segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Trânsito insustentável
A construção de mais linhas de metrô, promessa dos principais candidatos a prefeito, está longe de ser considerada suficiente para contornar a piora do trânsito. Primeiro pela demora das obras. Segundo, pois não haverá metrô na porta da casa de todo mundo. Terceiro porque não é suficiente para levar a maioria a deixar o carro na garagem, dizem analistas.
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São Paulo, segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Trânsito precisaria de uma Paulista nova por semana
Especialistas dizem que medidas duras de restrição ao automóvel são inevitáveis
Nem Rodoanel nem expansão do metrô seriam capazes de conter cerco ao uso de carros na capital paulista, avaliam técnicos
ALENCAR IZIDORO
RICARDO SANGIOVANNI
DA REPORTAGEM LOCAL
Será uma conseqüência inevitável às medidas de restrição ao uso do automóvel que a prefeitura deverá adotar nos próximos quatro anos, independentemente do partido político que estiver no comando, conforme apostam especialistas.
Alguns avaliam que a impopularidade de ações prejudiciais ao transporte individual deve ser no curto prazo até inferior ao desgaste motivado pela deterioração do trânsito.
O cenário foi traçado por técnicos entrevistados pela Folha para falar de tendências diante do crescimento da frota da capital paulista, que, no saldo deste ano, já recebe mais de 1.300 veículos diariamente.
Para amortizar os impactos seria necessário construir uma avenida como a Paulista por semana na cidade —medida obviamente inviável.
A maioria dos técnicos considera que não há Rodoanel, limitação ao transporte de carga, expansão da rede do metrô ou modernização de semáforos capaz de reverter a tendência de restrição ao carro, ainda que possa postergá-la.
[...]
[Leia mais] (só para assinantes UOL ou Folha)
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Portabilidade numérica
Acho que, junto com a idéia de poder escolher o número da operadora no momento da discagem de DDD e DDI, é um dos melhores mecanismos que existe de competição na telefonia -- entre as operadoras existentes, diga-se de passagem. Com as fusões que já aconteceram e as que ameaçam acontecer, o número de competidores vem diminuindo...
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PLANTÃO INFO / 07/2008 / tecnologia
Anatel defende portabilidade numérica
Reuters | Terça-feira, 22 de julho de 2008 - 12h23
SÃO PAULO - A Anatel garante que até 10 de março de 2009 todos os brasileiros poderão usufruir do recurso de mudar de operadora, fixa ou móvel, e levar consigo o número de sua linha.
A agência rebate, uma a uma, todas as críticas ou possíveis dificuldades que o processo possa enfrentar e até despreza pesquisas sobre o sucesso da medida. Para a autarquia, o importante é garantir que o consumidor tenha esse direito.
O trabalho de implantar a portabilidade numérica no país, a partir de 1º de setembro deste ano, está sob a coordenação de Luis Antonio Vale Moura, coordenador do Grupo de Implementação da Portabilidade (GIP) da agência.
[Leia mais]
Vinte milhões por cento!!!
Incrível com Mugabe consegue se manter no poder, e o país ainda não entrou em convulsão social... (ou entrou faz tempo, e ele não deixa divulgar)
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São Paulo, quarta-feira, 20 de agosto de 2008
HIPERINFLAÇÃO
Alta dos preços no Zimbábue supera os 11.000.000% ao ano
DA FOLHA ONLINE
A hiperinflação do Zimbábue alcançou em junho o recorde anual de 11.200.000%, segundo dados oficiais citados pelo jornal ligado ao governo "Herald". A inflação oficial em maio foi de 2.200.000%, número que muitos analistas consideraram subestimado.O ministro das Finanças do país, Samuel Mumbengegwi, confirmou o dado, segundo a rede americana de TV CNN, mas disse que a alta da inflação não é algo que ocorre só no Zimbábue.
"Embora nosso caso tenha se agravado pelas sanções ilegais impostas pelas potências ocidentais, a alta dos preços dos alimentos é um fenômeno mundial devido ao uso de biocombustíveis", afirmou. "Mas continuamos a lutar contra a inflação, tentando garantir que os preços cobrados sejam realistas."
Segundo analistas, os dados divulgados pelo governo sobre inflação são moderados. Na semana passada, o Kingdom Bank -um dos principais bancos do país- informou que a taxa de inflação atual no país está em mais de 20.000.000%.
A crise econômica vem acompanhada de uma paralisação política desde a controversa reeleição no fim de junho do ditador Robert Mugabe, depois de uma campanha marcada pela violência contra os opositores.
No início deste mês, as autoridades do Zimbábue decidiram proibir por um ano a exportação de determinados produtos da cesta básica, na esperança de acabar com a escassez crônica.
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2008200826.htm
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
propostas de governo
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São Paulo, sábado, 16 de agosto de 2008
Eleições 2008 / DNA Paulistano
Só metrô pode aliviar o trânsito na região, afirmam candidatos
Alckmin e Kassab querem manter projeto de expansão; Marta promete mudar traçado
0O metrô, responsabilidade do governo do Estado, liga os principais candidatos à Prefeitura de São Paulo quando o assunto é o trânsito na zona sul. Pela segunda semana, a Folha publica respostas para questões específicas sobre regiões da cidade, formuladas a partir de problemas identificados pela própria população na pesquisa "DNA Paulistano". É o maior levantamento já feito pelo Datafolha sobre São Paulo e seus habitantes, com 28.389 pessoas entrevistadas. Na região sul, foram ouvidas 2.447 pessoas.
