sábado, 25 de outubro de 2008

Wassup 2008

Recomendo, antes, relembrar o original...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Liberdade de religião

Imaginem um mundo no qual a gente pudesse falar abertamente sobre nossas crenças/convicções religiosas sem medo de perder eleição por causa disso...

Are we there yet? Nope.

Gabeira foi o mais corajoso até agora. Condenar homofobia e apoiar abertamente a comunidade GLBT, e chegar tão perto de assumir seu ateísmo, tudo isso a poucos dias do pleito, requer realmente coragem. Diante da apelação feita pela campanha da Marta, Kassab preferiu não se arriscar aqui em São Paulo, e continuar no armário -- e está no seu direito.

Gabeira++;

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São Paulo, quinta-feira, 23 de outubro de 2008

entrevista

"Apóio liberdade de religião", afirma Gabeira

DA SUCURSAL DO RIO

Em um debate da campanha de 1985 para prefeito de São Paulo, o jornalista Boris Casoy perguntou a FHC se ele acreditava em Deus. A resposta evasiva foi considerada decisiva para sua derrota para Jânio Quadros. Anteontem, o caso foi relembrado pela Folha a Fernando Gabeira. (MÁRIO MAGALHÃES)

 

FOLHA - Acredita em Deus?
FERNANDO GABEIRA
- Defendo liberdade de religião. Tenho em relação aos verdadeiros religiosos duas afinidades. A primeira é a compaixão como sentimento mais importante. A segunda é o relativo desapego a bens materiais.

FOLHA - Tem imóveis?
GABEIRA
- Não, nem carro. Só moto. Do ponto de vista de religião, eu trabalho muito com os budistas.

FOLHA - Considera-se budista?
GABEIRA
- Eu não, mas eles me consideram, eu creio.

FOLHA - E divindade, Deus?
GABEIRA
- Essa noção é ocidental. Se você tem compaixão, desapego a bens e está junto das pessoas, acreditar em Deus não fará diferença na relação de fraternidade.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2310200813.htm

Calvin & Hobbes

Calvin: Dad, how come old photographs are always black and white? Didn't they have color film back then?

Dad: Sure they did. In fact, those old photographs are in color. It's just the world was black and white then.

Calvin: Really?

Dad: Yep. The world didn't turn color until sometime in the 1930s, and it was pretty grainy color for a while, too.

Calvin: But then why are old PAINTINGS in color?! If the world was black and white, wouldn't artists have painted it that way?

Dad: Not necessarily. A lot of great artists were insane.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Beco com saída

Aquele beco é uma metáfora para ilustrar o encontro da viabilidade numa cidade com tantos riscos de inviabilidade

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São Paulo, quarta-feira, 22 de outubro de 2008


GILBERTO DIMENSTEIN

Beco com saída

MORADOR DA FAVELA de Heliópolis, criado pelos avós (sua mãe tinha 16 anos quando ele nasceu), sem contato com o pai, Jefferson Pereira da Silva imaginou que, se trabalhasse no estacionamento de uma faculdade, talvez tivesse a chance de conhecer alguém que o ajudasse a estudar psicologia. "Logo vi que ficaria estacionando carros o resto da minha vida."
Acabou achando uma saída para seu futuro, longe da psicologia: a saída estava no palco. Jefferson decidiu ser ator.
Na próxima semana, ele sobe ao palco para contar a história de um jovem que descobriu uma saída num beco. Terminado o espetáculo, Jefferson convidará os espectadores a caminharem até o beco que inspirou a peça.

