segunda-feira, 2 de abril de 2012

Trick or Treatment

Colocado assim parece óbvio, mas sempre me perguntei por que não poderíamos aproveitar o efeito placebo nos tratamentos convencionais…

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São Paulo, domingo, 1º de abril de 2012Opinião

HÉLIO SCHWARTSMAN

Do direito de furar

SÃO PAULO - Para a Justiça, só médicos têm o direito de praticar acupuntura. Receio que nossos magistrados tenham sido afoitos. Antes de aplicar o princípio da reserva de mercado, teria sido oportuno estabelecer se a milenar técnica chinesa tem fundamento científico. E, à luz das melhores evidências disponíveis, a resposta é "provavelmente não".

Como mostram Simon Singh e Edzard Ernst em seu instrutivo "Trick or Treatment", quando ressurgiu com força no Ocidente, nos anos 70, a acupuntura parecia capaz de fazer milagres. Era recomendada para tudo, de daltonismo a AVC. A própria Organização Mundial da Saúde publicou, em 1979 e de novo em 2003, revisões bastante favoráveis à técnica, que foi incorporada como parte do arsenal terapêutico por diversos governos e associações médicas.

Profissionais mais céticos, entretanto, insistiram em que a acupuntura deveria ser investigada com mais rigor. E trabalhos de melhor qualidade, como uma série de metanálises patrocinadas pela rede Cochrane, reduziram o escopo de aplicações. Mostraram que ela talvez servisse para tratar dores e náuseas, descartando quase todos os outros usos.

O golpe mais duro veio depois que os estudos passaram a incorporar controles nos quais o paciente crê receber tratamento, mas a acupuntura é falsa (aplicada em pontos "errados" ou com agulhas telescópicas que nem furam a pele). Nesses trabalhos, o benefício da acupuntura em dores e náuseas fica indistinguível do efeito placebo, que é quando o paciente melhora por simples sugestão.

Isso nos leva a uma questão ainda mais complicada. Já que o efeito placebo é real, por que não aproveitá-lo, trazendo-o para a prática médica? Pílulas de farinha e falsas agulhadas raramente provocam reações adversas e são baratas. A objeção é de ordem ética. Todo placebo envolve algum grau de enganação. No longo prazo, erode-se a confiança nos profissionais e na própria medicina.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/34562-do-direito-de-furar.shtml

quarta-feira, 7 de março de 2012

piauienses: Islândia, a ilha-laboratório

Ísi relembra: “Quando ele encerrou com ‘Que Deus proteja a Islândia’, todo mundo pensou: ‘Fodeu.’” Alguns saíram atrás de um caixa 24 horas para ver se o sistema ainda funcionava. Outros ligaram para casa e tentaram acalmar a família. Muitos pensaram em estocar comida. “Foi a semana louca”, prossegue Ísi.“Em sete dias, todos os bancos quebraram. Sem recursos externos, a Islândia talvez não conseguisse mais importar comida e, como quase nada cresce nessa terra gelada, nós passaríamos fome. Nunca tínhamos ouvido falar em ‘segurança alimentar’.” De um dia para outro, a carruagem virava abóbora. “Nem isso”, reagiu um cidadão perplexo, “uma abóbora a gente come.”

A ilha-laboratório
Três anos depois de um colapso financeiro devastador, a Islândia é tida como exemplo por manifestantes europeus, economistas reputados e organismos internacionais. Na iminência da derrocada do projeto europeu, o país tem mesmo algo a ensinar?
por João Moreira Salles | Revista Piauí | edição 65 (fev/2012)
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-65/carta-da-islandia/a-ilha-laboratorio

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Hellhole

“It’s an awful thing, solitary,” John McCain wrote of his five and a half years as a prisoner of war in Vietnam—more than two years of it spent in isolation in a fifteen-by-fifteen-foot cell, unable to communicate with other P.O.W.s except by tap code, secreted notes, or by speaking into an enamel cup pressed against the wall. “It crushes your spirit and weakens your resistance more effectively than any other form of mistreatment.” And this comes from a man who was beaten regularly; denied adequate medical treatment for two broken arms, a broken leg, and chronic dysentery; and tortured to the point of having an arm broken again. A U.S. military study of almost a hundred and fifty naval aviators returned from imprisonment in Vietnam, many of whom were treated even worse than McCain, reported that they found social isolation to be as torturous and agonizing as any physical abuse they suffered.

[...]

Most hostages survived their ordeal, Fletcher said, although relationships, marriages, and careers were often lost. Some found, as John McCain did, that the experience even strengthened them. Yet none saw solitary confinement as anything less than torture. This presents us with an awkward question: If prolonged isolation is—as research and experience have confirmed for decades—so objectively horrifying, so intrinsically cruel, how did we end up with a prison system that may subject more of our own citizens to it than any other country in history has?

[...]

