sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Ninguém me ajuda a ajudar (4)

É a última de hoje sobre o assunto (eu espero).

Rua Bonitos (ela mesma muito feia, aliás). A rua já é estreitíssima, e a calçada deve ter uns 30 centímetros (o que obriga, quando há poste), a dividir a "pista de rolamento" (aka rua, no jargão da CET) com os carros. Não bastasse isso, três carros estacionados, alguns deles bem debaixo de uma placa de "Proibido Estacionar". Um deles era um carro oficial: Tribunal Regional Eleitoral, nº 0001 (será o presidente do TRE de São Paulo?), parado em frente ao número 61.

Ligo para o 156, o SAC da Prefeitura de São Paulo. Depois de ouvir o menu, teclo 7 para "outras" (se tivesse a opção "cancelar", como os outros SAC terão que ter em breve, eu juro que teclava).

"Quero reportar uma infração de trânsito."

"Como assim?"

"Há uma infração, e eu gostaria que vocês tomassem providências"

"Ah. Qual é a infração?"

"Tem vários carros parados numa rua onde é proibido estacionar."

"O senhor gostaria de abrir um protocolo?"

"(NÃO!!! EU GOSTARIA QUE VOCÊS ACIONASSEM UM DOS 48 GUINCHOS QUE A PREFEITURA COMPROU OU DEVERIA TER COMPRADO --DEPOIS DE QUASE QUATRO ANOS DE INTERRUPÇÃO DO SERVIÇO-- PARA REMOVER OS VEÍCULOS DE LÁ!!! O QUE VOCÊS VÃO FAZER, ADMINISTRATIVAMENTE, PARA QUE ESTA DENÚNCIA VIRE AÇÃO, NÃO ME IMPORTA!!!) Sim."

"Nome completo. RG. Endereço. CEP. Telefone. Tipo sanguíneo. Exame de chapa de pulmão. Capital da Nicarágua."

Só depois de muitas informações pessoais fornecidas é que a moça resolve perguntar o que deveria ter sido a primeira informação fornecida: em que rua eles estão estacionados!!! Se a ligação caísse por qualquer motivo, ela saberia a capital da Nicarágua (Manágua, essa era fácil, meu pai tinha um conhecido que era de lá), mas não o local da infração. E, se eu posso fazer uma denúncia anônima no site da Prefeitura, por que não posso fazê-la por telefone?!

Ninguém me ajuda a ajudar (3)

E por falar no Metrô, louvo a iniciativa de seu presidente, que foi à estação Sé, sem se identificar, para ser o Dirigente de Plantão por alguns minutos (artigo da Folha aqui, só para assinantes). Não foi abordado por nenhum passageiro. Isso é bom? A não ser que a pessoa ache que os serviços prestados ou os produtos vendidos por sua empresa são perfeitos, isso é um mal sinal. No caso do Metrô, pode significar que não haja confiança dos usuários nos canais de denúncia e reclamação.

O programa tem seus méritos, mas o problema do Metrô em ouvir seus usuários persiste. Para cada uma das reclamações que já fiz via Internet, havia sempre uma resposta defensiva, justificando porque as coisas eram daquele jeito. Assim fica difícil melhorar.

Outro dia fiz uma reclamação a uma Dirigente de Plantão na estação São Bento. Era sobre um problema de lâmpadas queimadas na estação, que deixava partes da plataforma na total escuridão havia semanas. O mais irônico da história é que duas das lâmpadas queimadas estavam em frente àquela funcionária. Ou seja: ou não havia da parte dos funcionários da estação comprometimento real para com a melhoria do Metrô, ou a eles não são dadas condições de melhorar os problemas que existem.

O Metrô poderia aproveitar melhor seus funcionários onde eles são mais necessários, e facilitar as reclamações e sugestões dos usuários nas estações com uma medida bastante simples: colocar papel e caneta ao lado das inúmeras "caixas de sugestão" que já existem, e que vivem vazias... (por que será? teremos atingido a perfeição?)