 
O caminho de Jefferson até o teatro começa no violino. Ele começou a estudar violino na orquestra sinfônica criada pelo maestro Silvio Bacarelli, em Heliópolis. "Por várias vezes pensei em desistir, precisava trabalhar. Queria ganhar meu próprio dinheiro, sem depender dos meus avós." E aí foi trabalhar no estacionamento da faculdade, na aposta que, se tivesse sorte, viraria psicólogo. "Meu sonho era ser violinista e psicólogo." Mas, no íntimo, temia ter de sobreviver de bicos.
Conseguiu, então, uma remuneração mensal para tocar regularmente na orquestra sinfônica. Até que apareceu a oportunidade de participar de uma peça ("Acorda Brasil"), escrita pelo empresário Antonio Ermírio de Moraes, inspirada no trabalho do maestro Bacarelli. Só aceitou fazer o teste por insistência dos colegas. "Sou muito tímido."
Fez um papel de um marginal, era temido por todos, sempre andava com um revólver na cintura. Por causa de um professor de música, o personagem, no final, troca a arma por um violino.
As cenas de violência que integram seu cotidiano foram para o palco: "Muitas pessoas que eu conhecia morreram ou foram presas".
 
Pela sua atuação, Jefferson foi chamado para o elenco de "O Beco", escrito por Patrícia Secco, a partir da experiência da conversão de um beco na Vila Madalena em espaço de arte e convivência. Seu personagem é, agora, um pichador que se transforma em grafiteiro.
O espetáculo é gratuito e prevê que os espectadores façam uma visita de ônibus aos espaços que inspiraram a peça. Jefferson será um dos guias que os levará da ficção à realidade. "Meu prazer está no poder de encantamento da arte. Até um beco fica com saída."
Aquele beco é uma metáfora para ilustrar o encontro da viabilidade numa cidade com tantos riscos de inviabilidade -mais ou menos como a própria vida de Jefferson.
Mas a saída dele está apenas no começo: resolveu apostar na carreira de ator. Vai agora, aos 24 anos, passar por um dos seus testes mais difíceis: prestar, neste ano, o vestibular para estudar teatro na USP.

gdimen@uol.com.br

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2210200812.htm

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

É fantástico

Antes de mencionar o Cel. José Vicente, ainda não tinha informações sobre sua intervenção no programa Domingão do Faustão de ontem, no qual ele defendeu a ação da polícia. Não assisti ao programa (não quero quebrar meu "jejum" de Domingão, que já completa vários anos) mas, aparentemente, ele apontou alguns erros do GATE, porém teria defendido que tais erros não foram decisivos para a morte de Eloá. Se ele falou isso mesmo, errou.

Reportagem de 12 minutos do Fantástico contou com bons comentários de um brasileiro responsável pelo treinamento da SWAT texana. Ele lista os erros cometidos pelo GATE (além daqueles já apontados por Rodrigo Pimentel no artigo do meu post anterior, ele também compara com o modus operandi da SWAT, o que agrava ainda mais os erros cometidos na semana passada), e mostra que, sim, o GATE poderia ter evitado a tragédia, agindo dentro do "bom senso".

Cartas no Painel do Leitor da Folha de hoje mostram dois mal-entendimentos elementares:

O primeiro, de que criticar após o fato, no conforto de seu escritório com ar-condicionado, é muito fácil, o difícil é estar lá no "calor do momento". Se não houver constante treinamento do corpo policial (de elite ou não) e, antes ainda, entendimento teórico claro de quais os melhores cursos de ação para cada tipo de crise de segurança, estamos fadados a cometer erros primários. É no "conforto" de uma situação de calma e serenidade que o modus operandi da polícia deve ser desenhado. Deixar para fazer isso numa situação de crise é receita para o desastre. E, treinando até a exaustão, minimiza-se as chances de "esquecer" os procedimentos-padrão na hora do "calor do momento".

O segundo, de que caso eles tivessem optado pelo uso de um sniper para matar o seqüestrador, os "defensores de direitos humanos" estariam em cima da polícia e do governador neste momento, atacando-os por não esgotar as possibilidades de negociação. Tanto no caso do ônibus 174 quanto neste de Santo André, o que ouvi desses "defensores de direitos humanos" (alguém não é?) é de que a lei e os regulamentos disciplinares da corporação deveriam ter sido seguidos, ou seja, em caso de ameaça de morte ou perigo para o agente ou para terceiros, a polícia poderia (e deveria) usar força mortal. Alguém iria reclamar? Certamente que iria. Como estão reclamando agora! Mas, mais uma vez, a omissão dos responsáveis pela decisão do uso da força não pode ser creditada a uma eventual "gritaria" de terceiros. Dos males, o menor. Entre o risco claro e evidente da vida das duas meninas seqüestradas, que estavam sob a ameaça de revólver, e o risco potencial de ouvir gritos de ongueiros por conta da morte do seqüestrador, apenas São Paulo e Rio escolheriam correr o primeiro risco em vez do segundo. É quase inacreditável.