One of the paradoxes of solitary confinement is that, as starved as people become for companionship, the experience typically leaves them unfit for social interaction. [...] Perversely, then, the prisoners who can’t handle profound isolation are the ones who are forced to remain in it. “And those who have adapted,” Haney writes, “are prime candidates for release to a social world to which they may be incapable of ever fully readjusting.”

[...]

Advocates of solitary confinement are left with a single argument for subjecting thousands of people to years of isolation: What else are we supposed to do? How else are we to deal with the violent, the disruptive, the prisoners who are just too dangerous to be housed with others?

[...]

And evidence from a number of studies has shown that supermax conditions—in which prisoners have virtually no social interactions and are given no programmatic support—make it highly likely that they will commit more crimes when they are released. Instead, the report said, we should follow the preventive approaches used in European countries.

HELLHOLE
The United States holds tens of thousands of inmates in long-term solitary confinement. Is this torture?
by Atul Gawande | The New Yorker | MARCH 30, 2009
http://www.newyorker.com/reporting/2009/03/30/090330fa_fact_gawande

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

piauienses: Comissão da Verdade

Um dos juízes pediu que ela dissesse alto o que estava escrito nas camisetas que as famílias foram impedidas de usar no julgamento do STF. Ela disse: “A única luta que se perde é a que se abandona.”
Conciliação, de novo
Como um acordo entre o governo e a cúpula das Forças Armadas, e entre o PT, o PSDB e o DEM, impede que a Comissão da Verdade julgue militares e policiais que torturaram, mataram e desapareceram com corpos durante a ditadura
por Consuelo Dieguez | Revista Piauí | edição 64 (jan/2012)
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-64/questoes-historico-politicas/conciliacao-de-novo

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Contradição

São Paulo, terça-feira, 7 de fevereiro de 2012Opinião

HÉLIO SCHWARTSMAN

O prazer da contradição

SÃO PAULO - Há algo de pedagógico na alternância do poder: percebemos com que facilidade situação e oposição trocam de papéis -e de princípios. A greve da PM baiana é uma oportunidade sem igual de ver a natureza humana em ação.

Em 2001, membros da corporação deflagraram uma paralisação, que também degenerou em violência. Na ocasião, o PT, por intermédio de Lula, defendeu a legitimidade da greve e responsabilizou o governo baiano, que era do PFL, pela barbárie. Hoje, o governador petista Jaques Wagner chama alguns dos grevistas de bandidos e se recusa a negociar. Denuncia a utilização política do movimento.

Ainda mais instrutivo é ver como os blogs de simpatizantes e antipatizantes do PT tratam a disputa, que ainda ganha pitadas do caso Pinheirinho.

A pergunta que fica é: as pessoas não se dão conta de suas contradições? E a resposta é "muito pouco".

O psicólogo Drew Westen mostrou que, na política, emoções falam mais alto que a lógica. Ele monitorou os cérebros de militantes partidários enquanto viam seus candidatos favoritos caindo em contradição. Como previsto, eles não tiveram dificuldade para perceber a incongruência do "inimigo", mas foram bem menos críticos em relação ao "aliado".

Segundo Westen, quando confrontados com informações ameaçadoras às nossas convicções políticas, redes de neurônios associadas ao estresse são ativadas. O cérebro percebe o conflito e tenta desligar a emoção negativa. Circuitos encarregados de regular emoções recrutam, então, crenças capazes de eliminar o estresse. A contradição é apenas fracamente percebida.

A surpresa foi constatar que esse processo de relativização não se limita a desligar as emoções negativas. Ele também dispara sensações positivas, acionando circuitos do sistema de recompensa, que coincidem com as áreas ativadas quando viciados em drogas tomam uma dose. Em suma, políticos e simpatizantes sentem prazer ao ignorar suas contradições.

helio@uol.com.br

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/24407-o-prazer-da-contradicao.shtml

domingo, 22 de janeiro de 2012

piauienses: A maldição do petróleo

Marcel Mochet/AFP/Getty Images

Uma plataforma de petróleo no mar noroeguês

O que a Noruega tem a ensinar para o Brasil:

“Desde a primeira descoberta, sempre tratamos o petróleo como problema”, disse Øystein Kristiansen na sede da Diretoria Norueguesa de Petróleo, na cidade de Stavanger. […] Øystein Kristiansen é diretor de projetos internacionais da Diretoria Norueguesa de Petróleo. Começou a aprender português porque uma de suas funções é assessorar o governo de Moçambique, que em outubro anunciou a descoberta de expressivas reservas de gás em alto-mar. [...] Seu objetivo é ajudar Moçambique a escapar da “doença holandesa”. Criada pela revista The Economist, em 1977, a expressão se refere ao súbito desequilíbrio, e piora geral, de uma economia nacional quando ela é beneficiada pela descoberta de um recurso natural valioso.

Mas aparentemente nos recusamos a aprender:

E o projeto do coração de Farouk é uma fundação criada pelo governo para transferir conhecimento e treinar técnicos do setor energético em outros países. Duas vezes por ano, essa fundação recebe em Stavanger quarenta alunos para um curso de gestão de recursos com duração de oito semanas. O grupo de 2011 incluiu alunos de 24 países. Há engenheiros, geólogos, economistas, contadores, advogados, todos funcionários públicos em seu país ou vinculados às companhias nacionais de petróleo. [...] A Petrobras foi várias vezes convidada a enviar técnicos para o curso, mas nunca participou.