Alckmin (PSDB) e Kassab (DEM) vão continuar com o atual projeto de expansão do metrô, que interligará a linha 5 à linha 2. Marta (PT) promete mudança no traçado previsto, já que a estação Cachoeirinha-Conceição, passando pela av. Faria Lima e pelo aeroporto, não está no atual projeto.
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1608200806.htm
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São Paulo, sábado, 16 de agosto de 2008
Como reduzir o trânsito causado pelo crescimento imobiliário e do comércio?
Marta Suplicy (PT)
Construiremos a linha de metrô Cachoeirinha-Conceição, que passará pela av. Faria Lima e pelo aeroporto; investiremos na expansão da linha 5, levando-a do largo 13 até a Chácara Klabin, e faremos corredores de ônibus. Vamos rever a lei de ocupação da cidade.
Geraldo Alckmin (PSDB)
Vamos prolongar a av. Roberto Marinho até a Imigrantes e fazer a ligação com a av. do Estado. Faremos melhorias na av. dos Bandeirantes. Ampliaremos a linha 5, interligando-a à linha 2. Vamos arrumar calçadas e aumentar freqüência e qualidade dos ônibus.
Gilberto Kassab (DEM)
Na próxima gestão vou investir, no mínimo, mais R$ 1 bilhão no metrô. Já destinamos R$ 200 milhões para as futuras estações Campo Belo e Adolfo Pinheiro. O trânsito vai melhorar quando a linha 5 chegar à Santa Cruz, ligando a zona sul às demais linhas.
Paulo Maluf (PP)
O grande problema do trânsito da zona sul advém dos congestionamentos das marginais dos rios Pinheiros e Tietê. Daí a minha intenção de construir seis faixas de trânsito a mais, em cada lado das duas marginais, com a cobertura parcial do leito dos rios.
Soninha (PPS)
Terminar/melhorar a conexão dos corredores aos terminais de ônibus; melhorar a operação dos corredores; criar linhas de transporte interbairros (inclusive de barcas); incentivar a atividade econômica na região, reduzindo a distância entre casa e trabalho.
Ivan Valente (PSOL)
O comércio cresceu sem que houvesse um planejamento. Com o colapso do trânsito, é preciso investir em transporte público de massas sobre trilhos e ampliar os corredores de ônibus, em alguns casos, duplicando a pista. Além de investir no sistema cicloviário.
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1608200806.htm
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Os candidatos main stream continuam colocando ênfase no metrô como a principal solução. Não é.
Claro, todos gostam de metrô: é rápido, limpo e seguro, e fica predominantemente debaixo da terra, ou seja, não agride a paisagem e os carros não precisam dar preferência para os trens (já com o ônibus, os carros disputam espaço viário). Só tem dois "probleminha": (1) é muito caro! (2) sua construção é demoradíssima!
Sobre o item 2, a resposta comum é: alguma hora teremos que começar. Mas se há restrição orçamentária (da última vez que chequei, há), e há opções com custo-efetividade muitíssimo maior (custo por quilômetro, passageiros por quilômetro, passageiros por hora etc.), pergunto: por que então não dar preferência orçamentária para outras opções?
Para quem visitou Bogotá, ou ao menos foi na ótima mostra fotográfica que ficou em cartaz no SESC Vila Mariana até começo deste mês, deve ter conhecido o sistema TransMilenio. Inspirado no sistema de Curitiba, acabou servindo de inspiração para outras cidades latino-americanas (que eu conheça, Santiago do Chile, onde sua implementação foi um desastre --não por demérito da idéia, mas de sua implementação, mesmo--, e Quito, no Equador).
O sistema colombiano custou pouco menos de US$ 6 milhões por quilômetro, para atender 1 milhão de passageiros por dia. Se tivessem optado pelo metrô, cada quilômetro teria custado dez vezes mais (só a capa desse relatório já é um show à parte...). Vale lembrar a ótima entrevista de Paulo Sergio Custodio na Folha. Segue trecho interessante para esta discussão:
METRÔ
A nova linha 4 do metrô de São Paulo só vai ter 400 mil passageiros "novos" por dia. Os demais 500 mil são gente que já usa o metrô. São feitas 30 milhões de viagens diárias em São Paulo. Ou seja, o metrô custa uma fortuna para levar um grupo minúsculo. Mas veja o poder das empresas e a fortuna que move o metrô, veja a Alstom, então fica difícil competir com os corredores de ônibus.
Justiça fiscal
[...] se a proposta "é fazer justiça fiscal", ela deve ser feita "por meio do gasto e não por meio da receita"
É tão difícil assim entender esse conceito?! Comentários meus no final do artigo.