Crime de omissão

Mensagem
O artigo abaixo teve muito mais o dedo do Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE e uma das melhores cabeças que o corpo policial já produziu, que do José Padilha, a despeito de suas ótimas qualidades artísticas e sensibilidade para o problema, demonstradas nos excelentes "Ônibus 174" e "Tropa de Elite".

Tive o prazer de ouvir o Rogrigo Pimentel ao vivo há alguns anos, num congresso internacional sobre direitos humanos, comentando o caso do ônibus 174. Infelizmente, ele se desligou da corporação, não agüentando viver essas contradições da polícia e sua impotência de, quase sozinho, mudar essa realidade. Se eu me tornasse responsável por reformar as polícias em qualquer lugar do Brasil, Rodrigo e o Cel. José Vicente seriam provavelmente as duas primeiras pessoas que chamaria para me aconselharem.

Fica claro que ainda há muito para ser feito, e a recente queda de homicídios nesta década não pode, nem de longe, passar a idéia de uma "missão quase cumprida". Estamos apenas engatinhando no que se refere à reforma da segurança pública, e ainda há muito o que fazer.
 
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São Paulo, segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O fracasso da polícia é dos políticos

JOSÉ PADILHA e RODRIGO PIMENTEL

NÃO SÃO apenas as ocorrências mal administradas, cheias de erros primários e ilegalidades que demonstram a necessidade de uma reforma da segurança pública no Brasil. Os dados indicam essa necessidade faz tempo. E os nossos políticos, apesar de conhecerem os dados, têm se mostrado incapazes de realizar tal reforma. São eles, no final das contas, os principais responsáveis pela repetição cotidiana de tragédias como a ocorrida no evento do ônibus 174 e do seqüestro em Santo André.
Em conversa informal com agentes do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais), descobrimos que eles estão desolados com o desfecho da ocorrência, que custou a vida de uma pessoa e feriu outra, e revoltados com os políticos, devido ao descaso que têm com a unidade, exposta ao ridículo com o fracasso da operação.
Afinal, se o Gate dispusesse do equipamento necessário para administrar uma ocorrência desse tipo, como uma microcâmera de fibra ótica, saberia que o seqüestrador tinha encostado um armário de TV e uma estante na porta de entrada do apartamento. Saberia que seqüestrador e reféns não estavam na sala, mas no quarto. Saberia que uma invasão pela porta da frente daria tempo para o seqüestrador atirar nas reféns. Mas o Gate não sabia de nada disso e perdeu preciosos segundos abrindo a porta.
Se o Gate dispusesse de escada com alcance para que um policial pudesse entrar no apartamento pela janela, poderia ter evitado a tragédia. Mas a escada do Gate, como atestam as filmagens, era curta demais.
Se os policiais do Gate fossem bem treinados, não teriam deixado que uma menina de 15 anos, libertada pelo seqüestrador, voltasse a ser prisioneira. Não teriam demonstrado tamanha incompetência e desconhecimento legal. Mas os policiais do Gate, como os do Bope e do resto do país, não recebem treinamento adequado.
Quando trabalhamos no documentário "Ônibus 174", sentimos a mesma revolta por parte dos policiais do Bope, que, em sua maioria, odeiam os políticos a quem servem.
André Batista, colaborador em "Tropa de Elite" e negociador do Bope na malfadada ocorrência, deu o seguinte depoimento para o documentário: "Naquele momento, a gente viu que faltava muita coisa. As coisas que a gente vivia pedindo, os equipamentos, os cursos, parece que, naquele momento, tudo desabou." Ouvimos, virtualmente, a mesma coisa do Gate.
Chegamos, assim, a uma conclusão absurda. Concluímos, parafraseando Nietzsche, que é preciso defender os nossos policiais dos nossos políticos! Afinal, quem são os nossos policiais? E o que o Estado, administrado pelos políticos eleitos, fornece a eles?