O iraquiano que foi para o frio
Como Farouk al-Kasim venceu a doença holandesa e desenvolveu o modelo norueguês de gerir as riquezas petrolíferas sem desequilibrar a economia
Revista Piauí | dez/2011 | por Branca Vianna

Recomendo também a ótima reportagem do programa Planet Money da rádio pública americana (NPR):

Norway Has Advice For Libya
(áudio, em inglês, 21:44)

piauienses: Beatriz Sarlo

Ela já esteve uma vez com o ex-presidente brasileiro, quando recebeu a medalha de Ordem do Mérito Cultural. Quebrou o protocolo, que a mandava receber a medalha e voltar a sentar. Pois ela atravessou o palco para abraçar Lula. “No ano que vem, quando o senhor ficar desempregado, vá para a Argentina que daremos um jeito de elegê-lo”, disse. Lula respondeu-lhe com um abraço. “Naquele momento, senti o poder físico do carisma”, relembrou.

Comigo não
Beatriz Sarlo, a voz do contra na Argentina
Revista Piauí
| dez/2011 | por Carol Pires
(original em espanhol)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Fundamentos do ateísmo

Hélio Schwartsman | Folha de S. Paulo | 10 de dezembro de 2011

SÃO PAULO - Já que dois amigos meus, Ives Gandra Martins e Daniel Sottomaior, se engalfinharam em polêmica acerca de um suposto fundamentalismo ateu, aproveito para meter o bedelho nessa intrigante questão. Como não poderia deixar de ser, minha posição é bem mais próxima da de Daniel que da de Ives.

Não se pode chamar de fundamentalista quem exige provas antes de crer. Aqui, o alcance do ceticismo é dado de antemão: a dúvida vai até o surgimento de evidências fortes, as quais, em 2.000 anos de cristianismo, ainda não apareceram.

Ao contrário, dogmas vão contra tudo o que sabemos sobre o mundo. Virgens não costumam dar à luz e pessoas não saem por aí ressuscitando. Em contextos normais, um homem que veste saias e proclama transformar vinho em sangue seria internado. Quando se trata de religião, porém, aceitamos violações à física e à lógica. Por quê?

Ou Deus existe e espera de nós atitudes exóticas -e inconsistentes de uma fé para outra-, ou o problema está em nós, mais especificamente em nossos cérebros, que fazem coisas esquisitas no modo religioso.

Fico com a segunda hipótese. Corrobora-a um número crescente de cientistas que descrevem a religiosidade ou sua ausência como estilos cognitivos diversos. Ateus privilegiam a ciência e a lógica, ao passo que crentes dão mais ênfase a suas intuições, que estão sempre a buscar padrões e a criar agentes.

Posta nesses termos, fé e ceticismo se tornam um amálgama de influências genéticas e culturais difícil de destrinchar -e de modificar.

Como bom ateu liberal, aplaudo avanços no secularismo, já que contrabalançam o lado exclusivista das religiões, que não raro degenera em violência e obscurantismo. Mas, ao contrário de colegas mais veementes, acho que a religião, a exemplo do que se dá com filatelia, literatura e sexo, pode, se bem usada, ser fonte legítima de bem-estar e prazer.

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/13913-fundamentos-do-ateismo.shtml

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Piauienses: O traidor


“Vão nos fuzilar. Pois bem. E daí?”, diziam.

“Depois vou enterrá-los segundo o ritual católico!”, gritava De Foxá, espumando de raiva, com lágrimas nos olhos. Porque meu caro Augustin é um homem bom, e sofria daquela magnífica e terrível teimosia.

“O senhor não faria isso”, diziam os prisioneiros, “usted es un hombre honesto.

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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Tales from Lake Wobegon

We were sitting there, side by side. Thirteen years old. And she looked at me, and she said, ‘Would you like to wrestle?’ She had brothers, and I guess one of them was not available. I’d never wrestled with a girl before. And I looked at her, not sure what to say. I was brought up not to attack a girl. That was against our code! I thought about this, and while I was thinking about it, she doved onto me, and she pushed me down, she wrapped her powerful arms around me. And we laid there in the grass, and she wrapped her legs around my waist, and her hair was in my face, and then her face was alongside my head. And I can remember feeling her ribs against mine, and her arms around me, and I struggled to break her hold, and I got free. And I got up on my knees, and then she took me down again. And when she took me down again, I realized that the difference between winning and losing was negligible.

(via The News from Lake Wobegon)

Sentirei muita falta das histórias de Garrison Keillor a partir de 2013...