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São Paulo, domingo, 17 de agosto de 2008
Para especialistas, país deveria ampliar a tributação sobre a renda e o patrimônio
DA REPORTAGEM LOCAL
Apenas aumentar o número de alíquotas do Imposto de Renda não resultará em maior progressividade na tributação das pessoas físicas, conforme sugeriu a nova secretária da Receita, Lina Maria Vieira.Para especialistas no assunto, mais do que criar novas alíquotas para o imposto, o Brasil precisa mudar o foco da tributação, hoje excessiva sobre o consumo e reduzida sobre a renda e o patrimônio. Seguindo uma tendência quase absoluta no mundo, seria preciso fazer exatamente o contrário, entendem os especialistas.
Para Everardo Maciel, ex-secretário da Receita Federal no governo FHC, "não é preciso mexer no que está aí [as duas alíquotas]. A proposta é ultrapassada. É ridículo propor mais alíquotas e improvável que isso venha a prosperar".
"Aumentar o número de alíquotas é uma decisão retrógrada. A União Européia, por exemplo, estuda a possibilidade de criar alíquota única", afirma a advogada Elisabeth Libertuci, do escritório Libertuci Advogados Associados.
O advogado Gilberto Luiz do Amaral, presidente do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), também defende a maior tributação sobre o patrimônio e a renda -no caso, renda definida como a sobra do rendimento destinada ao acréscimo patrimonial. "É típico de países pobres tributar o consumo e não a renda e o patrimônio. O Brasil precisa mudar esse foco."
Para o advogado Fernando Aurelio Zilveti, doutor em direito pela USP e professor da Escola de Administração da FGV, já é tempo de o país implementar a tributação mais efetiva sobre a renda, seguindo os moldes internacionais. "Aumentar excessivamente a progressividade ou o número de alíquotas do IR seria um atentado à eficiência fiscal."
Simplificar mais
Segundo Everardo, nenhum país criou mais alíquotas ou elevou a progressividade do IR de 1970 para cá, pois "a tendência mundial é simplificar cada vez mais". Além disso, se a proposta "é fazer justiça fiscal", ela deve ser feita "por meio do gasto e não por meio da receita".
Libertuci ressalta um aspecto negativo com a criação de alíquotas maiores -no caso de elas serem propostas pela Receita. "Haverá maior evasão, mesmo com o vasto arsenal anti-sonegação à disposição da Receita. O brasileiro é muito criativo. Alíquotas maiores são um risco desnecessário."
Ela diz que comparar as alíquotas nominais brasileiras com a de outros países, como argumento para criar alíquotas muito altas, gera distorção. "O que vale são as alíquotas efetivas, já consideradas as deduções permitidas."
Segundo a advogada, embora tenha alíquota nominal maior do que a brasileira, os EUA praticam alíquota efetiva em torno de 20%. "No Brasil, quem ganha R$ 8.000 por mês já tem alíquota efetiva de 20%; com R$ 10 mil, de 22%."
Amaral diz que um estudo do IBPT mostra que, no Brasil, a tributação é dividida em 65% sobre o consumo, 3,5% sobre o patrimônio e 31,5% sobre a renda. "O Brasil é um dos países que mais concentram a tributação sobre o consumo. Nos EUA e na Europa ocorre exatamente o oposto." (ver quadro acima).
Para o advogado, novas alíquotas poderiam ser criadas, desde que fossem observados dois detalhes: teriam de ser menores e maiores do que as atuais (o ideal seriam sete, entre 5% e 35%, com intervalos de cinco pontos) e que, ao mesmo tempo, fosse permitido abater parcela maior com educação -o limite para este ano foi de R$ 2.480,66 por pessoa-, os gastos com material e transporte escolar, com remédios de uso contínuo, as despesas com aluguel e os juros do SFH. (MC)
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1708200820.htm
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O conceito de redistribuição de renda depende do que você paga e do que você recebe de volta. É essa diferença que diz se você deu renda para os outros, ou recebeu renda dos outros. Por que não fazer justiça social (ou fiscal) pela receita, então? (1) Aumenta complexidade do sistema (o custo de se pagar impostos, sem contar os impostos em si); (2) Aumentam as oportunidades de sonegação; (3) Distrai do que deveria ser o principal foco da população e da mídia: os gastos públicos, onde é gasto, para quê e para quem, sua eficiência/efetividade etc.
Eu, particularmente, prefiro que a tributação seja feita pelo consumo, por um motivo bastante simples: é mais fácil e mais barato fiscalizar 1 milhão de empresas do que 100 milhões de trabalhadores. Posso estar redondamente enganado (não estudei muito a fundo o tema), mas me parece bom senso.
Aliás, dá para tributar a renda mais fortemente seguindo a mesma lógica, se acabarmos com todas as alíquotas e faixa de isenção. Exemplo: tributa-se X% do faturamento de todas as empresas, direto na conta bancária delas, como uma CPMF (na receita em vez de no desembolso). É como se tributássemos a folha de pagamento, mas sem precisar que a empresa fique calculando as várias alíquotas, imposto disso, imposto daquilo, este está isento etc. E, melhor: se a empresa contrata algumas pessoas como PJ, muito comum hoje, não será mais vantagem tributária nenhuma (o que as pressionará para registrar todos os funcionários em carteira, já que não há mais diferença do ponto de vista tributário).