Ninguém me ajuda a ajudar (2)

Um bebê vomitou hoje no chão do vagão do Metrô onde eu estava -- por poucos centímetros não respingou em mim!

Saio na estação seguinte (era a minha, mesmo), e corro para a cabine dos funcionários do metrô, para comunicar o fato --eu espero que o pessoal da limpeza do Metrô não espere o trem chegar até a estação final para fazer isso.

Lá, fico esperando um funcionário prestar atenção em mim. Um deles está com um guia de ruas na mão, ensinando alguém como chegar no seu destino. O outro nem se incomoda com minha presença, fica preenchendo algum formulário mais importante do que qualquer coisa que eu tenha para falar (depois eu descubro que não era urgente: depois ele acaba deixando o formulário de lado, não o entrega para ninguém).

Quando eu grito um "oi!" para o preenchedor de formulário, que não me escuta, o "do guia" pergunta para mim o que eu queria. Explico brevemente, e ele chama a atenção do outro, para me atender. Explico. Ele sai correndo para avisar a próxima estação. Talvez seja tarde: o tanto que ele demorou para me atender, o metrô talvez já estivesse partido novamente da outra estação, com o vômito no chão e o cheiro em todo o vagão.

Ninguém me ajuda a ajudar (1)

Outro dia tentei fazer uma denúncia ao Disque-Denúncia. Não queria me identificar pois, apesar do crime ser --comparativamente-- pouco grave, não sabia se os denunciados eram "barra pesada", nem se um denunciado consegue de alguma maneira ter acesso aos dados do denunciante, caso ligasse para o 190. Não ter confiança no órgão que recebe denúncia é fogo...

Além de furto de energia (um dia eu vi a pessoa fazendo as ligações direto do poste), aquele barraco (não estou menosprezando, é realmente um barraco de madeira) vive promovendo "baile funk", quase todo fim de semana, em frente à janela do meu quarto, começando às 23h e terminando quase de manhãzinha. Não é incomum eu ver jovens (com certeza menores de 18) bebendo -- ah, Fabio, todo mundo faz isso! Então tá, desculpa aê, pensei que fosse proibido... E, se não bastasse, os taxistas do ponto perto de casa disseram que aquela viela onde fica o barraco em questão é boca-de-fumo. Não duvido, tem realmente muita movimentação suspeita por lá.

Como se pode ver, minhas informações não são precisas, não tenho descrição física dos criminosos (furto de energia é crime) nem sou testemunha ocular de tráfico de drogas (os taxistas têm, e costumam negar corrida quando o potencial cliente pede para ir para lá e tem cara/comportamento de usuário/comprador). "Baile funk" não é crime, mas som altíssimo, é (só não sei se vale apenas para estabelecimentos comerciais).

Resumo da ópera: a atendente do Disque-Denúncia me fez sentir um típico "branquelo riquinho preconceituoso" que estava simplesmente incomodado com o barulho de uma festinha de gente pobre, e que exagerava o problema para chamar a atenção das autoridades. Para tudo, ela queria informações mais detalhadas. "Não sei o nome da rua, é uma viela, não existe no mapa formalmente"; "não, não sei o número do barraco -- nem deve ter!"; "não, não vi drogas sendo comercializadas, é apenas informação que circula pelo bairro, alguém precisa investigar".

Sim, eu sei, quanto mais informação, melhor! Mas a polícia deveria se contentar com qualquer ajuda que a população se voluntariar a fornecer a ela, e trabalhar com o que tem. Algo é melhor que nada. E, se a população vir a polícia trabalhando, investigando, capturando criminosos, aumentará a confiança daquela nesta, e o número de informações fornecidas pela população tente a aumentar. Foi assim em vários lugares (ler dois ótimos livros da Coleção Polícia e Sociedade da EdUSP, "Nova Polícia: Inovações nas Polícias de Seis Cidades Norte-Americanas" e "Policiamento Comunitário: Questões e Práticas Através do Mundo" -- se quiser, empresto).