Tomemos como exemplo um policial carioca. É um sujeito mal remunerado, mal treinado, que trabalha em uma corporação corrompida por dentro. Isso é o que o Estado lhe dá. E o que pede em troca? Que mantenha a lei. Em outras palavras, que entre em conflito com os membros corrompidos da sua corporação e com os bandidos fortemente armados da cidade.
Ora, não é à toa que o capitão Nascimento, refletindo um sentimento comum entre os policiais do Bope, tenha dito que "quem quer ser policial no Rio de Janeiro têm que escolher. Ou se corrompe, ou se omite, ou vai pra guerra." Em São Paulo, não parece ser muito diferente.
Não esqueçamos, pois, o ano de 2003, quando o então secretário nacional de Segurança Pública, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, estava prestes a conseguir a reforma que nossos policiais sérios tanto pedem.
Ele tinha participado da elaboração de um plano de segurança pública que previa um piso nacional decente para o salário dos policiais, a integração da formação e das plataformas de informação das polícias estaduais, o repasse de recursos federais para os Estados condicionado à reforma de gestão e ao controle externo e a desconstitucionalização da segurança pública, dando autonomia para que os Estados reformassem as polícias de acordo com as realidades locais.
Apresentou o plano ao governo federal com a assinatura de todos os governadores. E o que fez o governo? Desistiu. Nem sequer apresentou o plano ao Congresso. Não o reformulou, optou pela passividade. Segundo nos disse o sociólogo, por considerar que a reforma demoraria a dar resultado e que a opinião pública poderia responsabilizar o governo federal, e não os Estados, se eventuais tragédias ocorressem durante a implantação.
Evidentemente, não estamos culpando os atuais governos federal e estadual pelo desfecho do seqüestro em Santo André. Afinal, governos anteriores poderiam ter tentado reformar a segurança. O governo FHC, por exemplo, prometeu um plano nacional depois do ônibus 174.
Estamos culpando os verdadeiros responsáveis: os nossos políticos como um todo, que há muito tempo sabem que precisam reformar a segurança pública para salvar a vida de milhares de brasileiros e que há muito tempo fracassam ao não levar essa tarefa a cabo. Um fracasso ainda mais vergonhoso do que o dos policiais do Bope e do Gate.


JOSÉ PADILHA, cineasta, é diretor de "Ônibus 174", "Tropa de Elite" e "Garapa", entre outros filmes. RODRIGO PIMENTEL, sociólogo, é ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar) do Rio de Janeiro, um dos roteiristas de "Tropa de Elite" e co-produtor de "Ônibus 174".
 

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

It's time to make Management a true profession

O assunto certamente é polêmico. Mas eu acho que os autores desse artigo da HBR têm bons argumentos em mãos:

It's Time to Make Management a True Profession

Longe de argumentos corporativista tipo CFA/CRA, no sentido de tornar a prática (ou o ensino) da Administração um monopólio para titulados na área (estou exagerando o argumento, claro, mas vai nesse sentido), o artigo reconhece que muitas empresas são bem geridas por pessoas que nunca tiveram treinamento formal na área (só para citar um exemplo, Bill Gates, que não tem treinamento formal em nada, aliás...). O artigo chega a perguntar: "Does Management Education Add Value?"

Parte de minha crise com o curso de Administração era exatamente essa: com exceção de algumas boas idéias inovadoras (e que exigiram profunda reflexão e pesquisa) aqui e acolá, não vejo na Administração muito mais do que "bom senso sistematizado". Eu não operaria o tumor de ninguém, nem construiria um prédio ou defenderia uma ação legal, mas não consigo ver impedimento de juristas, engenheiros e médicos administrando (bem) empresas (ex.: o médico Claudio Luiz Lottenberg, presidente do hospital Albert Einstein, ou o "jurista" Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do Grupo Gerdau).