Mas tem um grande problema: como fazer isso num país em que a maior parte dos trabalhadores não são registrados formalmente em carteira? Talvez por isso tenhamos optado por concentrar a maior parte da tributação no consumo. Novamente: mais fácil e mais barato fiscalizar 500 mil negócios informais do que 50 milhões de trabalhadores informais. É por praticidade, mais do que por princípio.
O princípio, aliás, é o mesmo em qualquer um dos sistemas: um dos papéis fundamentais do Estado é o distributivo. E, regem os princípios morais e políticos mais elementares, essa distribuição deveria ser feita em benefício daqueles que menos têm. Aqui não há distinção ideológica: até o mais liberal dos "neoliberais" defende que os gastos do governo sejam "pró-pobres" -- é o segundo item do Consenso de Washington, diga-se de passagem, logo abaixo de disciplina fiscal (que até os "neobolcheviques" seguem).
Ensaios sobre a normalidade - O contraponto
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São Paulo, domingo, 20 de julho de 2008
"Não há indústria do mal"
Para chefe do departamento de psiquiatria da USP, drogas interferem só no temperamento, e não no caráter
DA REDAÇÃO
O conflito de interesses quanto ao conceito de sanidade mental não se restringe à relação de alguns médicos com a indústria farmacêutica.
Para Valentim Gentil Filho, chefe do departamento de psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, esse é apenas o viés mais comentado do problema.
"O assunto é complexo, eticamente importante e sujeito a um monte de vieses. Há muitos conflitos de interesse; além da indústria farmacêutica, há os interesses políticos, ideológicos, financeiros, de ONGs, de linhas de psicoterapia. Isso em geral não é dito", afirma o professor.
Para Gentil Filho, quando um psicoterapeuta critica o uso de medicamentos, é preciso notar que "também há uma briga de mercado corporativa entre profissionais de saúde". (EGN)
FOLHA - Como avalia as críticas ao DSM ("Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais"), segundo as quais ele tem má influência sobre os médicos do mundo inteiro, incluindo novos distúrbios para comportamentos comuns?
VALENTIM GENTIL FILHO - O DSM é só uma classificação estatística, serve apenas para dimensionar os problemas que aparecem. É para fins quantitativos, e deve ser usado para catalogar; não é um livro-texto.
Infelizmente, em muitos países, inclusive no Brasil, às vezes há confusão, as pessoas o utilizam como manual de ensino.
O DSM evolui com os conhecimentos, com novas definições. O DSM 4 é um avanço em relação ao DSM 3. O mau uso do DSM 3 pode ter gerado distorções -talvez isso seja corrigido na nova versão que está sendo desenvolvida.
O comentário de que o DSM 3 e o DSM 4 levaram à ampliação do diagnóstico psiquiátrico e que isso levou a um exagero de prescrição de medicamentos é uma afirmação freqüente, mas difícil de debater ou comprovar.
Pois, nos últimos 28 anos (o DSM 3 é de 1980), houve disseminação de informações por meios eletrônicos, além da ampliação do conhecimento sobre disponibilidade de recursos terapêuticos, o que contribuiu para um aumento da demanda -as pessoas que sofrem querem ajuda.
E os profissionais de saúde tendem a tentar atender essa demanda.
FOLHA - Em "Timidez", Christopher Lane afirma que a elaboração do DSM foi influenciada pela indústria farmacêutica, legitimando uma "cultura da droga". Há essa cultura no meio da saúde mental hoje em dia?
GENTIL FILHO - Há uma cultura da droga na sociedade em geral. As pessoas abusam de substâncias desde o tempo do Noé. A indústria farmacêutica não é uma entidade filantrópica nem universitária -vai atrás de seus potenciais usuários.
O difícil é pensar que a medicina é enganada pela indústria farmacêutica, que somos influenciados só por um vendedor ou um congresso. A sociedade procura ajuda; isso sempre existiu, buscou-se a cura nas religiões, em outros procedimentos. Mas quantas pessoas estão sendo medicadas indevidamente por causa da propaganda, quanta psicoterapia é prescrita indevidamente... Isso é muito difícil de saber.
FOLHA - Que exageros já encontrou?
GENTIL FILHO - Lembro do caso do transtorno de pânico. Alguns diziam que estávamos simplesmente rediagnosticando uma coisa já descrita em 1895 por Freud, sempre abordada como um problema comum de ansiedade e angústia, que a abordagem deveria ser mais relativa à filosofia ou à psicoterapia.
Hoje o transtorno de pânico tem um diagnóstico robusto, uma base bem demonstrada.
FOLHA - E quanto à timidez?
GENTIL FILHO - Há traços de personalidade que existem há séculos e podem ser influenciáveis por medicação. Se não fosse assim, as pessoas tímidas não beberiam antes de entrar em cena em festivais de MPB, por exemplo.
É possível usar medicamentos para interferir na resposta temperamental. O temperamento depende de regulagem biológica, também. O caráter é muito influenciado pela cultura, mas o temperamento é biologicamente modelado. O fato de haver medicamentos capazes de diminuir a reação não quer dizer que todos devam ser medicados.