Outra coisa que o Disque-Denúncia (ou aquela atendente em particular) peca por não entender: as chamadas "ofensas contra a qualidade de vida", como barulho de motocicletas que ficam rodando pelo bairro por diversão, as festas barulhentas, as pequenas depredações urbanas etc., tudo isso diminui o vínculo afetivo que os moradores têm com a região onde moram, e diminuem a predisposição desses moradores para acionar as autoridades no caso de outras violações (ler o ótimo "Disorder in Urban Neighborhoods: Does It Lead to Crime?"). Cuidar desses crimes ou infrações que parecem "pequenos" faz com que a população coopere para que a polícia resolva os crimes "graúdos".

Mas não. Eles conseguiram me fazer sentir culpado por fazer uma denúncia. Parabéns, Disque-Denúncia: um denunciante a menos!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Mais dinheiro, mesma cultura

Que bom que existem pessoas que conseguem dizer o que eu penso de maneira muito mais bem articulada do que eu. Esta é, talvez, minha sina: writing by proxy...

* * *


São Paulo, quarta-feira, 13 de agosto de 2008


FERNANDO RODRIGUES

"Posso olhar aí, tio?"

BRASÍLIA -
O Brasil, fui informado, virou um país de classe média.
Percebi um pouco a mudança na segunda-feira ao renovar uma credencial de imprensa no Congresso. Entrei na repartição e três funcionários públicos conversavam felizes sobre suas vidas privadas em uma rodinha. Ignoraram-me por alguns instantes. Dois outros "concursados" tagarelavam ao telefone, inclusive o responsável pelo atendimento -este descrevendo a argamassa e o azulejo comprados para reformar "o lavabo".
Todos parecem estar com mais dinheiro no bolso. Mas a eficiência continua a de sempre.
Volto a este espaço depois de um ano fora do país. Percebo uma efervescência na economia. Na Starbucks da alameda Santos, em São Paulo, serviram-me um pedaço de bolo em prato de louça e com um garfo de metal. Nos EUA, seria num saquinho de papel descartável e se comeria com as mãos. Esse deve ser mais um item do custo Brasil.
Nem FHC nem Lula decifraram um enigma crucial: a fórmula para combinar crescimento econômico com aperfeiçoamento dos valores e costumes gerais do brasileiro. Na padaria do bairro, aqui em Brasília, o mesmo guardador de carro de 12 meses atrás continua a recepcionar a todos de maneira idêntica, com a pergunta/ameaça "posso olhar aí, tio?". Ele já é parte da paisagem.
Ninguém se incomoda. O Brasil está em geral mais rico. A classe média foi às compras. Carros são vendidos em 46 prestações. Ótimo. Mas a ineficiência nos serviços públicos está intacta. Médicos são formados sem saber como tratar um paciente com resfriado. As calçadas das principais capitais são imundas. Entra-se num táxi em São Paulo para ir até a avenida Paulista e o chofer despreparado pergunta: "Qual o melhor caminho?".
O Brasil é um país de classe média. Vá lá. Mas tem um caminho longo para vir a ser uma nação desenvolvida.

frodriguesbsb@uol.com.br

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1308200804.htm

Finding Paths Through the World's Photos

University of Washington and Microsoft Research collaborates on (yet another) mindblowing 3D photo viewer. It's the evolution of Photosynth:

Finding Paths Through the World's Photos


Pareceu que falta, ainda, poder de computação gráfica (talvez eles não estivessem usando um quad-core com 8 GB), ou talvez uma banda mais larga de Internet para ler rapidamente as fotos do Flickr, mas os conceitos e potenciais da ferramenta são bastante interessantes.