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

Operação Lesa-Cidadão

Nenhuma surpresa para quem leu a excelente reportagem da Piauí sobre os bastidores da copa sul-africana:



São Paulo, domingo, 24 de julho de 2011

FERNANDO DE BARROS E SILVA

A farra do Itaquerão

SÃO PAULO — Dos cofres do Estado não sairá nenhum centavo para construir um estádio particular. Geraldo Alckmin insistiu durante meses nessa tecla. Ele gosta de cultivar a imagem do gestor franciscano.
Afinal, diante de tantas prioridades, seria imoral enterrar dinheiro público no Itaquerão. O frade tucano de Pindamonhangaba precisa agora mastigar seu discurso.
Quem nos comunicou que o governo vai entrar com R$ 70 milhões para viabilizar a abertura da Copa no futuro estádio do Corinthians foi um diretor da Odebrecht. Onde fomos parar: o empreiteiro anuncia à população que a obra privada terá mais dinheiro público, justamente daquele que havia prometido não gastá-lo. Só faltou dizer que a fiscalização ficará a cargo do Dnit.
Tudo isso se deu dias atrás, durante a cerimônia em que o prefeito Kassab oficializou a destinação de R$ 420 milhões para a arena.
Convocado a explicar a reviravolta do governo, o secretário Emanuel Fernandes disse que o dinheiro é só um "apoio logístico" para montar a estrutura provisória com 20 mil assentos. A verba, ele disse, não seria para o Corinthians, mas para a Copa... E daí? Não é dinheiro público?
O projeto básico do Itaquerão, com 48 mil lugares, está orçado em R$ 820 milhões. O BNDES vai emprestar R$ 400 milhões. O restante será financiado pelos CIDs (Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento) —nome pomposo para designar o dinheiro que as empresas deixarão de pagar em impostos à prefeitura. Perto de Kassab, Alckmin parece mesmo são Francisco.
Resumida a seu cerne, a novela ficou assim: Lula indicou a empreiteira, a Odebrecht fixou seu preço, Kassab e Alckmin (além dos juros subsidiados do BNDES) vão pagar a conta com o dinheiro dos contribuintes. É uma PPP tipicamente brasileira. Apesar da gastança de meio bilhão, a cidade foi humilhada pela CBF e pela Fifa e ficará fora da Copa das Confederações, em 2013. Mas isso é só a cereja do bolo dessa operação de lesa-cidadão.

(via Folha de S.Paulo)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Geração de emprego



São Paulo, quarta-feira, 20 de julho de 2011

FERNANDO RODRIGUES

Marcha da insensatez

BRASÍLIA - Duas notícias mostram o Brasil na contramão das boas práticas gerenciais. Dilma Rousseff pretende mesmo criar a 39ª cadeira de ministro. No Congresso, em breve, chegarão mais 16 deputados federais e 6 senadores por causa da divisão do Estado do Pará.
Não há consenso entre gurus corporativos sobre o número ideal de diretores em uma grande empresa ou governo. Mas prevalece o senso comum: muitos cargos de chefia provocam o colapso gerencial de qualquer organismo.
Com a criação da pasta da Micro e Pequena Empresa, a 39ª, Dilma terá de fazer suas reuniões ministeriais durante vários dias seguidos se quiser dialogar com todos os seus principais assessores.
Na hipótese de cada um dos 39 ministros dar seu recado inicial à presidente em meros 5 minutos, a reunião ministerial gastará 3 horas e 15 minutos. Esse tempo será cumprido no caso de ninguém estourar sua fala e Dilma se contentar só em ouvir e não interromper o interlocutor nem fazer questionamentos.
No Congresso, a situação ainda é mais dramática. A Constituição estabelece um piso (8) e um teto (70) para o número de deputados federais de cada Estado. O crescimento do eleitorado e a criação de novas unidades da Federação produzirão, num futuro próximo, uma Câmara com 600 ou mais vagas.
Hoje já é quase inviável praticar política de alto nível com os atuais 513 deputados representando os 191 milhões de brasileiros. Só como comparação, nos EUA (307 milhões de habitantes) a Câmara dos Representantes tem apenas 435 deputados com direito a voto.
Em Brasília, esses argumentos são ignorados. Está em curso uma marcha da insensatez. Logo chegam o 39º ministro e mais congressistas. Embora nem tudo seja obra de Dilma Rousseff, esse será um legado de sua passagem pelo poder. A presidente tem meios para frear o inchaço da máquina pública, mas não demonstra apetite pelo tema.

fernando.rodrigues@grupofolha.com.br

URL: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2007201104.htm

quarta-feira, 13 de julho de 2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Piauienses: a tragédia (anunciada) de Nova Friburgo

Amaral olhava do helicóptero para aquele desastre e pensava nos tantos que ainda iriam ocorrer no futuro, por puro descaso. Um estudo feito pelo seu grupo mostrava que no Brasil há um atraso de cinquenta anos na prevenção de catástrofes. Ainda que se comece agora a fazer um programa – necessário e caro – de remoção de moradores, de recuperação de encostas e de dragagem de rios, ainda se levará meio século para que chuvas como a do último verão não provoquem tantos danos.