Mas, se uma pessoa tem uma timidez patológica, que método deve ser usado? Ou as pessoas devem se autoflagelar antes da ajuda médica?
Se uma pessoa tem timidez patológica, será que deixar de atender a demanda não é omissão de socorro?
FOLHA - Há estatísticas para classificar a timidez?
GENTIL FILHO - Timidez não é diagnóstico psiquiátrico. O fato de haver um medicamento ou método psicoterápico que ajuda a resolver a timidez não a transforma em síndrome.
Se ela o será um dia, isso dependerá de convenções. Há uma cultura numa das ilhas do Pacífico em que as pessoas não tratam uma certa doença de pele, porque acham que fica bonito.
FOLHA - Então, para o sr., a pessoa pode usar drogas para ter uma qualidade de vida melhor...
GENTIL FILHO - O que me incomoda é dizerem que a indústria farmacêutica é uma "indústria do mal". Existem recursos para lidar com problemas -álcool, tabaco, chocolate etc.
Como médico, é preciso ter alguma base científica. Os médicos tendem a ser éticos e dizer: "Vale a pena fazer tal mudança de vida" ou "vale a pena tomar medicamento". Esses autores que lutam contra o demônio da indústria farmacêutica não são donos da verdade.
GENTIL FILHO - Está errada a colocação. Medicamento não faz ninguém feliz. Diminuir o sofrimento não é trazer felicidade. A felicidade aparece e desaparece de acordo com circunstâncias, é medida em momentos; há felicidade em meio à dor.
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2007200805.htm
Ensaios sobre a normalidade - Timidez
Que vergonha...
CLINICALIZAÇÃO DE SENTIMENTOS COMO A TIMIDEZ BENEFICIA APENAS A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA, DIZ CHRISTOPHER LANE EM LIVRO LANÇADO NOS EUA; PARA ELE, CONSUMISMO E DESCRENÇA TAMBÉM CORREM O RISCO DE SEREM VISTOS COMO DOENÇAS
DA REDAÇÃO
Pensar antes de falar tornou-se coisa do século 19. A pressão por agilidade que a competitividade capitalista imprime sobre o homem no trabalho -e, por conseqüência, em todas as esferas de sua vida social- gerou novos conceitos de normalidade, sob os quais a timidez e a introspecção não têm lugar.
Para a psiquiatria contemporânea, trata-se de transtornos mentais.
Isso é o que defende o professor de literatura na Universidade Northwestern (EUA) Christopher Lane. Para ele o abandono da teoria freudiana, em meados do século 20, e o desenvolvimento do mercado de antidepressivos fizeram comportamentos até então vistos como comuns serem tratados como transtornos.
Acostumamo-nos à idéia de que ninguém é normal, mas que medicamentos podem nos levar à sanidade.
Lane, que estudou comparativamente a psicologia contida na literatura vitoriana e a ciência contemporânea em livros como "Hatred and Civility" (Ódio e Civilidade) e "The Burdens of Intimacy" (Fardos da Intimidade), concentrou-se na evolução mais recente da classificação das doenças mentais para escrever seu novo livro, "Shyness" (Timidez, Yale University Press, 272 págs., US$ 27,50, R$ 45).
Ele analisa o desenvolvimento do DSM, sigla para "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais", classificação norte-americana usada como referência internacional para as ciências médicas. Lá, timidez é o "transtorno de ansiedade". Publicado desde 1952, o DSM já teve quatro versões, com cada vez mais categorias.
Para Lane, a versão de número cinco deve conter doenças novas, como "consumismo excessivo", o que representa um risco em sociedades marcadas pela automedicação e, segundo ele, pelo pacto entre cientistas e indústria farmacêutica.
"Nos últimos anos, pesquisadores chegaram a se recusar a publicar pesquisas porque tinham resultados negativos para a indústria. É um sério conflito de interesses." (EGN)
FOLHA - Como define a timidez?
CHRISTOPHER LANE - Eu a definiria como uma forma de consciência de si, às vezes excessiva, que pode resultar em hesitação, atitude estranha e embaraço. É um traço psicológico bem difundido, existindo em cerca de 50% da população. Não é um transtorno psiquiátrico.
A timidez tende a variar enormemente de acordo com o temperamento, a idade e a situação -pessoas gregárias podem ficar tímidas no primeiro encontro com estranhos, e crianças e adolescentes podem se tornar tímidas em idades de mais autoconsciência.
FOLHA - Resumindo a tese de seu livro: os psiquiatras abandonaram Freud e tomaram nada mais que o DSM em seu lugar para explicar as doenças mentais?
LANE - É algo nesse sentido.
Tento contar um pouco a história da ansiedade e como pensamos nela.
Até 1980, o DSM usava linguagem psicanalítica sobre ansiedade. Usava-se a expressão "neurose de ansiedade". Os americanos estavam insatisfeitos com o uso da linguagem psicanalítica, apesar de ela continuar em uso na Europa e em países como Brasil e Argentina.