Depois é só fazerem um mesh-up com o Google Maps, e finalmente eu poderei passear virtualmente pelas várias cidades do mundo... (para planejar melhor minhas viagens, e para fazer um "next best thing" nas várias cidades que certamente não chegarei a conhecer -- seja por tempo ou por dinheiro)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Segurança Pública e pagamento por resultado

Mensagem
O princípio é interessante, tanto o de premiar a delação efetiva (que resulte em apreensão) quanto o de pagar a polícia "por resultado" (dobrando o prêmio nas operações em que não houver violência).

Como garantir que as armas apreendidas não voltem para as ruas? Corre-se o risco de pagar várias vezes pela apreensão das mesmas armas.

Mas no meio do texto o esquema já ficou parecendo coisa da Amway:

A recompensa é paga em cupons -chamados Top Premium- que podem ser trocados por mercadorias ou serviços na rede de estabelecimentos credenciados.
O "bônus" pela operação bem-sucedida sem violência também é fundamental. Lembremos da "premiação faroeste", ou condecoração por bravura, instituída no governo Marcello Alencar: o critério básico de distinção era o números de bandidos mortos em ações policiais.
 
* * *
São Paulo, sábado, 2 de agosto de 2008
 
Apreensão de fuzil rende 2 meses de salário a PM do Rio

Instituído pelo Disque-Denúncia dentro do programa Desarme o Bandido, prêmio vale para fuzil, metralhadora ou submetralhadora

Policial tem direito a R$ 1.000, mas valor pode dobrar; quem ligar para o serviço indicando a localização também recebe R$ 1.000

FÁBIO GRELLET
DA SUCURSAL DO RIO

Um soldado da Policia Militar do Rio ganha por mês salário inicial bruto de R$ 909,49, mas, se apreender um fuzil, uma metralhadora ou uma submetralhadora, pode receber de uma só vez até R$ 2.000 -mais de duas vezes o próprio salário.
O prêmio foi instituído no mês passado pelo serviço Disque-Denúncia como parte do programa Desarme o Bandido. Quem ligar para o serviço indicando a localização de qualquer dessas armas também é recompensado: recebe R$ 1.000, desde que a denúncia resulte na apreensão do equipamento.
O policial que localizar e apreender qualquer dessas armas tem direito a R$ 1.000, independentemente das condições em que a apreensão ocorrer. Mas o prêmio pode dobrar se atendidos três requisitos: a apreensão for conseqüência de um aviso apresentado ao Disque-Denúncia, a operação for divulgada pela imprensa e não houver violência. Em todos os casos, o prêmio depende da confirmação, por meio de perícia, de que a arma esteja em condição de uso.
A recompensa é paga em cupons -chamados Top Premium- que podem ser trocados por mercadorias ou serviços na rede de estabelecimentos credenciados.

Mais apreensões
A premiação multiplicou a apreensão de armas: em julho, primeiro mês da campanha, foram localizadas dez armas. Em todo o primeiro semestre haviam sido 19, média de 3,1 por mês. Em 2007 haviam ocorrido 17 apreensões. Nessa época, o prêmio de R$ 1.000 aos denunciantes já existia, mas a polícia não recebia recompensa nenhuma.
Das dez apreensões de julho, três tiveram origem em denúncias anônimas e outras sete foram localizadas por policiais sem auxílio de ninguém.
"Vamos pagar R$ 16 mil pelo resultado de julho", afirma Zeca Borges, coordenador do Disque-Denúncia. Desse valor -que, segundo Borges, será entregue até 10 de agosto-, R$ 13 mil caberão a policiais e R$ 3.000 a autores de denúncias.
Para entregar os prêmios sem identificar o autor da acusação, como é regra no Disque-Denúncia, serão agendados encontros em lugares de grande movimento, como shoppings e agências bancárias. "Qualquer técnica para identificar a pessoa sem precisar saber seu nome será válida: usar senha, avisar a roupa que a pessoa estará vestindo, coisas assim", diz.