[...]

Até agora, não se sabe o que fazer com os desabrigados. Em Nova Friburgo, nenhuma nova casa foi construída para abrigá-los. Nenhum plano de recuperação foi ainda apresentado. A economia da cidade, com as perdas da indústria, do comércio e do turismo, encolheu.

Ninguém, entre as dezenas de milhares de feridos, ou os 12 mil que perderam suas casas, ou os familiares dos 440 que morreram, recebeu qualquer indenização. Nenhuma autoridade foi responsabilizada ou perdeu o emprego. Não houve nenhum protesto.

O fim do mundo
A catástrofe de Friburgo, obra nacional
por Consuelo Dieguez
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-56/questoes-recorrentes/o-fim-do-mundo

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O provocador cordial

São Paulo, domingo, 19 de junho de 2011 

PERFIL

O provocador cordial 

Aos 80, FHC se reinventa

RESUMO
Fernando Henrique Cardoso encontra no ativismo pela descriminalização da maconha uma forma de restituir a articulação entre atuação intelectual e carreira política. Ao buscar um arremate progressista para vida e obra, o ex-presidente delineia seu perfil entre "temperamento conciliador" e "pensamento conflitivo".


Rafael Campos Rocha


FERNANDO DE BARROS E SILVA

FERNANDO HENRIQUE Cardoso entra na sala de seu apartamento, no bairro paulistano de Higienópolis, cinco minutos depois do horário combinado. Gentil e suave, pede desculpas e explica que estava se despedindo do filho, que havia dormido lá. 
Desde que Ruth Cardoso morreu, em 24 de junho de 2008, há três anos, FHC mora sozinho. Não mudou nada no lugar. Os filhos do casal (Luciana e Beatriz, além de Paulo Henrique) o visitam com frequência, vez ou outra dormem lá.
Fazia sol e frio na última terça pela manhã, quando ex-presidente recebeu a Folha para duas horas de conversa. Vestia suéter marrom-claro e calça de lã cinza. Carregava dois celulares, que deixou a seu lado, numa mesinha. Quando ambos tocaram, ao longo da entrevista, ele desligou sem atender.
Logo de saída, disse que nunca deu bola para o próprio aniversário, mas que achou muito simpático o jantar na sexta-feira anterior, na Sala São Paulo, quando 400 convidados -entre políticos, empresários, banqueiros, ex-ministros, intelectuais, jornalistas e amigos- comemoraram os seus 80 anos. Comemoração antecipada -FHC é de 18 de junho de 1931, desde ontem um jovem octogenário.
O ex-presidente comentou que só não aproveitou inteiramente a homenagem porque está com diverticulite -uma inflamação no intestino. Não pode beber álcool e tem restrições alimentares. Foi medicado, tudo sob controle, diz, lembrando que foi essa a doença que desencadeou a morte de Tancredo Neves, em 1985. (Tancredo, na verdade, tinha um tumor benigno e morreu de septicemia -infecção generalizada- depois de ser operado, conforme a Folha revelou na época.)

FENÔMENO Na Sala São Paulo -uma espécie de Versalhes do tucanato, como alguém definiu -, no meio de tanta gente da elite paulista e seus agregados, quem causou frisson foi Ronaldo Fenômeno. Acompanhado pela mulher, Bia Anthony, passou não mais do que meia hora no salão -o suficiente para ser assediado por vários convidados. Vicky Safra, a mulher do banqueiro Joseph Safra, foi lá pedir um autógrafo ao ex-jogador. E a mulher do crítico literário Roberto Schwarz, Grecia, saiu correndo até a porta para tirar uma foto ao lado do ídolo quando ele já estava indo embora. 
Ali, Ronaldo destoava e brilhava à sua revelia. "Ele é um cara muito agradável, muito afetivo. Mas não é populista. Não gosta desse oba-oba", diz FHC sobre o Fenômeno. E completou: "A mulher dele ajuda muito também -é interessante, simpática, inteligente."
O tucano ficou amigo do craque aposentado há pouco tempo, quando este ainda atuava pelo Corinthians. Visitam-se e até jogaram pôquer juntos, mas FHC diz que a mesa do Fenômeno não é para o seu bico. "Eu disse a ele: 'Está maluco?! Eu aposto R$ 10, vocês são milionários!'" 
O ex-presidente diz "jogar um poquerzinho com os amigos de vez em quando". O historiador Boris Fausto e o cientista político Leôncio Martins Rodrigues, seus amigos de juventude, sempre participam da mesa, entre outros convidados. Brincalhão e gozador, FHC costuma desafiar os demais dizendo saber o jogo que cada um tem nas mãos. Não deixa de ser uma espécie de blefe ao contrário. 
Intelectualmente, FHC também foi sempre um provocador. Intuiu cedo que o jogo da esquerda, da qual fazia parte (e da qual ainda se julga parte), era uma espécie de blefe. O tempo mostra que ele mais acertou do que errou conforme foi publicando as obras que o projetaram a partir dos anos 60.