Houve nos EUA um guinada em direção à biomedicina e à neuropsiquiatria, portanto tentou-se definir ansiedade em termos puramente biológicos.
É claro que há componentes biológicos: palpitação, suor nas mãos, falta de ar. Descrevo a saída da abordagem psicológica em favor da biomédica, o que levou à conseqüência de que a solução passou a ser o remédio, ao invés de alguma mudança de consciência ou percepção.
Hoje temos muitas indicações sobre os efeitos colaterais e os problemas quando alguém tenta diminuir a dose, como mudanças súbitas de humor ou pensamento suicida.
Quando Peter Kramer escreveu "Ouvindo o Prozac" [ed. Record], ele pensava nas transformações na sociedade de uma maneira totalmente benigna -escreveu antes de muitas descobertas negativas sobre essa droga.
Hoje, escritores e cineastas são mais conscientes dos riscos das drogas, de que pessoas podem considerar, como parte de suas identidades, tais doenças e as drogas a elas associadas.
FOLHA - Mas na cultura pop persistem piadas ingênuas do tipo "está na hora de tomar seu Prozac"...
LANE - É porque a indústria foi muito eficiente em limitar a publicidade dos efeitos colaterais dessas drogas. Como são elas que bancam a maioria das pesquisas, são brilhantes em ocultar resultados.
As pessoas acham que vão resolver com drogas problemas que, em 80% dos casos, o placebo resolve com a mesma eficácia. E as drogas têm efeitos colaterais.
FOLHA - Essa atitude do consumidor reflete a mudança cultural que recomenda a postura agressiva do mundo dos negócios?
LANE - É a pressão para ser extrovertido. Há menos ênfase em introspecção, reflexão, escutar e absorver informações.
Como resultado, a idéia de "normal" mudou muito e se estreitou demais. O ideal de extroversão torna-se uma exigência. E quem não é extrovertido se sente estranho, carente de alguma cura. A indústria deveria aliviar o sofrimento, mas gera um novo sofrer.
FOLHA - O sr. conta a história de sua mãe, que, quando criança, imitava um cavalo quando alguém lhe dirigia a palavra. E escreve que seus avós, como muitos pais fariam, esperaram "pacientemente" que ela aprendesse a se relacionar. Vivemos uma cultura da impaciência?
LANE - Sim. Nossa expectativa sobre outras pessoas e sobre o que a vida oferece se apressou, Há pressão para competir e produzir, e isso tem alto custo em instabilidade para as pessoas. Por isso, não digo que a ansiedade seja um mito.
FOLHA - A depressão recebeu por parte da indústria o mesmo tratamento que a ansiedade?
LANE - A depressão tem uma história mais longa, mas recebeu um tratamento semelhante, pois a psicologia ficou de lado em favor da questão de quantidade de substâncias no organismo.
FOLHA - E como a mudança cultural afetou o tratamento dado à depressão?
LANE - Há livros muito bons, como "The Loss of Sadness" [A Perda da Tristeza, de Allan V. Horwitz e Jerome C. Wakefield], que documentam como o DSM simplificou demais a depressão, especialmente o transtorno bipolar. A publicidade transformou "bipolar" em um termo do dia-a-dia.
Os psiquiatras têm uma concepção estreita de normalidade, portanto criam novas doenças, como aquela para quem briga no trânsito, por exemplo [distúrbio de explosão intermitente]. Não digo que seja normal, mas daí a criarem um transtorno específico mostra aquilo que eles aceitam como emoções humanas.
FOLHA - O sr. estudou em "Ódio e Civilidade" o comportamento anti-social. A misantropia virou doença?
LANE - É uma ação política classificá-la como doença. No século 19, os misantropos eram valorizados por serem pessoas críticas da sociedade.
FOLHA - Que está estudando no momento?
LANE - Estudando "passive-aggressive disorder" [transtorno passivo-agressivo].
É interessante notar que a linguagem usada no DSM de 1952 vem do jargão militar, de memorandos da Segunda Guerra. Médicos estavam preocupados porque alguns soldados não seguiam ordens, chamando isso de comportamento passivo-agressivo.
Esses dados foram trabalhados e foi criado o transtorno de personalidade com esse nome.
Em 1980, esse rótulo foi usado para descrever sintomas nestes termos: "Pessoas que têm preguiça, que não querem fazer compras ou lavar a roupa". É uma transformação incrível.
Estou também escrevendo sobre a história da descrença, chamada "Failing Gods" [Deuses que Falham].
FOLHA - A descrença logo vai virar doença?
LANE - Espero que não, é um fenômeno extremamente útil.
Mas há grande chance de que o consumismo ou a descrença logo sejam rotulados como transtornos mentais, o que seria alarmante.
A dúvida é um estado da mente que seria bom reviver.
No século 19, os vitorianos escreviam muito sobre a dúvida: religiosa, científica, social, filosófica, legal. Hoje há a necessidade de revivê-la.
Podemos conceber o fundamentalismo como o pensamento que não admite dúvida, o que é perigoso porque o mundo é cheio de incerteza. Não aceitá-la produz comportamentos extremos, como as pessoas não mais tolerarem umas às outras.