Os autores, cujas idéias estão resumidas na reportagem da The Economist abaixo, propõe não apenas que a Administração adote padrões mais rigorosos de conhecimento e competência para os formados na área (no limite, fornecendo o título mediante testes do tipo "exame da OAB"), como que os administradores adiram a um "código de ética" comum, um juramento como o que os médicos fazem (Juramento Hipocrático). Gostei das sugestões de conteúdo que um Juramento Whartoniano (inventei agora, estou aberto a sugestões) traria.

First, do no harm
Do bosses need their own Hippocratic Oath?
Oct 7th 2008 | From Economist.com
http://www.economist.com/daily/columns/businessview/displaystory.cfm?story_id=12371968

Everybody loves Obama

The Washington Post endossa hoje a candidatura de McCain.

Barack Obama for President
Friday, October 17, 2008; Page A24
http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/10/16/AR2008101603436.html?nav=hcmodule

Teriam ganho mais credibilidade se o tivessem endossado antes. Fazendo-o agora, parecem apenas surfar na atual onda de popularidade de Obama, tratando-se de apoio de "conveniência".

Em nota correlata, o filho de um dos conservadores mais importantes intelectuais conservadores dos EUA (eu sei: contradição em termos), fez o mesmo na sexta-feira passada:

Sorry, Dad, I'm Voting for Obama
by Christopher Buckley, October 10, 2008
http://www.thedailybeast.com/blogs-and-stories/2008-10-10/the-conservative-case-for-obama/

Resumo da história: foi "saído" da National Review, uma das publicações mais influentes entre os conservadores americanos -- e fundada por seu pai, William F. Buckley.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Dados presos

Folha de hoje:

Desde 31 de maio de 2006, quando o ex-policial militar Antonio Ferreira Pinto assumiu a Administração Penitenciária, o governo não revela a população carcerária. Para isso, é preciso recorrer ao Depen.
Todas as informações sobre as unidades prisionais, como o número de vagas e a população de cada prisão, saíram do site da Administração Penitenciária por ordem de Ferreira Pinto. Por meio de sua assessoria, ele informa que a divulgação dos dados públicos é uma "questão de segurança"; por isso, se recusa a apresentá-los.

Como, além de São Paulo, também já morei no Texas --que é ainda mais neurótico por segurança--, resolvi dar uma olhadinha no que eles dispõem por lá:

1) Lema, constante no relatório anual de 2007 (relatórios disponíveis: 1999-2007): "Sucess through supervision" (sucesso por meio de supervisão)

1x0 Texas

2) Relatório estatístico anual 2007:

a) Total da população carcerária: por tipo (prisão, cadeia etc.), mês, idade, sexo, raça, tipo de ofensa, tamanho da sentença, condado onde foi preso
b) Novos detentos (que entraram em 2007): mesmas divisões que população total
b) Solturas por tipo (condicional, semi-liberdade, liberdade)

2x0 Texas

3) Informações sobre cada unidade prisional (exemplo: Austin, onde morei):
-- endereço (incluindo "como chegar") e telefone
-- nome do diretor da unidade
-- nome do diretor regional
-- data da entrada em operação
-- número total de empregados
-- número de empregados cuidando da segurança
-- número de empregados fora segurança
-- número de empregados do setor de educação
-- número de empregados do setor de saúde (médicos e psiquiatras)
-- sexo dos detentos (se prisão masculina ou feminina)
-- capacidade máxima (não tem o número de detentos no momento)
-- nível de periculosidade dos detentos
-- área aproximada
-- atividades de agricultura
-- atividades manufatureiras
-- capacidade médica (atendimento ambulatorial, dentário, mental etc.)
-- programas especiais
-- programas educacionais (alfabetização, intervenção cognitiva, computação, profissionalização etc.)
-- programas e serviços adicionais
-- serviços comunitários
-- iniciativas voluntárias

3x0 Texas

O governo federal americano (Bureau of Justice Statistics), então, tem informações a rodo, incluindo longas séries históricas.