CONFLITIVO Quase no fim da entrevista, FHC se definiu como uma pessoa "de temperamento conciliador e pensamento conflitivo". A imagem é precisa para sintetizar sua atuação como político e sua força como sociólogo. 
Entre um e outro, a relação é mais complementar do que se imagina. De certa forma, o político FHC "realizou" o que o intelectual escreveu -muito mais, por exemplo, do que Lula cumpriu o que falava até chegar à Presidência. 
É irônico, também por isso, que FHC carregue como um estigma o "esqueçam o que escrevi". Teria dito isso num almoço com empresários, em 1993, quando era ministro da Fazenda, de acordo com o relato de terceiros. Grudou nele como símbolo do político que traiu o intelectual, apesar de FHC repetir que a frase não existiu ("nunca ninguém afirmou que tenha ouvido essa frase; é maldade pura"). 
Pelo contrário, FHC não esconde o orgulho que tem da sua obra de juventude. Em termos teóricos, ele na verdade mudou muito pouco, justamente porque sempre foi muito pouco dogmático.

OPOSIÇÃO Sua mais recente intervenção como ideólogo do PSDB saiu pela culatra. Num texto chamado "O Papel da Oposição", publicado em abril na revista "Interesse Nacional", FHC escreveu que "enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais ou o povão, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos". 
O uso infeliz da expressão "povão" fez o mundo desabar sobre sua cabeça e interditou o debate. Para além do ato falho, no entanto, o texto identifica uma brecha de atuação para o PSDB na emergência de uma grande classe média que não se identifica com o PT de forma automática e tem demandas de consumo e cultura novas.
O jornalista pergunta: para cumprir esse papel o PSDB não teria que caminhar para a direita? Mais ainda, o PSDB não estaria condenado a ser o contraponto conservador do PT, uma espécie de Partido Republicano brasileiro?
FHC dá um jeito de dizer educadamente que as questões são equivocadas. E explica, começando por Marx: "O pressuposto de que, por definição, os mais pobres são os mais progressistas não é marxista. Marx dizia que eram os trabalhadores e os intelectuais que fariam a revolução, não os miseráveis. Ninguém está mais pensando em revolução hoje". 
E prossegue: "O pressuposto de que olhar para as classes emergentes te empurra para a direita não tem sustentação. A direita pode estar em outro lugar. Inclusive entre os mais pobres. Eu não escrevi aquele texto pensando em ideologia. Escrevi pensando na desconexão atual entre a sociedade e as instituições políticas. Como essa é uma sociedade com muita mobilidade, tem gente, ou muita gente, sem conexão." 
E conclui: "O Estado pode prender os mais pobres, pelo clientelismo. Como nós, do PSDB, não temos o Estado nas mãos, é mais difícil mexer nessas camadas. Mas tem muita gente que não está amarrada". Os tucanos, então, não devem ser os republicanos ao sul do Equador? 
FHC rebate: "Não concordo com aqueles que fazem analogia entre o PT e o Partido Democrata e o PSDB e os republicanos. Somos muito diferentes dos americanos. Os republicanos são conservadores e se assumem como tal. Há uma massa da população que quer ser conservadora. No Brasil, não tem isso. Quem for por aí está perdido. Não tem nem o pensamento, nem pessoas com essa predisposição. Você vai ter, isso sim, alianças entre setores que são dinâmicos e modernizadores. O agronegócio no Centro-Oeste e as camadas médias, por exemplo. Mas por que chamar isso de conservador, se é dinâmico e modernizador?"
"Não estou dizendo que não existam conflitos de classe aí. Mas é diferente do Partido Republicano. Ele é reacionário, é ideológico. No limite, é a favor da pena de morte. Aqui não tem essa coerência. Talvez essa sociedade que está se abrindo não possa mais ser descrita pelas categorias com as quais nós a pensamos no passado. O PFL [atual Democratas] poderia ser um partido liberal. Mas não é. Veja o prefeito de São Paulo, criou outro partido. É liberal? Não é nada. Os liberais brasileiros sempre foram estatizantes. São do Estado, clientelistas."

SOCIÓLOGO Essas respostas explicitam um modo de pensar que remete ao sociólogo dos anos 60. 
Primeiro, observar a realidade -o que parece óbvio, mas não é. Segundo, não usar categorias -sejam conceitos ou situações históricas- sem submetê-las ao crivo da realidade que se quer explicar.
O primeiro grande livro de FHC é "Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional", sua tese de doutorado, de 1962. Tratava-se de entender, a partir do estudo da economia do charque, no Rio Grande do Sul, a complicada e aberrante convivência entre estes dois termos -capitalismo e escravidão. Quais são os nexos entre eles? 
"A escravidão não poderia ser explicada sem referência à expansão do grande capitalismo", disse FHC à Folha, numa entrevista de 1996. "Mas a história do Brasil não é uma cópia do que está acontecendo na Europa. Há uma singularidade. Ao mesmo tempo, ela não tem leis próprias: é derivada, subordinada, dependente. Do ponto de vista teórico, era o mesmo mecanismo que usei depois para discutir a dependência."