É um problema generalizado -veja, por exemplo, o fundamentalismo cristão nos EUA.
LANE - Não digo que precisam, mas não devem se sentir doentes por a sentirem. As pessoas têm excentricidades, isso é parte da humanidade. As pessoas são mais felizes quando podem se expressar como são. Um psiquiatra que não tolera as diferenças é arrogante.
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2007200803.htm
Ensaios sobre a normalidade - Loucura
De perto, ninguém é normal
EM ENTREVISTA À FOLHA, ADAM PHILLIPS ATACA A GLAMOURIZAÇÃO DA LOUCURA E SUA ASSOCIAÇÃO COM A ARTE E DIZ QUE AS PESSOAS PRECISAM RECONHECER QUE NÃO É POSSÍVEL SER FELIZ O TEMPO TODO
| Sean Ellis/Getty Images |
ERNANE GUIMARÃES NETO
DA REDAÇÃO
Em um mundo onde o verso "de perto, ninguém é normal" é entoado cotidianamente, a busca pela sanidade mental soa como inútil.
Mas o psicanalista britânico Adam Phillips defende essa "ficção que mantém nossas expectativas". O autor de "Louco para Ser Normal" (ed. Zahar, trad. Maria Luiza X. de A. Borges, 160 págs., R$ 34,90), ataca a glamourização da loucura, mas faz uma concessão: a cultura do "muito louco" teve o mérito de quebrar preconceitos contra os alienados, facilitando a discussão pragmática da questão.
Para Phillips, que coordenou a recente edição das obras de Freud pela editora Penguin, o que se deve buscar não é a completa ausência de problemas, mas uma forma de lidar com eles -e isso inclui perceber outras idéias às vezes esquecidas, como a de que não podemos ser felizes o tempo todo.
Leia abaixo trechos da entrevista, concedida à Folha por telefone, do Reino Unido.
FOLHA - O que o levou a escrever "Louco para Ser Normal"?
ADAM PHILLIPS - Eu o escrevi por uma razão simples. Sanidade é um assunto pelo qual a maioria das pessoas não se interessa.
Contudo há um grupo muito interessado nela: as pessoas que foram loucas ou tiveram parentes loucos. Para os demais, sanidade é enfadonha; para esses, é um tema crucial.
Outra coisa que me interessou foi o fato de que, na Inglaterra, o movimento antipsiquiátrico -pessoas como R.D. Laing e David Cooper- esmoreceu muito rapidamente.
Quando estudei, 30, 25 anos atrás, essas pessoas eram interessantes, iluminadoras. Dez anos anos depois, não se falava mais nelas. E achei que tinham coisas interessantes a dizer.
Portanto foi uma combinação, na medida em que a idéia de sanidade ainda pode ser importante, mas o significado da palavra está morrendo.
FOLHA - Loucura está na moda?
PHILLIPS - Não. Foi moda, mas foi má idéia fazer dela uma moda. O problema foi que, para as pessoas levarem a insanidade a sério, ela teve de ser glamourizada. Foi transformada numa aventura.
Atualmente, para a maioria, é o oposto: miséria profunda, beco sem saída, sem nada de engraçado.
As pessoas que a tornaram moda foram responsáveis por duas coisas importantes. Os chamados "loucos" passaram a ser pessoas a ouvirmos, com coisas importantes a dizer -não são apenas gente que assusta. Outra coisa: pessoas que parecem ser normais podem ser mais loucas que os loucos.
FOLHA - Sanidade é um mito?
PHILLIPS - Não um mito, mas uma ficção que mantém nossas expectativas. É uma história ou descrição de estados mentais e modos de ser dos quais podemos ser capazes. É um estado da mente, por exemplo, em que as pessoas não perturbam demasiado umas às outras.
FOLHA - Há uma tradição que trata artistas como "gênios loucos". Isso faz sentido?
PHILLIPS - Houve a idéia romântica segundo a qual, para ser artista, é preciso ser louco -o que não me parece verdade. O que é verdade é que algumas pessoas que foram artistas foram também pessoas perturbadas e, a partir de seus distúrbios, criaram arte.
Assim, uma das razões para a glamourização da loucura é a associação com os artistas -"deve ser uma coisa boa, já que tantos artistas são bons".
Mas muito da loucura não é criativa, e sim anticriativa.
FOLHA - Pessoas sãs podem ser "legais"? Procurar o equilíbrio é o oposto de ser interessante?
PHILLIPS - Busquei, no livro, investigar se há uma versão atraente da sanidade -talvez não haja. Mas é possível que ainda não a tenhamos criado, pois a sanidade não é intrinsecamente sem graça.
Mas também acho que precisamos deixar de lado a idéia de "equilíbrio". Sanidade tem muito mais a ver com a capacidade de conter conflitos do que resolvê-los.
FOLHA - Por que devemos, como o sr. diz no livro, nos concentrar na sanidade, e não na doença? Afinal, a sanidade é "invisível", é mais difícil defini-la...
PHILLIPS - Entendo isso, mas quis mostrar que o problema da sanidade é ser invisível e que é o tipo de coisa dado como certo.