É impressão minha, ou o Texas (os EUA, de maneira geral) divulga com a maior tranqüilidade informações que seriam impensáveis aqui em São Paulo?!

Do ponto de vista da "segurança", eu me sentiria muito mais seguro sabendo que o governo de fato tem essas informações (que isso não fugiu a seu controle), que elas são supervisionadas por agências do governo (incluindo de outras esferas), por organizações da sociedade civil e pela imprensa, e que esse dado esteja disponível para a população em geral, por questão de transparência.

Steal this post




Desde que saí da dependência da bolsa de estudos e passei a ter uma renda fixa mensal acima do meu nível de subsistência, também passei a comprar o que antes obtinha via free riding (copiar de graça o que os outros compravam por mim). Antes, eu, como todos os outros na mesma condição, tentávamos racionalizar nossos atos (tentando minimizar o sentimento de culpa), dizendo que não compra por princípio, porque os estúdios exploram os artistas, que os artistas recebem muito pouco por CD vendido (verdade, mas pouco é melhor do que zero), que os preços são um absurdo etc. -- e, dissonância cognitiva em ação, acreditávamos na nossa própria história, com plena convicção. Mesma coisa com software de computador, com jogos de console etc.

Muitos que apóiam o movimento software livre dizem que é pelo princípio, que o que menos importa é que é ou tende a ser gratuito, mas se colocarmos um Open Office e um Microsoft Office 2007 à venda pelo mesmo preço, acho difícil que a escolha ainda recaia no OO por princípio... Não quer dizer que não haja mérito nesse movimento (eu mesmo apóio), mas que, para muitos, preço é a questão mais sensível, sim!

Mas começo a me distanciar do assunto da tira do xkcd.

O fato é que, mesmo tirando aqueles estudantes que pirateiam e continuarão pirateando no matter what ("por princípio"), os atuais sistemas de proteção de direitos intelectuais (DRM) são uma verdadeira dor-de-cabeça para os legítimos compradores. Em casa tenho alguns DVDs comprados e outros que ganhei de presente, com capa xerocada (colorida) da original -- todos recebendo iluminação indireta. Depois de anos, as capas originais estão todas desbotadas, longe das cores originais, enquanto as xerocadas estão como nos dia em que as recebi. Mais: ao colocar um DVD original no meu player, tenho que ficar uns 30 segundos lendo na tela avisos sobre cópias ilegais, outras informações diversas e, no caso de alguns filmes, traillers obrigatórios que eu não consigo pular com meu controle remoto. A solução? Eu tirar uma cópia do meu próprio DVD original, para retirar esse conteúdo indesejado. Não sei como é isso no Brasil, mas nos EUA, por mais que juízes possam declarar fair use, em princípio está se violando o DMCA, pois para se fazer a cópia foi preciso quebrar a criptografia do DVD. Não importa se a cópia foi para consumo próprio. Outro problema: as músicas que eu baixei (legalmente, compradas) do iTunes, como bem mostra a tira acima, não consigo fazer tocar nos meus outros players que não sejam da Apple, pois não têm suporte ao formato (un)FairPlay (AAC-DRM).

Enfim: em nome do "jogo limpo", a indústria de filmes, música e entretenimento em geral está não apenas atiçando os contumazes piratas a desafiar as novas técnicas de proteção, como estão irritando muitos dos usuários legítimos. É um tiro no pé, mas eles parecem não perceber...

Eu parei de dar dinheiro para o mercado de pirataria há alguns anos, desde que percebi que o dinheiro que vai para aquela barraquinha da Santa Ifigênia vai parar nas mesmas mãos daqueles que estão envolvidos com tráfico de drogas, com corrupção de funcionários públicos (nas barreiras alfandegárias), e com o crime organizado de maneira geral. Enfim, eu ajudava a financiar a criminalidade que queria combater.

Ainda assim, há diversas outras formas de obter conteúdo intelectual que não envolva nem financiar o crime nem se sujeitar aos inconvenientes do DRM. Não é a situação ideal, mas é o que estamos sendo forçados a considerar.