DEPENDÊNCIA No mesmo ano, FHC começou a estudar o empresariado brasileiro. Em 1962, o mundo vivia o auge da Guerra Fria, polarizado em dois blocos, e os intelectuais da América Latina estavam sob forte impacto do êxito da Revolução Cubana. 
O socialismo mais do que nunca fazia parte do horizonte histórico. A posição dominante na esquerda, encampada pelo Partido Comunista, rezava que, para atingir o reino sonhado, as nações periféricas precisavam antes fazer a sua revolução democrático-burguesa, a fim de derrotar as forças do atraso.
Entendia-se por isso a associação entre imperialismo e elites latifundiárias, que bloqueava a chegada do progresso -ou, como se dizia, o "desenvolvimento das forças produtivas". A burguesia nacional era, portanto, aliada estratégica dos trabalhadores.
Quando publicou "Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil" (1964), Fernando Henrique mostrou que, no mundo real, as coisas vinham funcionando de maneira bem diferente. A burguesia nacional já estava ligada ao imperialismo, "satisfeita com a condição de sócia menor do capitalismo ocidental". Os pressupostos teóricos da esquerda eram fantasiosos.

CATASTROFISMO FHC passava a ser o grande adversário das teses catastrofistas em voga na época, segundo as quais países como o Brasil estavam condenados à estagnação e só teriam chances de se desenvolver fora dos marcos do capitalismo. Sociólogos como o americano André Gunder Frank e os brasileiros Theotonio dos Santos e Rui Mauro Marini, conhecidos como "dependentistas de esquerda" -hoje caídos no esquecimento-, partilhavam dessas ideias com razoável sucesso.
Em contraponto a eles, o livro que consagrou a teoria da dependência na versão fernandina seria um desdobramento das análises do "Empresário Industrial".
Lançado em 1967, no Chile, em parceria com o argentino Enzo Faletto, "Dependência e Desenvolvimento na América Latina" reconhecia que a economia brasileira se industrializava e que não havia estagnação, apesar da inserção dependente do país na ordem global. Dizia ainda que essa dependência só poderia ser bem compreendida com a especificação histórica dos conflitos políticos internos de cada país e da sua relação com a política e a economia internacionais.

PRESIDENTE Faz sentido que a chegada à Presidência, em 1994, tenha sido vista como uma janela de oportunidade para o país adequar seu desenvolvimento -na verdade, retomá-lo depois da falência do nacional-desenvolvimentismo- à nova ordem mundial. 
Na ocasião, o cientista político José Luís Fiori chegou a publicar, durante a campanha eleitoral, um ensaio no caderno Mais! que ficou célebre. Chamava-se "Os Moedeiros Falsos", em referência ao romance de André Gide, do qual tirou a epígrafe: "Afinal, é preciso admitir, meu caro, que há pessoas que sentem necessidade de agir contra seus próprios interesses".
Fiori dizia que FHC "resolveu acompanhar a posição de seu velho objeto de estudo, o empresariado brasileiro, e assumiu como fato irrecusável as atuais relações de poder e dependência internacionais. Deixou seu idealismo reformista e ficou com seu realismo analítico para propor-se como 'condottiere' da sua burguesia industrial, capaz de reconduzi-la a seu destino manifesto de sócia-menor e dependente do mesmo capitalismo associado, renovado pela terceira revolução tecnológica e pela globalização financeira". Esqueçam o que escrevi? Nunca! Exatamente o contrário. 
Para FHC, em geral, os intelectuais têm dificuldades de compreender a política pois sofrem de deficit de realidade. Alguém de boa-fé negaria que o país que o tucano entregou a Lula era bem melhor do que o recebido por ele? "A maior injustiça que fazem comigo é me chamar de neoliberal. O que fiz foi reestruturar o Estado", diz.
O ex-presidente vê seu governo como parte de um processo de avanços que começa na década de 1980. No resumo de FHC, os passos fundamentais da história recente do Brasil foram os seguintes: primeiro, o movimento que vai das Diretas-Já à Constituinte. A Constituição desenhou o arcabouço social do Brasil contemporâneo. 
O segundo passo foi dado com Fernando Collor: "Abriu a economia, atabalhoadamente, mas abriu". O terceiro passo foi a estabilização da moeda. O quarto, a reforma patrimonial do Estado. O quinto são as políticas sociais. "Isso é a história do Brasil recente. Esses são os pontos importantes. E há continuidade nisso, da Constituição para cá", sustenta.