Precisamos descobrir o que acontece quando articulamos nossas idéias de sanidade. Podemos precisar fazer isso para encontrar novas fontes de esperança.
FOLHA - Conhece "Shyness" [Tmidez], de Christopher Lane? Ele diz que a indústria farmacêutica cria drogas para situações que não precisam de cura -como, segundo ele, a timidez. O sr. concorda?
PHILLIPS - Conheço e concordo.
A indústria farmacêutica tem sido um escândalo. Tem explorado as pessoas. Suas soluções são totalmente falsas. As pessoas deveriam ter muito cuidado com a cultura da droga como solução para as dificuldades de estar vivo.
FOLHA - Concorda que o DSM [manual de classificação de doenças mentais americano, referência mundial] abandonou a teoria freudiana em favor da bioquímica?
PHILLIPS - Não o tenho estudado, mas parece que todo o etos cultural tem se movido em direção à tecnologia das drogas em detrimento das curas pela fala ("talking cures").
De muitas formas, isso pode ser algo necessário, para que, com o tempo, a cultura da droga mostre que falhou, de modo a voltarmos à curas pela fala. O que a psicanálise tem a oferecer é a idéia de que não podemos ser curados... Não se trata disso.
FOLHA - De que se trata?
PHILLIPS - De duas coisas: ser capaz de se atrever a encontrar maneiras de conviver e transformar a si próprio. É ser capaz de reconhecer o fato de que -para dizer cruamente- não podemos ser felizes o tempo todo. Qualquer um que esteja completamente desperto sabe que a vida é extremamente difícil. Há uma frase em "Fim de Partida" [ed. Cosac Naify], de Samuel Beckett: "Você está na Terra; não há cura para isso".
FOLHA - E tentamos conversar para aprender o que fazer em seguida?
PHILLIPS - Sim, ou aprender os limites do que podemos fazer.
A psicanálise mostra a você as coisas que não dá para mudar a seu respeito.
FOLHA - Como traçamos os limites do normal? A timidez não é normal, por exemplo?
PHILLIPS - Deveríamos esquecer se as coisas são normais ou não e começar a pensar em quais são seus propósitos. Qual é o propósito da timidez para um indivíduo? Não perguntaríamos se é normal, se precisa ser curada, mas, sim: se tal pessoa é tímida, como ela está lidando com essa característica?
FOLHA - Seria um ponto de vista funcional?
PHILLIPS - Sim. Eu chamaria de visão psicanalítica pragmática.
FOLHA - Sanidade necessariamente se opõe ao hedonismo dos tempos atuais?
PHILLIPS - Como digo no capítulo "São Hoje", muito do hedonismo de hoje é uma forma de desespero, de desilusão.
FOLHA - No fim do livro, o sr. trata do uso de palavras como "tentação" e "força de vontade". O que pensa sobre a publicidade usar palavras como "tentação" com o fim de vender produtos?
PHILLIPS - Não gosto disso. Mas a educação precisa acompanhar o que acontece com a cultura. As pessoas deveriam aprender na escola como ler anúncios.
FOLHA - Tivemos, por exemplo, picolés batizados com os nomes dos pecados capitais.
PHILLIPS - Podemos pensar no que há de maravilhoso na inventividade disso tudo, mas também há a falta de objetivo.
Não precisamos de sete sabores de picolé, por exemplo. Há algo nesse excesso que é uma forma de lidar com um sentimento de empobrecimento que na verdade muitos têm.
FOLHA - Ainda sobre as formas de atender às necessidade psicológicas das pessoas, David Levy, em "Love and Sex with Robots" [Amor e Sexo com Robôs], diz que pessoas com dificuldades de sociabilidade poderão em breve comprar robôs para resolver seus problemas. Esse é um modo correto de procurar a sanidade?
PHILLIPS - É ridículo. Absolutamente não é o que interessa, é mais problema do que solução.
A questão real é: como as pessoas se tornaram alienadas dos únicos recursos verdadeiros de que dispõem, isto é, um ao outro? Sociabilidade é a característica humana fundamental.
FOLHA - Ele diria que os robôs poderão conversar com as pessoas, logo esse problema estaria resolvido.
PHILLIPS - Há uma resposta pragmática para isso: robôs são bons para quem gosta de robôs.
Nada contra gostar de robôs; tenho objeção à idéia de que isso seria uma solução para todo mundo.
FOLHA - Como identificar a tentativa de sanidade que "aprisiona" e diferenciá-la daquela que liberta?
PHILLIPS - A primeira coisa é arriscar. Não podemos saber de antemão qual será. Mas sabemos, sim, se estamos sendo complacentes, quando fazemos algo porque sentimos que deveríamos, ao invés de ser nosso desejo genuíno.
Sanidade, se é que vale alguma coisa, será algo na direção das coisas em que o indivíduo acredita realmente, nas quais está seu coração.
FOLHA - Mas alguém poderia dizer "estou bem com esse sentimento, quero permanecer assim, mesmo que me chamem de psicopata".
PHILLIPS - Algo é bom desde que não prejudique outras pessoas.
PHILLIPS - Certo.
URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2007200802.htm