"Caçadores"
Não são apenas armas que rendem recompensas oferecidas pelo Disque-Denúncia. Informações que levem à prisão de Antônio de Souza Ferreira, o Tota, apontado pela polícia como o chefe do tráfico no complexo do Alemão, valem R$ 10 mil. E até um balão pode render de R$ 300 a R$ 1.000. O dinheiro é doado por particulares. O serviço já chegou a oferecer R$ 100 mil pela captura de Fernandinho Beira-Mar, mas ninguém fez jus a esse valor.
"Quando entregamos o prêmio, aconselhamos as pessoas a não virarem caçadoras de recompensas", afirma Borges. "E, como não queremos que alguém substitua o trabalho da polícia, ninguém pode levar a arma diretamente à polícia. É preciso ligar para nós, para que a gente acione os policiais."
No mercado ilegal do Rio um fuzil vale até R$ 30 mil, estima o governo. Mas o coordenador do Disque-Denúncia não teme que alguém prefira comercializar as armas com bandidos. "Não podemos pensar dessa forma. Não vamos negociar com bandidos, mas sim premiar pessoas honestas."

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

El 'dossier' brasileño

Para quem ouviu falar sobre essa reportagem no Bom Dia Brasil de hoje, segue o link para o texto integral:

El 'dossier' brasileño
El computador de 'Raúl Reyes' revela que los vínculos de las Farc con altos funcionarios del gobierno de Brasil, entre ellos cinco ministros, llegaron a niveles escandalosos.
http://www.cambio.com.co/portadacambio/787/ARTICULO-WEB-NOTA_INTERIOR_CAMBIO-4418592.html

Minhas fontes colombianas me informaram que a revista Cambio é tida como respeitável e equilibrada -- em nada parecida com a nossa Veja, portanto.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Indústria da multa?

Saiu no Painel do Leitor da Folha de S.Paulo de hoje:

"Em relação ao recorde de autuações às infrações de trânsito, é importante destacar que, ainda assim, a maioria absoluta das infrações ainda acontece impunemente. Segundo pesquisa noticiada pela Folha em 24/10/2007, "só uma a cada 10 mil infrações cometidas no trânsito de São Paulo é alvo de multa".
Seriam necessários 365 dias para autuar as infrações que os condutores cometem em menos de uma hora: 5,8 milhões. Tolerância zero? Longe disso. Apenas reduzimos nossa tolerância de 99,9% para 99,8%. Só conseguiremos eliminar a "indústria da multa" se conseguirmos eliminar uma indústria muito mais "produtiva" —a das infrações."
FABIO STORINO (São Paulo, SP)

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O individual e o político

Tocqueville revisitado. Passa-se algum tempo e logo se esquece que "individualismo não tem muito a ver com o egoísmo". Outro filósofo francês, Luc Ferry, fez questão de resgatar essa noção quase dois séculos depois.

Secular humanism FTW!

* * *
São Paulo, segunda-feira, 28 de julho de 2008

ENTREVISTA: LUC FERRY

Problemas privados são os problemas políticos de hoje

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

ESCRITOR BEST-SELLER , Luc Ferry defende que os pensadores mais profundos, de Platão a Nietzsche, renunciaram muitas vezes ao jargão em nome de uma filosofia mais acessível, como seria o caso de "Aprender a Viver", seu mais famoso livro. No recém-lançado "Família, Amo Vocês", Ferry tenta simplificar sua teoria de que a política, esfera pública por excelência, tem muito o que aprender com a família, esfera privada. Leia trechos da entrevista feita por e-mail.

