distrust of all white people, for many of our white brothers, as evidenced by their presence here today, have come to realize that their destiny is tied up with our destiny. And they have come to realize that their freedom is inextricably bound to our freedom.”

Rational atheism values the truths of science and the power of reason, but the principle of freedom stands above both science and religion.

(via Scientific American)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Piauienses: Persio Arida

A citação abaixo é cômica, mas o relato completo de Persio Arida evoca muitas outras emoções:

Antes de ir para a garçonnière tratei de esvaziar a casa. Entulhei panfletos, manifestos, anotações e mais as obras completas do Lênin em uma mala velha. Lênin era um escritor prolífico e sua obra, publicada em espanhol na União Soviética, a preço de banana, se estendia por vários volumes. A mala ficou um chumbo, daqueles de destroncar as costas de halterofilista.

O que fazer? Hospedar a maldita mala na casa de algum amigo poderia incriminá-lo. Enterrá-la no jardim? Não, o funeral de uma mala poderia chamar a atenção dos vizinhos. Abandoná-la em terreno baldio ou depósito de lixo? Não, as impressões digitais nos livros e nos papéis me denunciariam. A solução era o rio Pinheiros, fétido e poluído. Mergulhador algum se atreveria a buscar a mala naquelas águas.

A operação aconteceu no lusco-fusco de um dia de semana, lanternas de carros se confundindo com as últimas luzes do dia. Parei o carro bem perto da ponte da Cidade Jardim. Subiria pela faixa de pedestres até o primeiro ponto no qual pudesse jogar a mala.

Foi um sufoco. A alça arrebentou na partida. Mala antiga, sem rodinhas. Tentei fazer dela uma roda retangular, que empurraria, volta após volta, apoiada apenas nas laterais estreitas. Tolice – a mala tombou estrondosamente no chão logo na primeira volta. Empurrei aquele chumbo com as mãos enquanto minhas costas arqueadas aguentaram. Na metade da caminhada, exausto, passei a empurrar a mala com os pés, quase chutando o couro marrom, amaldiçoando Lênin. Era um enchedor de linguiça, um sujeitinho pretensioso, incapaz de se expressar com concisão, que achava que só porque era Lênin e mandava na União Soviética tinha que botar no papel toda maldita ideia que lhe ocorria.

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Piauienses: Marcos de Azambuja

Esse relato está delicioso, terei que destacar ao menos dois trechos:

Sumiu

Um grande diplomata sueco, Jan Mårtenson, que começou sua vida profissional por esses idos no Brasil, disse-me décadas depois que a expressão brasileira da qual mais sentia falta era a palavra “sumiu”. Quando dava por falta de alguma coisa em sua casa, nos seus tempos cariocas, a explicação da empregada era sempre a mesma: “Sumiu.”

Mårtenson dizia que a palavra explica o inexplicável, encerra o assunto e não o leva a nenhuma consequência policial ou administrativa. Estava nas coisas a faculdade de sumir e, aceita essa premissa, não se falava mais no assunto. As coisas tinham também a faculdade de reaparecer mais tarde, sem maiores explicações. Sumiu. Apareceu.

Choque de civilizações

A bateria de elevadores do prédio, numerosos e de última linha, entrara em colapso. Ou bem estavam todos em um determinado andar, ou todos iam juntos subindo ou descendo. Havia se desfeito um sofisticado programa que deveria permitir que subissem ou descessem alternadamente, capazes de dar rápido atendimento, e não ficassem, como acontecia então, retidos em um só andar.

O administrador confessou-me terem feito algumas investigações. E descobriram que éramos nós, brasileiros, a causa de todo o transtorno. Haviam previsto a parada de cada elevador por um número preciso de segundos. Mas no nosso andar a pausa era imprevisível, e muito mais longa. Por causa de uma mistura de gentilezas e respeito a precedências; por esperar algum retardatário para quem mantínhamos a porta aberta; por uma mensagem de última hora que não podia deixar de ser dada; para ajudar alguém a entrar num sobretudo, tínhamos desorganizado todo o sistema.

Diante desse verdadeiro choque de civilizações, pediam-me, o administrador e o engenheiro, que os ajudasse a resolver o imbróglio. Prometi que faria alguma coisa, mas, naturalmente, não mudamos nossos hábitos nem encurtamos as nossas gentilezas. Acredito que os americanos, com sua tecnologia, devam ter encontrado uma nova programação, que ajudou a superar o problema. Ficou-me a constatação, reforçada tantas vezes depois ao longo da vida (em elevadores, no final de almoços, jantares e festas), de que a nossa liturgia de partidas tem um ritmo que não pode ser abreviado. E que, se os franceses saem sem se despedir, os brasileiros se despedem sem sair.

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Aliás, o relato de Azambuja na edição do mês passado também vale muito a pena!