CEBRAP Entre a teoria da dependência e o Real, muita coisa aconteceu. Em 1969, cassado na USP, FHC fundou com outros professores o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), que iria se tornar, nos anos 70 e 80, o principal centro de estudos de corte progressista do país, além de celeiro de quadros intelectuais absorvidos por governos democráticos, a começar pelo de Franco Montoro em São Paulo, em 1982.
Participou da formulação da anticandidatura presidencial de Ulysses Guimarães, em 1973, e projetou-se como liderança da sociedade civil nascente que pressionava pelo fim do regime militar. 
Em 1975, publicou "Autoritarismo e Democratização", aproximando-se como intelectual do assunto que pautaria a década. Suplente de senador em 1978, assumiu o mandato em 1983, quando Montoro se elegeu governador. Derrotado por Jânio Quadros na disputa pela Prefeitura de São Paulo em 1985 -seu pior revés político-, foi senador até 1992. Fundou o PSDB em 1988 e foi chanceler de Itamar Franco por poucos meses, até assumir a Fazenda em 1993 e entrar para a história.
Apesar da trajetória incomum e brilhante, FHC diz ter sido "um presidente acidental". O cargo -ele tenta convencer o interlocutor- nunca o obcecou. 
Talvez com isso queira marcar um contraponto entre o seu jeito maleável de lidar com a política e os acasos da existência e a ideia fixa de uma vida inteira, encarnada por seu amigo José Serra. "Eu não sou um político tradicional, não vivo da política. E talvez nem para a política, na acepção weberiana, da vocação. O lado intelectual é forte em mim. O lado provocador, de arriscar, de flertar com posições de vanguarda."

MACONHA Fernando Henrique vem desempenhando de um ano para cá um papel que não é nem o do intelectual, nem o do político, embora ambos nele convivam. Aos 80, adotou a causa da descriminalização da maconha e se tornou uma espécie de ativista global, pesquisando e discorrendo sobre o assunto mundo afora. O protagonismo no documentário recém-lançado "Quebrando o Tabu", do diretor Fernando Grostein Andrade, deu a FHC uma nova notoriedade. Na prática, ele passou a se dirigir a uma geração que hoje tem 18 anos e estava nascendo ou engatinhava quando ele se elegeu presidente.
O engajamento de FHC nessa questão parece funcionar como um arremate progressista em sua biografia, em sintonia com o lugar que ele sempre quis ocupar. 
"É um tema mais fácil para um político fora do jogo eleitoral, como eu, que nem político no sentido convencional sou", diz. Para ele, seu partido, o PSDB, por ora deve ficar fora da discussão, para não atrapalhar: "As pessoas reclamam, dizem 'ah, o PSDB não está dando apoio', mas é melhor que não se meta. Se for se meter, vai se meter com o preconceito. Quando na sociedade houver uma coisa mais clara, opções reais, aí os políticos entram". Ele acredita que a sociedade brasileira, conservadora nessa matéria, ainda não está madura para influenciar os políticos, e os políticos não vão na vanguarda. Esses, ele diz, entusiasmado, são "temas de vanguarda", que "têm conexão" com a vida real. 
"Anda comigo na rua para você ver se não tem", provoca, quase brincando, depois de dizer que outro dia o porteiro de um prédio vizinho o abordou para elogiar sua posição.

SOCIALISTA Já é meio-dia e o jornalista pergunta se FHC algum dia foi, de fato, socialista. A resposta vem assim:
"Nunca fui militante no sentido estrito. Eu era estudioso. Na altura do seminário do Marx [entre os anos 50 e 60], ninguém era ligado a partido. E nunca me entusiasmei com a luta armada. Mas até hoje eu acho o sistema capitalista extremamente difícil de tragar. Pessoalmente, não aceito desigualdades. Tenho horror a prerrogativas."
E exemplifica: "A mim me constrange, por exemplo, não entrar numa fila. Eu primeiro vou para a fila. Depois alguém pode me tirar, mas eu vou. No instituto, eu fico na fila para entrar no elevador. Não suporto 'entourage'. Ao contrário do que muita gente pensa, meu ser não é afim com esse sistema. Sou mais igualitário, como sentimento. Agora, sou realista."

quarta-feira, 18 de maio de 2011

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Why I'll Remember May 2, 2011

The New York Times

I'm an American who works abroad. Today I woke up earlier than usual and while soberly checking the international news, I saw immediately (and everywhere) that Osama bin Laden had been killed. Good news, I suppose. The almost mythical leader of Al-Qaeda, who nearly everyone had forgotten about, was dead and dumped in the sea. He had been irrelevant for long, I thought, but perhaps his death would lead to some much-needed reflection about the catastrophe that was the last decade. Right.

I will not remember today for Osama's death. I will remember it for the way I felt watching the videos of my countrymen celebrating in the streets of New York and Washington. I don't recognize them, these people waving flags, singing, and pouring their jubilation into the night because we killed someone. And what about all the others that have been killed? During 10 years we spent unbelievable amounts of blood and treasure, enacted unthinkable civil liberties legislation, and turned ourselves into brutes for this.

And there we were out on the streets. Brutes. We have become brutes.

Yes, the world is a better place without Osama bin Laden. But I fear what this has brought out in us. The structural factors that create Osama bin Ladens still exist, and unless we work to change those, we will continue to undermine ourselves by giving our attention to tomorrow's straw man.

(HeathenFace via reddit)