FOLHA - Segundo o senso comum, a estrutura familiar é essencial para a lógica do capitalismo e do consumo. Isso mudou com as famílias fragmentadas, monoparentais?
LUC FERRY
- Houve três eras da família. Na Idade Média não se casava por amor, mas para transmissão do nome e patrimônio, "fabricar" crianças e fazer viver a exploração agrícola. De resto, não se casava, se era casado pela família ou pelo vilarejo. É a invenção do assalariado pelo capitalismo incipiente que abala a situação. E vai levar o indivíduo a se emancipar do peso das comunidades tradicionais, por uma razão simples: o mercado de trabalho que logo irá se globalizar força os indivíduos a trabalhar nas grandes cidades. Os indivíduos se livram das formas tradicionais de controle social e adquirem autonomia financeira. A jovem que no campo casa-se à força encontra-se autônoma na cidade. Isso vai levá-la a querer não mais se casar à força, mas por afinidade eletiva. É o nascimento do casamento por amor. É preciso acrescentar que, antes do casamento por amor se tornar a regra, ou quase, como é o caso de hoje, há uma época intermediária, da família burguesa, em que não se divorciava. Mas isso é uma ilusão, porque o divórcio é o avesso do casamento por amor: se você fundamenta o laço familiar no sentimento e não mais na economia, o fundamenta em algo que pode variar. Paradoxalmente, as famílias monoparentais são um resultado do casamento por amor.

FOLHA - Em sua opinião, qual tipo de ligação existe entre as famílias modernas: não são também determinadas pelo individualismo?
FERRY
- O individualismo não tem muito a ver com o egoísmo. O individualismo é ligado à emancipação em relação às tradições comunitárias. Uma mulher que hoje se recusa a se casar à força no Irã tem um comportamento "individualista", não egoísta. E o amor, na esfera privada, tem sido fator de ampliação do pensamento e dos horizontes. Nunca demonstramos tanta preocupação com o outro como nas sociedades modernas. Na Europa, passamos nosso tempo pensando no mal que causamos com a colonização, nos erros cometidos pela globalização em relação aos pobres etc. Isso está ligado à história da família moderna. A humanidade moderna é ligada diretamente à história do casamento por amor. É o amor privado que fez com que o mundo ocidental tivesse simpatia por outras civilizações. Antes, ninguém se interessava por elas senão com o olhar do colonizador. A oposição clássica do privado e do público não reside mais onde pensamos. Como todos temos os mesmos problemas de casamentos fracassados ou bem-sucedidos, divórcio etc., agora o privado não é mais tão privado como pensávamos. A tese do meu livro é a de que os problemas aparentemente privados são os políticos de hoje: a dívida pública ou o choque de civilizações não teriam tanta importância política se a questão por trás não fosse a do mundo que queremos deixar às nossas crianças ou, de modo mais chique, às gerações futuras.

FOLHA - Em que medida a vida privada pode ser um modelo para o Estado e as políticas públicas?
FERRY
- A sacralização da esfera privada como elo principal do sentido da vida como se vê hoje na Europa não representa, como se costuma afirmar de modo blasé, recuo individualista, mas, ao contrário, uma formidável ampliação de horizontes. Diante da valorização da intimidade, o reflexo político mais corrente consiste em declarar, com nostalgia na voz, que, como as instituições "grandiosas" (Deus, pátria, a república etc.) subsistiram por tanto tempo, nós nos conformamos, de modo mais ou menos medíocre, com o que resta: a família com, no máximo, um pouco de senso humanitário e ecológico. Acredito no oposto. Os problemas aparentemente individuais são coletivos. Todos temos mais ou menos os mesmos problemas, de modo que o individual não é o contrário do político. Como a política, esfera pública por excelência, pode tirar partido das revoluções que abalam seu oposto natural, a esfera privada? Como não perder de vista questões cruciais de economia e geopolítica, ao mesmo tempo conduzindo em escala nacional uma política que, enfim, libera a vida privada e ajuda os indivíduos a superar as desigualdades que os impedem de desabrochar? Uma coisa é certa: quem achar a resposta será o grande político do século!

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2807200818.htm